sábado, 5 de novembro de 2011

Só de Sacanagem


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Dizem que a esperança é a última que morre. Ainda que milhões de cidadãos concordem com esta assertiva, diante de alguns casos, isso não é garantia de imortalidade. Infelizmente ou não, a esperança é suscetível à morte, sim. E para muitos, quando o assunto é a corrupção que se alastra cada vez mais no Brasil, ela já bateu as botas há muito tempo.

É certo que muitas pessoas lavaram suas mãos e desistiram de lutar contra o monstro da corrupção. Algumas por perceberem que tal criatura é poderosa demais e que, por isso, confrontá-la seria em vão; outras por terem permitido que o bicho exalasse seu veneno e infectasse suas mentes, deturpando suas escolhas e fazendo-as optar por aquilo que é mais "fácil" e tentador.

O esquema de batalha é exatamente este: ou você se prepara para guerra, ou se corrompe, ou se omite até que chegue um dia que o sistema te force a decidir em qual lado irá agir. O que se pode ver na atualidade é que os guerreiros, os poucos que ainda restam, conseguem travar batalhas e conquistar territórios por um breve momento; em seguida, o sistema utiliza-se de suas artimanhas para estagnar os rebeldes e distanciá-los mais e mais da inalcançável criatura. E em quase 100% dos casos, o sistema vence.

Dessa forma, em tempos em que lutar à exaustão não causa ferimento algum ao grande inimigo, a única arma que resta ao guerreiro é a confiança e a esperança de que um dia, ainda que demore milênios, a coisa mude para melhor. Mas parece que até isso está difícil de se fazer, de modo que a população necessita de um estimulo, uma fonte inspiradora.

A arte, como sempre, mostra a solução. A poeta Elisa Lucinda, nas sublimes linhas do texto Só de Sacanagem, revela que há de se ter fé porque o guerreiro é munido de uma arma que o monstro despreza totalmente: a honestidade. O ato de criar laços de confiança entre você e o próximo, relembrando aos esquecidos o que significa ética, educação, e curando os cegos do vírus da corrupção.

E no dia em que a liberdade for alcançada, no instante em que todos (pelo menos grande parte) estiverem curados, no exato segundo que a honestidade expulsar a nefasta criatura para as profundezas, as vozes dos guerreiros irão ecoar pelo país inteiro, concordando entre si e tendo o orgulho de dizer que a esperança, de fato, é imortal.








Só de Sacanagem


Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? IMORTAL! Sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

5 comentários:

  1. Eita, muito filosófico isso viu.
    Parabéns.

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  2. Gosto muito dessa poesia da Elisa Lucinda, citada pela Ana Carolina =]

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  3. Já ouvi também esse poema na voz de Ana, o que o faz ser ainda mais forte...

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  4. O texto ficou muito legal.
    Parabéns Léo!

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  5. A poesia e boa com a fala de Ana Carolina por que a voz de forte

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