sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Recesso




O ano de 2011 está dando seu adeus. E, certamente, com ele também vai todos os momentos de alegrias e vitórias adquiridos ao longo de doze meses. Se eu tivesse que escolher uma palavra para definir o que 2011 significou para o Menino das Letras, provavelmente seria: surpreendente. Não apenas pelo blog ter completado um ano, o que por si só já foi uma grande conquista, mas também por ter crescido em diversos sentidos.

Fazendo uma breve retrospectiva, no início do ano o Menino das Letras acrescentou novos marcadores ao seu sistema (vídeos e músicas), o que parece ter surtido um efeito positivo em você, leitor(a). No mês de maio o blog comemorou seu primeiro aniversário, o qual gerou comentários construtivos de familiares, amigos, e fez até com que alguns leitores tivessem a coragem de se apresentar pessoalmente. No mês seguinte foi feita a criação de mais um marcador (clássicos), que embora não seja muito comentado é a base de leitura para vários visitantes.

O blog também passou por uma "reforma", tendo sido inserido vários novos elementos ao seu design - enquetes, por exemplo - e adotado um novo layout. Além disso, o número de visualizações duplicou e nem se compara com a quantidade de acessos do ano anterior. As postagens estão mais organizadas e mais bem escritas (modestia parte), tudo para agradar os leitores e fazer com que se sintam bem, evitando uma leitura enfadonha e dando-lhes a oportunidade de conhecer algo cultural e bacana.

Caminhos misteriosos é o que 2012 reserva para o Menino das Letras. Talvez chegue um ponto em que o blog não seja atualizado com tanta frequência, o que me faz pensar mais ainda na ideia de formar uma equipe. Como eu faço e escrevo tudo sozinho por aqui - e, diga-se de passagem, 2011 foi um dos anos que mais escrevi na vida - é justo que eu tire um breve recesso, reativando o blog a partir do dia 16 de janeiro. Enquanto isso, você, leitor(a), pode ficar à vontade para revisitar postagens antigas e preferidas, assim como votar nas novas enquetes.

2012 está chegando e promete trazer muitas coisas boas no universo da cultura, e o Menino das Letras fará de tudo para acompanhar as novidades. Desejo que o seu ano novo seja repleto de triunfos, que você continue visitando o blog, e que o Menino das Letras cresça ainda mais, deixando de engatinhar para dar seus primeiros passos. E que seja feita, é claro, a vontade do glorioso Senhor Deus.

Amém.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Don't Shoot Me Santa





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É bastante comum enxergarmos o Natal como uma época de alegrias e festividades. Naturalmente, o encanto do evento de estende por muitos anos, e é quase certo que apenas uma criança possa ver tal data com a magia e a pureza que merece. Aliás, não é de se espantar; acreditar em um bom velhinho que distribui presentes para todas as crianças do mundo, que vive no Pólo Norte e voa em um trenó a uma velocidade impressionante, é realmente um sonho pelo qual vale a pena ter fé.


Ah, como seria um Natal perfeito se todas as crianças tivessem a esperança de ganhar um presente ou, ao menos, um pouco de carinho; como seria bom se todas as crianças tivessem um lar, uma família para compartilhar esse momento; como seria bom se todas elas tivessem de fato o direito à educação e pudessem discernir o certo daquilo que é errado; como seria bom se todas fossem afastadas do caminho da marginalização, dos pecados, da violência, e descobrissem o que verdadeiramente significa paz.


Infelizmente, parece que aquele antigo conceito de Papai Noel precisa ser readequado à triste realidade de milhões de crianças. Se várias delas, ao redor do mundo, estão à mercê da fome, da morte e da tragédia, talvez seja muito mais esperançoso acreditar em um velhinho protetor, vigilante e salvador. Um justiceiro disposto a castigar toda e qualquer criatura que um dia já cometeu atrocidades contra uma criança.


O videoclipe de hoje, da banda norte-americana The Killers, traz justamente esta proposta. Na canção "Don't Shoot Me Santa", vemos o diálogo entre um homem - provavelmente um assassino de crianças - e Papai Noel, o qual está se preparando para fazê-lo tomar uma dose do próprio remédio. E, por mais que seja um pensamento mórbido, seria muito interessante se fosse verdade.


Em tempos em que as crianças estão sujeitas a todo tipo de sofrimento, acreditar em Papai Noel é o primeiro estágio da insanidade. O encanto vai se perdendo, e o que antes era mágico torna-se melancólico. Mas o espírito natalino não pode depender apenas da crença no bom velhinho, é preciso ter fé em algo muito maior. Hoje, na véspera de Natal, feche os olhos e faça uma oração, pedindo a Deus pela proteção de todas as crianças. Muitas necessitam mais do que se imagina e, se de alguma forma conseguirmos levar alegria para pelo menos uma, o Natal ganhará um sentido muito melhor.













Letra:






Don't Shoot Me Santa







Brandon:
Oh Santa
I've been waiting on you
Santa:
That's funny kid
Because I've been coming for you
Brandon:
Oh Santa
I've been killing just for fun
Santa:
Well the party's over kid
Because I
Because I got a bullet in my gun
Brandon:
A bullet in your what?

(Santa's got a bullet in his gun
You know it, Santa's got a bullet in his gun)

Don't shoot me Santa Claus
I've been a clean living boy
I promise you
Did every little thing you asked me to
I can't believe the things I'm going through

Don't shoot me Santa Claus
Well no one else around believes me
But the children on the block they tease me
I couldn't let them off that easy

Brandon:
Oh Santa
It's been a real hard year
Santa:
There just ain't no gettin' around this
Life is hard
But look at me
I turned out alright
Brandon:
Hey Santa
Why don't we talk about it?
Work it out
Santa:
Believe me
This ain't what I wanted
I love all you kids, you know that
Hell, I remember when you were just 10 years old
Playing out there in the desert
Just waiting for a sip of that sweet Mojave rain

(in the sweet Mojave rain
The boy was on his own)

Don't shoot me Santa Claus
I've been a clean living boy
I promise you
Did every little thing you asked me to
I can't believe the things I'm going through

Hey Santa Claus
Well no one else around believes me
But the children on the block they tease me
I couldn't let them off that easy

They had it coming
So why can't you see?
I couldn't turn my cheek no longer
The sun is going down and Christmas is near
Just look the other way and I'll disappear forever

Woo!

Don't shoot me Santa Claus
Well no one else around believes me
But the children on the street they tease me
I couldn't let them off that easy

Believe me
Santa
Santa

Não Atire Em Mim, Noel







Brandon:
Oh, Noel
Eu estava esperando por você
Noel:
Isso é engraçado, garoto
Porque eu vim atrás de você
Brandon:
Oh, Noel
Eu tenho matado por diversão
Noel:
Bem, a festa acabou, garoto
Porque eu
Porque eu tenho uma bala na minha arma
Brandon:
Uma bala na sua o quê?

(Noel tem uma bala em sua arma
Você sabe, Noel tem uma bala em sua arma)

Não atire em mim, Papai Noel
Eu tenho sido um bom garoto
Eu prometo a você
Fiz tudinho que você me pediu
Eu não posso acreditar em tudo que venho sofrendo

Não atire em mim, Papai Noel
Ninguém mais por aqui acredita em mim
Mas as crianças do bairro, elas me provocam
Eu não podia deixa-las escapar tão facilmente

Brandon:
Oh Noel
Tem sido um ano tão difícil
Noel:
Não tem como escapar dessa situação
A vida é dura
Mas olhe para mim
Eu me virei bem
Brandon:
Hey Noel
Porque nós não conversamos sobre isso?
Para resolver esse problema
Noel:
Acredite em mim
Num era isso que eu queria
Eu amo todas as crianças, você sabe disso
Que inferno, eu lembro quando você tinha só 10 anos
Brincando lá no deserto
Esperando por um gole da doce chuva de Mojave

(Na doce chuva de Mojave
O garoto tinha que se virar sozinho)

Não atire em mim, Papai Noel
Eu tenho sido um bom garoto
Eu prometo a você
Fiz tudinho que você me pediu
Eu não posso acreditar em tudo que venho sofrendo

Não atire em mim, Papai Noel
Ninguém mais por aqui acredita em mim
Mas as crianças do bairro, elas me provocam
Eu não podia deixa-las escapar tão facilmente

Eles mereceram
Porque você não consegue ver?
Eu não podia continuar aceitando aquilo
O sol está se pondo e o Natal está perto
Só olhe pra outro lado e eu desaparecerei para sempre

Woo!

Não atire em mim, Papai Noel
Ninguém mais por aqui acredita em mim
Mas as crianças do bairro, elas me provocam
Eu não podia deixa-las escapar tão facilmente

Acredite em mim
Noel
Noel

sábado, 17 de dezembro de 2011

Tequila Vermelha



O exercício da escrita já é considerado difícil por exigir de quem escreve um bom conhecimento da norma culta da língua, criatividade no desenvolvimento das ideias e organização no que diz respeito à estrutura textual. Imagine então se, além de tudo isso, também fosse cobrado do escritor um alto nível de versatilidade; a capacidade de transitar por diversos gêneros e temas diferentes, preservando sua genialidade e propiciando ao leitor uma viagem, ainda que curta, por seu mundo de imaginação.


Talvez seja possível contar nos dedos quantos autores se atrevem a sair de suas zonas de conforto e expandir os limites da sua sabedoria literária, e ainda realizar tal feito com uma magistral eficácia. Rick Riordan, sem dúvidas, é um dos escritores mais consagrados da atualidade e certamente sabe como ser versátil e encantar o leitor. Antes mesmo de se aventurar nos terrenos da Literatura Infanto-juvenil, contando histórias de mitologia egípcia e de jovens semideuses gregos, a escrita de Riordan era voltada para o público adulto.


Em Tequila Vermelha, obra publicada lá fora nos anos 90 e que já possui várias outras continuações, Riordan nos apresenta à Tres Navarre, um PhD em Letras que também é mestre de Tai Chi e tem um gato chamado Robert Johnson. Além dessas formidáveis características, ele é um degustador nato de Tequila Vermelha, bebida típica da região do Texas.


A trama se desenrola na cidade de San Antonio, no exato momento em que Tres retorna após 10 anos de ausência. Um dos principais motivos para se exilar por tanto tempo foi o assassinato do seu pai, cujo mistério nunca fora solucionado. Agora de volta, ele tem como objetivo não apenas revisitar águas passadas, como restaurar laços com amigos, a família, e reencontrar-se com sua antiga namorada, Lillian Cambridge, mas também tentar desvendar a enigmática morte do seu pai.

O que Tres não poderia imaginar é que se transformaria em um ímã para atrair problemas. Seu regresso à cidade natal e sua voracidade em remexer no homicídio do pai chamou a atenção de velhos aliados e despertou os olhares de antigos inimigos. A situação se agrava com o desaparecimento de Lillian, obrigando Navarre a abrir uma investigação paralela e, inevitavelmente, forçando-o a se envolver em um caminho em que as chances de sair ileso são quase incertas.

O enredo é narrado pelo próprio Tres, o que garante muitas situações cômicas devido ao sarcasmo do personagem. E o fato do mesmo ser veterano na arte do Tai Chi assegura ótimas cenas de luta, detalhando para o leitor como os golpes devem ser aplicados. Navarre conseguirá encontrar Lillian e descobrir quem a sequestrou? O desaparecimento dela teria algum tipo de relação com a morte do seu pai? Rick Riordan lança seu protagonista em uma rede de intrigas recheada com jogos de poder, corrupção, traições, máfia e assassinatos, descontruindo aquela imagem de alguém que somente escreve fantasias.

Tequila Vermelha nos oferece a chance de ver um homem lutando contra um passado atormentador, na esperança de esclarecer assuntos inacabados e fazer com que peças perdidas voltem ao seu lugares de origem. Mesmo que aqui a história não seja composta por elementos mágicos, Riordan se consagra mais uma vez e provavelmente irá aumentar o número de fiéis seguidores, porque, embora continue conservando os leitores adolescentes, agora também terá variadas gerações de adultos para encantar. O exemplo do que podemos chamar de um escritor versátil.




"Senti como se fosse 1985 outra vez. Ainda tinha 19 anos, meu pai estava vivo e ainda amava a garota com quem planejava casar desde o oitavo ano. Mudei de roupa mais uma vez e pedi um táxi. Tentei me lembrar do gosto da Tequila Vermelha. Não sei se conseguiria voltar a beber algo parecido e sorrir, mas estava pronto para tentar".

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Admirável Mundo das Letras





Tudo começou com uma corriqueira leitura. Depois, como se meus pés tivessem adquirido o dom da levitação, me vi mergulhado naquele mar de letras, buscando compreender a estrutura dos vocábulos e o sentido das palavras. Muitos já vieram me perguntar qual é a sensação de se fazer parte do Admirável Mundo das Letras. E mesmo que eu tenha um vasto leque de adjetivos para utilizar, o único que me vem à mente para elaborar uma resposta satisfatória é: surreal.

Viver no Mundo das Letras não é muito difícil, considerando que o requisito básico é gostar de ler. Tentar defini-lo é a parte complexa. Isso é o de menos, uma vez que o prazer reside em desbravar o desconhecido; jogar-se na imensidão das frases, submergir nas profundezas dos enunciados e, no final da tarde, sentir a brisa dos versos líricos.

Esse fantástico mundo possui dois continentes: o da Literatura e o da Linguística. Os terrenos literários são administrados por um poder tripartido, o qual sempre preza pelo bem do leitor. As Duquesas Ana, Conceição e Elisete trabalham de forma honesta e, por isso, com elas os fracos não têm vez. Nestas terras eu vivenciei experiências inesquecíveis e vaguei por locais inacreditáveis; vi sertões tão extensos e bonitos que nem Graciliano Ramos, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa teriam a audácia de descrever; presenciei batalhas épicas que nem Ulisses teria a coragem de travar. Também conversei com um defunto-narrador que me contou a história da sua vida, enquanto observava, ao longe, vários heterônimos encontrarem-se com seu criador.

Viajei ao lado de um caboclo valente o suficiente para desafiar o diabo. Alimentei uma cachorrinha com pensamentos tão racionais quanto os meus. Brinquei com objetos culturais, cumprimentei o Senhor do Folclore e ainda tive a honra de conhecer uma nordestina encantadora - e incrivelmente ingênua - e vê-la transformar-se em uma estrela de mil pontas. Passei pelo Inferno, Purgatório e Céu, acompanhando um homem em busca de sua amada e, por fim, visualizei livros voarem e deixarem rastros de folhas caídas pelo caminho, para que aqueles que ali passassem não ignorassem o que precisava ser lido.

É também fundamental transitar pelo continente linguístico, e para que tal meta seja alcançada precisa-se conhecer a barqueira Klébia, mulher de voz encantadora que facilita a travessia dos letrados de uma área à outra e está eternamente disposta a direcionar os indecisos. Linguística é um terreno dominado pelo Lorde Silvio e a Baronesa Carmen, cada qual mais exigente que o outro quando o assunto é discurso. Nesta terra, assisti palestras de Ducrot, tomei leite achocolatado com Fairclough, joguei ping-pong com Foucault e aprendi macetes de baralho com Van Dijk. Ainda tive o prazer de vislumbrar as metamorfoses da Semântica e plantar uma semente de agradecimento nos campos bakhtinianos.

Neste ambiente fabuloso também há lendas urbanas. A mais famosa de todas é a do Profeta Romerito; um andarilho que veio da Terra de Saussure, e que - ouvi dizer - faz brotar bibliotecas do chão onde pisa; o Pirata Marzinho, com seu navio gigante e sua procura eterna pelo baú de sintagmas; e o Vigilante Bruno, em seu Balão Mágico, na luta constante para apaziguar os céus. É bastante sensato evitar os caminhos da preguiça: o furacão Nevinha pode estar à espreita. E caso se queira conselhos de Psicologia, Ética e Produção de Texto, basta procurar os Anciões Laurence, Juliana e Zélia; eles sempre sabem o que dizer.

Infelizmente, existe um prazo de validade para permanecer no Admirável Mundo das Letras. A dor da partida é profunda, semelhante ao sentimento de ir embora de um parque de diversões sem ter experimentado todos os brinquedos. Agora que fiz as malas e estou diante da porta de saída, contemplo a inabalável grandeza desse maravilhoso lugar e desejo aos futuros ingressantes que aproveitem tudo aquilo que não pude, pois, se me perguntarem qual é a sensação de deixar o Admirável Mundo das Letras, eu direi: ter a saudade cravada no peito, e a sincera esperança de um dia voltar lá.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Super 8


"Sei que coisas ruins aconteceram. Coisas ruins acontecem. Mas ainda podemos viver".


Não há como negar; se você cresceu entre os anos 80 e 90, certamente já assistiu filmes notáveis como ET - O Extraterrestre, Conta Comigo, Os Gonnies e Curtindo a Vida Adoidado (ou ao menos já ouviu falar) em uma época que valia a pena contar as horas para o início da Sessão da Tarde. Por que eles ficaram famosos? Todos tinham em comum um enredo no qual um grupo de crianças ou adolescentes se metiam em altas confusões e grandes aventuras. Talvez essa não seja a resposta correta, talvez a fórmula fosse mais sutil e menos complexa. O que importa, na verdade, é o conteúdo fabuloso e fantástico que desperta na nossa imaginação o velho "eu" infanto-juvenil.

Super 8 é uma tentativa de trazer de volta esse gênero e, de certa forma, também é uma maneira de homenagear os clássicos que encantaram diversas gerações. Ora, não é de se admirar que o nome 'Spielberg' esteja na produção, tendo em vista que o próprio foi responsável por muitos dos sucessos oitentistas. O filme foi dirigido e escrito por J.J. Abrams (um dos criadores de Lost e Fringe) e, embora seja sua terceira vez na direção cinematográfica, este é seu primeiro trabalho original.

A história se passa no verão de 1979. Joe Lamb é um garoto que perdeu sua mãe recentemente, tem um pai delegado e está ajudando seu amigo Charles a fazer um filme. Essa metalinguagem ("um filme dentro do filme") é uma ferramenta interessante, pois é utilizada como motivo para os garotos iniciarem suas jornadas. Na noite de um dia aparentemente normal, enquanto se preparavam para uma sequência de filmagens na estação de trem, o grupo de amigos presencia um acidente de magnitude catastrófica, o qual desencadearia eventos estranhos por toda a cidade. A cena do trem descarrilhando, por sinal, é uma das mais antológicas do longa.


A câmera que registrava as imagens do filme-zumbi - e que também filmou parte do acidente - é no formato super-8 (daí o título), bastante usado naquele período. Por meio da gravação, eles descobrem que algo escapou de dentro do trem no momento da explosão e que isso, de alguma maneira misteriosa, pode estar relacionado com os desaparecimentos que estão ocorrendo pela cidade. A Força Aérea é acionada e tal fato intriga a polícia local, abrindo um leque de investigações dentro do enredo.

De um lado, a polícia local tenta resolver a crise que se alastrou pela cidade. Do outro, a Força Aérea executa buscas secretas no intuito de encontrar a coisa que fugiu do trem. No meio de tudo isso, Joe e seus amigos tiram suas conclusões e enfrentam seus próprios problemas. E à medida que os minutos avançam, descobre-se que fazer um filme é o menor deles. O que surpreende em Super 8, e talvez este seja o maior trunfo do longa, é observar crianças lidando com situações que não condizem com suas idades.


Encarar pais negligentes, sofrer com a perda de um ente querido, correr em meio a uma chuva de balas, enfrentar problemas de auto-estima, ver várias mortes de perto e ainda conhecer o primeiro amor são informações pesadas demais para um simples grupo de crianças. Isso sem acrescentar o fato de que chega o momento que precisam seguir o rastro da medonha criatura. Felizmente, as atuações não deixam a desejar e a trilha sonora também merece suas congratulações, atingindo o ápice no instante final e nos presenteando com uma das cenas mais tocantes das ficções científicas do século 21.

Ao passo que Super 8 vai esmiuçando todos os sub-gêneros contidos em sua trama, fica evidente o carinho que J.J. Abrams dedicou a este projeto. Não é apenas como se quisesse relembrar a infância dos anos 80, mas mostrar ao público atual que a geração juvenil passada também enfrentava problemas tão intensos quanto as de hoje. Afinal, ser criança não é um total mar de rosas; implica ter que atravessar o processo de crescimento, o qual geralmente é bastante cruel. No entanto, filmes como este nos fazem querer voltar àquele tempo, na esperança de reunir os velhos amigos e ir em busca de uma memorável aventura. Um sonho que toda criança deveria realizar.



"Ele está em mim, sabia? Assim como eu estou nele. Então, quando o vir da próxima vez, como tenho certeza que verá, estarei te vendo também".


Trailer:

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domingo, 27 de novembro de 2011

Túnel do Tempo

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O universo musical é uma área bastante misteriosa e intrigante. Quantas vezes, ao se ver diante de uma bela canção, você já se perguntou como determinado cantor conseguiu compô-la e atribuir-lhe um ritmo e melodia? É algo tão mágico e de uma harmonia extraordinária, que demonstra que tal habilidade pode não ser apenas uma vocação, mas também - e principalmente - um dom.

Contudo, a maneira com a qual os músicos se utilizam para compor suas obras não é o único mistério na música. É certo que existem canções com letras lastimáveis, as quais fazem apologia ao crime, adultério, drogas e depressão (sem falar outras coisas) e que têm a função de induzir pessoas de mentes frágeis a cometer atos que provavelmente não fariam se estivessem em pleno uso de suas faculdades mentais. Isto é irrefutável.

O interessante é que, por mais que o tema da música seja a tristeza pela perda de algo ou a dor de cotovelo por não conseguir ficar com alguém de que se gosta, sua letra pode ser salva por um videoclipe e através dele ganhar um novo significado. Este é o caso da canção Túnel do Tempo, do Frejat.

Ao analisar a letra isoladamente, há de se pensar que o sujeito da música está se referindo a uma pessoa. No entanto, ao assistir o clipe, essa interpretação pode ser traduzida na relação entre um animal de estimação e seu dono. O que, pessoalmente, considero uma situação bem mais bonita e pura.

Talvez este seja mais um dentre tantos outros segredos da música: possuir uma letra que abra caminho para outro campo interpretativo, de preferência um que seja mais saudável. Aliás, encontrar exemplos de canções cujos clipes se sobressaem aos seus conteúdos não é tão difícil quanto se pensa, basta observar com mais atenção os detritos musicais que estão espalhados por aí e que, inacreditavelmente, caem na graça do povo. Pois é, há mais mistérios no universo musical do que supõe nossa vã filosofia.


Letra:


Nosso encontro aconteceu como eu imaginava
Você não me reconheceu, mas fingiu que não era nada
Eu sei que alguma coisa minha em você ficou guardada
Como num filme mudo antes da invenção das palavras
Afinei os meus ouvidos pra escutar suas chamadas
Sinais do corpo eu sei ler nas nossas conversas demoradas
Mas há dias em que nada faz sentido
E o sinais que me ligam ao mundo se desligam

Eu sei que uma rede invisível irá me salvar
O impossível me espera do lado de lá
Eu salto pro alto, eu vou em frente
De volta pro presente

Sozinho no escuro, nesse túnel do tempo
Sigo o sinal que me liga à corrente dos sentimentos
Onde se encontra a chave que me devolverá
O sentido das palavras ou uma imagem familiar?
Mas há dias em que nada faz sentido
E os sinais que me ligam ao mundo se desligam

Eu sei que uma rede invisível irá me salvar
O impossível me espera do lado de lá
Eu salto pro alto, eu vou em frente
De volta pro presente...

sábado, 19 de novembro de 2011

Desastre


"Regra #1: Não se envolva".


Eis uma pequena revelação: existem dois tipos de seres humanos. Aqueles que estão fadados a uma rotina comum e cansativa, escravos da previsibilidade e que tentam, a qualquer custo, alcançar um padrão de vida aceitável por meio de vícios e luxos que geralmente não têm condições de pagar. E também há os destinados, pessoas com o potencial de realizar grandes feitos, graças a inteligência ou sorte, e que quase sempre conseguem entrar para a História.

Pode não ser uma descoberta bombástica, talvez até mesmo descartável para alguns, mas poderá causar um leve efeito sobre sua vida. E acredite, após a leitura de Desastre, é importante ficar ciente de que a absorção de uma simples informação já é o bastante para mudar um futuro inteiro.

S.G. Browne é um escritor norte-americano e criou um cenário no qual virtudes (Coragem, Honestidade, Verdade), pecados (Luxúria, Gula, Preguiça) e sentimentos (Amor, Raiva, Hostilidade) são seres imortais, que vivem na Terra no intuito de ajudar ou prejudicar os humanos pelos quais são responsáveis. Podem se transportar para qualquer parte do universo, ficar invisíveis, e não devem - em hipótese alguma - quebrar a primeira regra: interagir com seres humanos.

A trama é narrada por Fado (nome mortal: Fábio), personagem principal que tem a função de designar as sinas de mais de 5 bilhões de pessoas ao redor do mundo. Cansado de cuidar de tantas criaturas superficiais que tentam preencher seus vazios e fracassos pessoais com capitalismo, consumismo e traição, Fábio passa parte do tempo livre saciando seus prazeres sexuais com Destino (que, por sinal, é ninfomaníaca), almoçando com Gula, ou tendo raros encontros com Dennis (mais conhecido como Morte). E Deus, a entidade suprema que comanda todos eles, prefere ser chamado de Jerry.

O cotidiano de Fado ganha uma reviravolta com a chegada de uma nova inquilina no prédio em que reside. Sara Griffen, além de ser uma linda mulher, está na Trilha de Destino, o que significa que Fábio não pode ler sua sina. Apesar de somente sentir que ela está destinada a um futuro grandioso, algo de inexplicável e misterioso nela o atrai. Ambos se conhecem, se apaixonam e iniciam um romance proibido.

O que já parecia ruim, fica ainda pior. Além de quebrar a primeira regra e criar sentimentos afetivos por uma mulher mortal, colocando em perigo seu emprego e arriscando sua imortalidade, Fábio encontra no amor uma maneira de ajudar os humanos que estão em sua Trilha. Logo, ao modificar os futuros pelos quais estavam predestinados, ele também cria um efeito dominó de proporções cósmicas, capaz de desequilibrar o universo e causar uma confusão no Céu. Estará Fado preparado para assumir as responsabilidades de suas transgressões? O amor que ele sente por Sara, ainda que seja puro, poderá resistir à desaprovação de todos, incluindo a de Deus?

Em Desastre, S. G. Browne se destaca através de um texto leve e contemporâneo, nos transportando por várias ruas de Nova York e nos apresentando a um romance moderno e sem clichês. O enredo foi trabalhado com equilíbrio, sarcasmo e perspicácia, e o final é totalmente imprevisível e muito bem arquitetado. Virtudes, pecados, emoções, podem ser distintos e possuírem características únicas, porém são as ferramentas que constroem o caráter humano. Nós escolhemos o que queremos ser e fazer e, quando a decisão estiver difícil, é preciso lembrar: não importa o que aconteça, Fado e Destino estão aqui para se encarregar do resto. E seja o que Jerry quiser.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Os Agentes do Destino


"Eu sei o que sinto por ela e isso não vai mudar. As minhas escolhas sou eu quem faço. E eu escolho ela".


Todos nós construímos planos. Somos capazes - ou ao menos temos a ilusão dessa capacidade - de arquitetar um plano, organizá-lo até alcançar o limiar da perfeição e executá-lo exatamente como foi calculado. Obviamente, nem todo plano sai como o esperado, e por várias razões; às vezes por surgir um obstáculo que modifica o rumo dos acontecimentos e faça com que o caminho do plano seja alterado; outras vezes, as falhas podem ser encontradas no próprio plano, revelando a fraqueza do objetivo planejado.

Nossas escolhas determinam não somente o futuro, mas também todas as séries de planejamentos que precisaremos fazer. E ainda que muitos acreditem no poder do livre-arbítrio, há momentos em que alguns refletem a respeito da possibilidade de que existe algo regendo o plano de cada um de nós. Em Os Agentes do Destino, somos apresentados a essa ideia de maneira impactante, revelando que certos caminhos podem ser reajustados para aqueles dispostos a pagar um alto preço por isso.

David Norris (Matt Damon) é um jovem congressista em ascensão em busca de uma vaga no Senado do estado de Nova York. Ao passo que demonstra talento e afinco para os negócios, Norris também revela imaturidade diante de algumas situações, o que o faz perder as eleições. Exilado dentro de um banheiro, ele conhece a bailarina Elise (Emily Blunt) e em questões de poucos minutos, por meio de um diálogo nada convencional, o cupido lança a sua flecha e arrebata os dois corações.



Dias depois, por puro acaso, David reencontra-se com a dançarina misteriosa dentro de um ônibus. Ambos trocam seus números na promessa de se verem novamente em um futuro próximo. O que eles não sabiam, porém, é que não era isso que o Plano pedia. Ao chegar no trabalho, Norris é abordado por homens engravatados, cada qual com chapéus na cabeça, que o explicam que são responsáveis por fazer com que a trajetória de cada ser humano do mundo siga de acordo com o Plano.

Esses seres enigmáticos são comandados por uma criatura superior, O Cabeça, que decreta todos os planos. E não está no Plano de David Norris encontrar-se mais uma vez com Elise, pois se o fizer, causará uma sucessão de eventos com potencial de destruir os sonhos dos dois. Norris, acreditando na força do amor, lutará para conseguir sua amada de volta, enquanto circunstâncias das mais adversas insistem em os separar.


O filme foi dirigido e escrito por George Nolfi, e o roteiro foi baseado em um conto de Philip K. Dick, escritor de ficção científica e também autor de outras obras que foram ao cinema, como Minority Report, O Vingador do Futuro e Blade Runner. Embora a adaptação feita por Nolfi seja digna de alguns méritos (as cenas das portas sendo utilizadas como um meio de transporte são geniais), o diretor poderia ter ousado mais no drama dos personagens e, principalmente, na ficção, que é o tema central da obra original. Entretanto, o roteiro preocupa-se mais em romantizar do que extrair reflexões filosóficas do público.

Ironicamente, faltou um pouco mais de planejamento em Os Agentes do Destino. A catarse no final não é alcançada, talvez pela ausência de agilidade nos últimos momentos ou pela falta de uma trilha sonora mais elaborada. De qualquer maneira, fica a impressão de que o longa, cuja temática é ótima, tem muito mais a oferecer. Prova de que, por mais que o plano seja bem intencionado, isso não o impede de sair pela culatra.


"Se ficar com ela, além de matar seus sonhos, matará os dela também".


Trailer:

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sábado, 5 de novembro de 2011

Só de Sacanagem


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Dizem que a esperança é a última que morre. Ainda que milhões de cidadãos concordem com esta assertiva, diante de alguns casos, isso não é garantia de imortalidade. Infelizmente ou não, a esperança é suscetível à morte, sim. E para muitos, quando o assunto é a corrupção que se alastra cada vez mais no Brasil, ela já bateu as botas há muito tempo.

É certo que muitas pessoas lavaram suas mãos e desistiram de lutar contra o monstro da corrupção. Algumas por perceberem que tal criatura é poderosa demais e que, por isso, confrontá-la seria em vão; outras por terem permitido que o bicho exalasse seu veneno e infectasse suas mentes, deturpando suas escolhas e fazendo-as optar por aquilo que é mais "fácil" e tentador.

O esquema de batalha é exatamente este: ou você se prepara para guerra, ou se corrompe, ou se omite até que chegue um dia que o sistema te force a decidir em qual lado irá agir. O que se pode ver na atualidade é que os guerreiros, os poucos que ainda restam, conseguem travar batalhas e conquistar territórios por um breve momento; em seguida, o sistema utiliza-se de suas artimanhas para estagnar os rebeldes e distanciá-los mais e mais da inalcançável criatura. E em quase 100% dos casos, o sistema vence.

Dessa forma, em tempos em que lutar à exaustão não causa ferimento algum ao grande inimigo, a única arma que resta ao guerreiro é a confiança e a esperança de que um dia, ainda que demore milênios, a coisa mude para melhor. Mas parece que até isso está difícil de se fazer, de modo que a população necessita de um estimulo, uma fonte inspiradora.

A arte, como sempre, mostra a solução. A poeta Elisa Lucinda, nas sublimes linhas do texto Só de Sacanagem, revela que há de se ter fé porque o guerreiro é munido de uma arma que o monstro despreza totalmente: a honestidade. O ato de criar laços de confiança entre você e o próximo, relembrando aos esquecidos o que significa ética, educação, e curando os cegos do vírus da corrupção.

E no dia em que a liberdade for alcançada, no instante em que todos (pelo menos grande parte) estiverem curados, no exato segundo que a honestidade expulsar a nefasta criatura para as profundezas, as vozes dos guerreiros irão ecoar pelo país inteiro, concordando entre si e tendo o orgulho de dizer que a esperança, de fato, é imortal.








Só de Sacanagem


Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

X-Men: Primeira Classe


Charles: Escute-me com atenção, meu amigo. Matar não irá lhe trazer paz.
Eric: Paz nunca foi uma opção.


A oportunidade de conhecer o gênesis de uma história é única. Descobrir como se originou uma trama renomada mundialmente e que, por consequência, conquistou legiões de públicos diferenciados, é uma experiência inebriante (ainda mais se estiver nas mãos de profissionais). Planeta dos Macacos: A Origem, Batman Begins e a mais recente trilogia de Star Wars são alguns dos exemplos de que, quando o cristal é bem lapidado, observar o início torna-se mais interessante do que conhecer o final.

X-Men: Primeira Classe era um prelúdio pouco aguardado e que muitas pessoas não estavam dispostas a depositar sua fé, pois, aparentemente, era uma obra que não oferecia novidade. Surpreendendo milhares de céticos e sobrepujando as previsões negativas, o longa alcançou o sucesso e certamente é um dos filmes que possuem mais críticas positivas neste ano.

A direção ficou a cargo de Matthew Vaughn (diretor de Kick Ass - Quebrando Tudo), que conduziu a introdução da franquia com bastante competência. Essa não é a primeira vez que Vaughn explora o universo heroico dos quadrinhos e talvez por isso seja notável sua confiança em saber que este projeto precisava dar certo. E, no geral, ele não fez feio.


O enredo nos transporta para a década de 60, em que um jovem judeu, chamado Eric Lensherr, busca vingança pela morte da mãe. Esse trauma de infância e o ódio pelo assassino são os combustíveis que impulsionam Eric a desenvolver com destreza sua maior habilidade: mover metais. O causador de tamanha raiva tem o nome de Sebastian Shaw (Kevin Bacon, formidável), um homem perigoso procurado pela CIA. Os caminhos de Eric cruzam-se com os de Charles Xavier, professor recém-formado, especialista em genética, e que possui o dom da telepatia. Ambos criam uma aliança com a CIA para deter os planos pérfidos de Shaw.

O cenário é a Guerra Fria e a intenção de Shaw é colocar mais lenha na fogueira. Com a iminência de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, Shaw instiga os soviéticos a locomoverem seus mísseis em direção à Cuba, na tentativa de iniciar a 3ª Guerra Mundial e revelar ao mundo que os mutantes são a evolução da espécie. Dessa maneira, Xavier e Eric logo começam a recrutar mutantes, treinando-os e preparando-os para uma aniquilação quase certa.


De um lado, a raiva de Eric por Shaw e a ideia de que os humanos devem ser erradicados; do outro, Charles com sua esperança de que homens e mutantes podem conviver pacificamente. É essa colisão de valores e crenças que dão força ao enredo, revelando a oposição dos dois personagens desde o início e dando ao público um breve vislumbre da rivalidade que ainda está por vir. Entretanto, o roteiro comete um grave erro no final que não faz ligação com os filmes anteriores, demonstrando - infelizmente - que os roteiristas não se preocuparam em criar uma cronologia com o restante dos longas. Quem assistir o início de X-Men: O Confronto Final e os minutos derradeiros de X-Men Origens: Wolverine, vai saber do que se trata.

Matthew Vaughn conseguiu lapidar o reinício da franquia X-Men com bastante maturidade. Há momentos impagáveis, como Charles Xavier tentando conquistar uma agente federal sob efeito do álcool, porém a seriedade realmente fica em posse de Eric e toda sua angústia com relação à humanidade. Embora fosse melhor deixar certos eventos para continuações futuras, possibilitando a criação de novos arcos e garantindo mais aventuras aos jovens mutantes, uma coisa é certa: a luz de X-Men pode ainda não reluzir no escuro, mas tem potencial para acender uma estrela.


"Somos diferentes, mas não devemos tentar nos encaixar na sociedade. A sociedade deveria ser inspirar em nós. Mutantes, e com orgulho".


Trailer:


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sábado, 22 de outubro de 2011

Desconstruindo Amélia

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É de fato incrível o que alguns versos são capazes de fazer. Mais inacreditável ainda é observar que muitas pessoas ignoram a influência que a linguagem poética exerce sobre a sociedade. Certo, hoje existem muito menos amantes da poesia do que antes, mas alguns dos legados que os poetas e simpatizantes de outrora deixaram ecoam até os dias atuais. Afinal, foi graças ao samba escrito por Mário Lago em parceria com Ataulfo Alves, na década de 40, que o nome "Amélia" tornou-se referência do que geralmente chamam de "mulher de verdade".

É importante esclarecer, porém, que tal termo não serve para enaltecer a imagem feminina. Na verdade, ao procurar o sentido que o nome Amélia representa no meio social, inclusive no dicionário, é possível concluir que o nível de machismo era extremamente exacerbado, pois o significado de 'mulher de verdade' refere-se à uma companheira ideal, ou seja, uma doméstica, serviçal, obediente, resignada, passiva.

O problema é que o poder do nome Amélia, embora muitos homens ainda acreditem no antigo conceito desta palavra, está ficando cada vez mais ineficaz à medida que as mulheres ganham maior independência econômica e social. Por isso, era mais do que obrigatório que um dia essa imagem fosse desconstruída. E, convenhamos, desconstruir é uma das tarefas preferidas do rock.

O videoclipe de hoje é dedicado à música Desconstruindo Amélia, da cantora Pitty, cuja letra retrata uma jovem Amélia, educada para cuidar e servir, no momento em que decide se livrar das correntes que a aprisionam. Uma canção que não tem a intenção de explorar o lado "devassa", e sim a faceta lutadora e independente da mulher.

Dessa maneira, se os versos de Mário Lago inspiraram diversos marmanjos a idealizar uma mulher totalmente submissa, os versos subversivos de Pitty hão de influenciar milhares de mulheres a lutar por igualdade e justiça. Pode não ser serva e nem objeto, tampouco mulher de verdade, mas com certeza é um exemplo do poder que alguns versos são capazes de proporcionar.


Letra:

Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar
O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair...

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

A despeito de tanto mestrado
Ganha menos que o namorado
E não entende o porquê
Tem talento de equilibrista
Ela é muita, se você quer saber
Hoje aos 30 é melhor que aos 18
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra nigth ferver

Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

Uuh
Disfarça e segue em frente
Todo dia até cansar
Uooh!
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Uooh!
Nem serva, nem objeto
Já não quer ser o outro
Hoje ela é um também

sábado, 15 de outubro de 2011

Escritores da Liberdade



"Quando eu ajudo os garotos a entender suas vidas, tudo na minha vida começa a fazer sentido para mim".


Quando alguém é treinado para ser um futuro educador, teorias didáticas e planejamento de aula são apenas duas das várias coisas que se escuta. No entanto, à medida que a teoria inunda a mente do docente com ideias interessantes, experimentar a realidade na prática mostra os furos e os defeitos da instituição educacional, provando não somente que a fundamentação teórica é algo que merece ser revisto, mas também que o professor precisa ser dotado de criatividade e bastante força de vontade para conseguir manter um ensino de qualidade.

Infelizmente, algumas pessoas ainda necessitam saber que a base de uma nação é consolidada por meio da educação. E, sendo a educação o pilar que sustenta a sociedade, nada mais justo buscar melhorias que facilitem o aprendizado dentro do âmbito escolar, pois, para muitos professores, ir para sala de aula é a mesma coisa que adentrar em uma trincheira, carregar seu fuzil, e apontar para a opção menos intolerável. E acredite, essa batalha é muito cansativa.

Escritores da Liberdade é um filme baseado em fatos reais que mostra as dificuldades de uma professora ao ingressar em uma escola pública, a qual possui uma estrutura precária e um corpo docente que não acredita no potencial dos próprios alunos, ignorando totalmente a hipótese de que um dia possam progredir na vida.


Erin Gruwell (Hilary Swank) é uma professora iniciante que preza pelos valores éticos de sua profissão. Ela leva muito a sério seu papel como educadora, sua função de transmitir conhecimento aos que precisam, e encontra barreiras para cumprir seu objetivo na antipatia da administração da escola e no desinteresse e rebeldia dos alunos. Logo ela percebe que, para fazer com que seus alunos - em sua grande maioria vítimas da violência do mundo - ganhem a esperança de um futuro melhor, é necessário fazê-los acreditar em si mesmos e na ideia de que a educação é a porta para a salvação.

Surpreendendo a escola, a senhora Gruwell consegue unir as pequenas facções de sua turma. E ela não parou por aí: contrariando as regras da coordenação, passou a ministrar aulas de literatura com livros de qualidade e conseguiu realizar passeios para comunidades externas. E como se não bastasse, no intuito de despertar neles o hábito da escrita, comprou diários para que cada um contasse um pouco de sua vida, sonhos e medos, angústias e sofrimentos.

O longa foi escrito e dirigido por Richard LaGravenese, tendo como base a obra O Diário dos Escritores da Liberdade, lançado em 1999 e que contém os depoimentos verídicos dos alunos da sala 203. Tais relatos tornam o filme impactante e emocionante, demonstrando o tamanho dos sacrifícios que a professora Gruwell teve de fazer para garantir o bom desempenho de sua turma, sempre lutando contra as falhas do ensino.

Talvez a realidade que Escritores da Liberdade expõe, a qual temos uma docente preocupada com a educação de seus alunos, transgredindo as normas da escola e não tendo o apoio merecido, ainda esteja longe de acontecer. Embora seja raro encontrar professores dispostos a modificar a precariedade na educação, independentemente do salário oferecido, apenas o fato de quererem isso é algo digno de premiação. E é importante aclarar que não me refiro a medalhas de ouro ou presentes caros; para um bom e querido professor, às vezes um simples obrigado já é o suficiente.


"Por que me importar em ir para escola e tirar boas notas se sou um sem-teto? Um ônibus para em frente à escola e eu tenho vontade de vomitar. Estou usando as roupas do ano passado, os mesmos tênis velhos e o mesmo penteado. Eu fiquei achando que iriam rir de mim. Em vez disso, alguns amigos da minha turma do ano passado vieram falar comigo. Aí eu percebo que a senhora Gruwell, minha professora de inglês maluca do ano passado, é a única pessoa que me fez ter esperanças. Falando com meus amigos sobre as aulas do ano passado e os passeios, comecei a me sentir melhor. Eu recebo meu horário e a primeira professora é a senhora Gruwell, na 203. Eu entro na sala e sinto como se todos os problemas da vida não fossem tão importantes. Estou em casa".


15 de outubro - Dia do Professor.


Trailer (sem legenda):


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sábado, 8 de outubro de 2011

Maria Maria

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Coragem, valentia, esforço. Características e virtudes que nos tempos antigos eram atribuídas apenas aos homens. Foi-se a época em que o símbolo feminino era associado ao trabalho doméstico, à submissão eterna diante do marido e à imagem frágil pressionada contra uma sociedade machista.

Agora é a vez delas entrarem no palco e mostrarem do que são capazes. E parece que Milton Nascimento previu isso há muitos anos, ao escrever nos versos da música "Maria, Maria", que uma mulher pode ser a força que nos alerta e que necessita ter sonho, sempre. Essa figura imponente e de personalidade aparentemente inabalável, que antes surgia como uma vaga silhueta no meio da neblina, hoje pode ser vista com clareza e solidez.

A canção de hoje é voltada não só às mulheres em geral, mas especialmente às Marias, que em sua grande maioria são batalhadoras. Uma letra que retrata o sofrimento, a angústia, a alegria e a esperança do que é ser uma Maria e que, indiretamente ou não, encoraja o restante da nação feminina.

Portanto, se você conhece alguma Maria, venha homenageá-la conosco, pois ela merece viver e amar como outra qualquer do planeta. E sim, essa pequena intertextualidade é muita bem vinda.


Letra:

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!...

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria...

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida

Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!...

sábado, 1 de outubro de 2011

Contra o Tempo


"O que você faria se soubesse que tem menos de 8 minutos de vida?"


Imagine a seguinte situação: um atentado, de proporções imensuráveis, ocorre em uma grande cidade do seu país, aniquilando qualquer tipo de chance de alguém sobreviver. Um cenário devastado de tal maneira não é tão difícil de se pensar, visto que o mundo já presenciou muitas imagens similares a essa. Agora suponha que há uma forma de evitar essa tragédia, encontrando o responsável pelo acontecido e assim impedindo que ataques futuros sejam planejados; valeria a pena arriscar sua vida, mesmo sabendo que a das vítimas - especialmente a de alguém que você goste muito - já não podem ser salvas?

Ao lançar esta proposta para o público, Contra o Tempo torna-se um filme interessante e, de certo modo, inusitado; o foco do enredo, embora se passe ao redor de um evento que já aconteceu, não é a respeito de viajar no tempo para modificar o passado e tampouco fala de seres precognitivos que veem futuros crimes. Aqui somos apresentados a uma realidade paralela, na qual não importa o que seja feito, o desastre sempre terá acontecido na vida real.

A história começa com o Capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), piloto do exército americano, acordando no interior de um trem. À sua frente está uma mulher, Christina, que insistentemente o chama de Sean. Além de se sentir desnorteado em um ambiente no qual seu reflexo revela uma imagem fora do normal, o trem explode e ele desperta em um local totalmente novo: o Código Fonte.

Uma vez dentro do Código Fonte, os únicos contatos que Colter tem com o mundo são a capitã Goodwin (Vera Farmiga) e o Dr. Ruthledge, os quais lhe explicam que o Código Fonte é um programa de computador que permite ao usuário ter acesso aos últimos 8 minutos da vida de um cidadão. Munido destas informações, a função do capitão Stevens é voltar ao trem, quantas vezes for necessário, encontrar a bomba e descobrir quem é o culpado, antes que outro atentado aconteça e mais pessoas morram. Tudo isso no tempo de 8 minutos.

No entanto, o que os organizadores do Código Fonte não esperavam é que Colter carrega em si não apenas o espírito patriótico, como também a valorização da ética. Os retornos sucessivos ao trem fizeram com que Stevens adquirisse afeição por Christina, compelindo-o não somente a cumprir sua missão, mas também a salvá-la e impedir que o trem exploda, ainda que no mundo real isso signifique o mesmo que nada.

O longa foi dirigido por Duncan Jones, e mesmo este sendo o segundo filme sob seu comando, Duncan demonstra um talento nato para direção, algo que muitos já haviam visto em seu primeiro trabalho, Lunar. Ele conduz as cenas com velocidade e maestria, impossibilitando ao público a sensação de enjoo ao assistir a mesma cena várias vezes. O que, à propósito, foi uma grande sacada: sempre que voltamos ao trem, deparamo-nos com novas situações.

No que diz respeito à ação e ficção científica, Contra o Tempo atua muito bem. O infortúnio se encontra no final do filme, em um pequeno deslize no roteiro que poderá tornar o desfecho confuso para muitas pessoas, na tentativa de transformar algo que já estava bom em uma coisa mais inteligente e filosófica. O que é uma pena, pois uma ideia tão boa poderia render ótimas continuações. Em contrapartida, não custa nada imaginar como seria o mundo se o Código Fonte existisse; ao menos assim poderíamos acreditar que há uma realidade melhor do que esta, em que tragédias são evitadas e milhares de vidas são salvas. Algo pelo qual vale a pena se arriscar.


Trailer:


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sábado, 24 de setembro de 2011

A Três



Eu sei que não é novidade, mas não custa nada lembrar: poesia não é a minha praia. Foi-se o tempo em que eu me arriscava na onda dos versos poéticos e deixava a maresia da rima me levar. Na verdade, as coisas que eu escrevia eram tão bizarras e patéticas que acho uma ousadia à literatura classificá-las como poesias. Agradeço a Deus por ter me guiado por um novo caminho: definitivamente, a prosa é o meu lugar.

Mas isso também não significa que eu abomine a arte de poetizar. Muito pelo contrário, admiro os artistas que possuem o talento de construir textos poéticos e, por sorte, tenho o privilégio de conhecer alguns. Mês passado, meus amigos poetas Pablo Roberto e Charles Marques (O Café) lançaram-me o desafio de escrever em parceria com eles. Na ocasião, senti-me compelido a participar do ato e acabei aceitando a oferta.

Venho aqui humildemente agradecê-los pela oportunidade, pois pude relembrar qual é a sensação de redigir um poema, ainda que tenha perdido a prática. Como forma de agradecimento, os tirarei do anonimato e publicarei a tal poesia. E caso esteja muito ruim, com certeza a culpa foi minha.

Eu posso ter desistido de escrever poesias, mas pelo jeito ela ainda existe dentro de mim.


A Três

Eu, você, nós, sozinhos
Três patetas perdidos em um ninho
Rabisco e as letras
Me levam a caminhos que nunca passeei

O mar, o lar, o ar
Essas essencialidades imperceptíveis, imprescindíveis.
Versos, lasanhas, chocolate de amargar.
Trivialidades difíceis de se juntar
Junto e faço delas o meu arsenal
Meu punhado de existência,
Meu samba, meu verso,
Meu eu, meu seu.
Meus nós...

Esse meu, que é tão seu quanto nosso.
Nos fala, nos diz a que veio e tão logo se vai.
E nesse curto momento que revisito fotos antigas.
Percebo que tempos bons não voltam mais,
Roubando nossa fé e a velha paz.

Enfim me debruço emudecido
E ouço o som,
Ele me basta...
Nos basta. Basta de clamares, o tempo não volta.
Voltemos ao princípio para ver como tudo terminou.

sábado, 17 de setembro de 2011

Forrest Gump: O Contador de Histórias

"Minha mãe dizia que a vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar".


A arte de contar histórias é uma habilidade adquirida por meio de muito treino, ou, é claro, se quem a conta tiver vivenciado cada detalhe. Para alguns, não importa se o conteúdo relatado seja verdade ou mentira, basta apenas que o modo com que a narrativa é destrinchada seja natural, sincera, simples e apaixonante. É esse estilo, essa nobre forma de se contar uma história, que fica marcada não somente na lembrança de quem a viveu, mas sobretudo na daqueles que escutaram com atenção e respeito.

Como já é de conhecimento geral (pelo menos deveria ser), histórias marcantes têm o direito de serem revisitadas. Não no intuito de evitar um possível esquecimento, e sim para relembrar os aspectos que as tornam tão memoráveis. Forrest Gump: O Contador de Histórias, possui os ingredientes certos para rebuscar na nossa mente os motivos pelos quais não deve ser esquecido.

Forrest Gump (Tom Hanks) é um rapaz simples que cresceu em uma pequena cidade do Alabama. Na infância, tinha problemas ortopédicos e foi criado de acordo com os conceitos que sua mãe tinha do mundo, o que talvez seja a razão para o personagem ser tão ingênuo. Contudo, atrevo-me a dizer que a inocência de Gump é o fator que mais encanta e surpreende o espectador, pois ele atravessa todas as etapas da "jornada do herói" sem perdê-la em nenhum momento. Esta forma infantil de enxergar as coisas dá à narrativa uma comicidade irresistível que permeia quase todo o filme. Ainda criança, Forrest descobre o valor da amizade ao lado de Jenny, e graças a ela aprendeu a correr e a amar.

O fato de correr como o vento garantiu a Forrest uma vaga no time de futebol. De maneira ingênua (é importante não esquecer disso), ele tornou-se um atleta astro durante os anos de faculdade. Após se formar, alistou-se no exército e foi recrutado para servir na Guerra do Vietnã. Lá ele conhece Bubba, um pescador de camarão, e o Tenente Dan Taylor, futuro sócio. Sem entrar muito em detalhes, enquanto as oportunidades surgem para Forrest progredir na vida, ele nunca tirou da cabeça sua amada Jenny. Como é exposto no decorrer da exibição, Jenny não tem a mesma sorte, embarcando no movimento hippie da década de 60, nos prazeres carnais, e conhecendo as novas maneiras de "expandir a mente". E o gentil Forrest, dotado da capacidade de compaixão, ainda vê em Jenny a garotinha pura de outrora, nas mais diversas situações embaraçosas.

O filme estreou nos cinemas em 1994, ganhou 6 Orcars (incluindo o de Melhor Filme e Melhor Ator para Tom Hanks) e foi dirigido por Robert Zemeckis (Diretor dos clássicos Uma Cilada para Roger Rabbit e da trilogia De Volta para o Futuro). Além da simplicidade e da beleza com as quais Zemeckis dirigiu o longa, o roteiro de Eric Roth também merece seu destaque; ainda que o foco do enredo seja a vida de Forrest e sua paixão inesgotável por Jenny, por trás de tudo isso há os acontecimentos marcantes da história dos Estados Unidos, de modo que Forrest presencia os principais fatos do século XX que ocorreram no seu país e os relata como se fossem coisas corriqueiras. Isso sem mencionar as maneiras hilárias com as quais ele influenciou determinadas pessoas...

Importante ressaltar os efeitos especiais, que na época foram revolucionários. Afinal, deram a Forrest a possibilidade de se encontrar com pessoas que já estavam mortas. Como, por exemplo, na foto abaixo, em que Gump vai a um programa e conhece John Lennon, encontro este que inspirou o músico a escrever uma de suas canções mais conhecidas: Imagine. Graças também à computação gráfica, Forrest encontrou-se com os presidentes John Kennedy e Richard Nixon.

De um jogador de futebol, Forrest passou a ser um herói americano, capitão de um barco, campeão nacional de ping-pong e dono de empresas bem sucedidas, nunca abandonando suas maiores características: a inocência e a bondade, mesmo diante da desigualdade, do abandono e da morte. Um enredo narrado de forma alegre, frágil e engraçada, com seus momentos lindos e tocantes, dignos de serem recordados por muitos anos. Forrest Gump: O Contador de Histórias é um filme que mistura ficção com verdade e que não tem o objetivo de mudar a atitude das pessoas, porém, para quem escuta e assiste, encanta e inspira com uma tremenda facilidade. Como toda boa história deve fazer.



"Eu corria para chegar aonde estava indo. Nunca achei que isto ia me levar a algum lugar".


Trailer (sem legenda):

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