sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita



"Nada neste mundo é de graça. Nem mesmo a graça de Deus".


Todo herói precisa passar por uma jornada. Um estímulo que o força a querer alcançar um determinado objetivo, a traçar um plano à conquista ou à procura de algo. E no meio do caminho, há a jornada. É quase como se fosse lei, ou pelo menos deveria ser. Um processo onde o herói se modifica, se auto-conhece, se define. Enfrentar a jornada é uma maneira que o herói tem para conseguir progredir.

A jornada de um herói nunca deve ser fácil. Se fosse, não teria graça e tampouco emoção. Herói precisa fazer escolhas difíceis, herói precisa aceitar o seu destino, herói encara a morte diversas vezes. Mas também existem alguns heróis que são vítimas da própria trama, que os obriga a iniciar a jornada mesmo sem querer e, sobretudo, quando não há mais ninguém a quem recorrer. É compelido a assumir o seu papel e a ir em busca da sua missão. Este é o caso de Mattie Ross, uma heroína osso duro de roer e que realizou a façanha de me mostrar qual é a verdadeira Bravura Indômita.

Bravura Indômita é o mais recente filme dos irmãos Coen, mesmos diretores do premiado Onde os Fracos Não Têm Vez (longa já comentado aqui no blog) e, igualmente ao seu predecessor, recebeu indicações ao Oscar; para ser mais preciso, 10 indicações, comprovando que os caras realmente levam o trabalho a sério e com muito gosto. Aqui somos apresentados a uma garota de 14 anos, cujo pai é morto por um fora-da-lei chamado Tom Chaney.

O assassinato do pai é o ponto de partida para o início da jornada de Mattie Ross, interpretada pela estreante Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Apenas com um irmão mais novo e com a mãe consumida pela dor da perda, Mattie vê-se à frente dos negócios da família. Além de cuidar do funeral do pai e da venda de alguns pôneis, ela planeja colocar em prática, com bastante ousadia, a sua sede por justiça. Para isso precisará encontrar um homem dotado de coragem e, no mínimo, de uma intensa crueldade, para que a captura do assassino seja feita sem vestígio de piedade.

Ela decide então contratar por 100 dólares o xerife Rooster Cogburn, um velho com fortes tendências a cigarro e bebida, interpretado por Jeff Bridges (indicado, pelo segundo ano consecutivo, ao Oscar de Melhor Ator). Acontece que Mattie não é a única que quer ver Tom Chaney pendurado na forca; LaBoeuf (Matt Damon), o Texas Ranger - uma denominação para uma das ramificações dos policiais dos EUA - , procura Chaney pela culpa de um outro homicídio e logo junta-se à comitiva desta corajosa empreitada.

As cenas em que o velho, a garota e o oficial estão juntos funcionam perfeitamente pelo simples fato do trio possuir uma química poderosa e atraente. De longe, é como se a relação deles fosse de um avô com sua neta, e de um tio com sua sobrinha. E talvez a ideia a ser transmitida para o público seja justamente essa. É cômico ver como os dois homens fazem questão de disputar a atenção da menina, tentando provar qual deles é melhor no gatilho, por exemplo. Como pano de fundo deste triângulo nada convencional, há um dos grandes trunfos do filme: a trilha sonora. A música instrumental e melancólica que toca nos momentos de destaque de Mattie exprime a valentia indomável que há em seu coração, e que seus dois companheiros fazem questão de fingir ignorar.

O mais irônico, e provavelmente é aí onde reside a moral do filme, é ver que no final das contas são os dois marmanjos que passam a admirar e a respeitar a garota. A bravura descrita no título da película não está lá só porque é um nome bonito; ela permeia todo o longa, em cada atitude destemida da heroína, seja lutando contra a correnteza do rio mais forte ou encarando o assassino mais temido. A jornada de Mattie Ross é alimentada pela vontade de honrar a memória de seu pai, é o que vai construindo sua identidade heroica. A sua bravura indômita não está no fato de tentar cumprir o que prometeu, mas sim de cumprir literalmente com a sua palavra, determinada e sempre decidida, até o fim.


"O tempo vai se afastando cada vez mais de nós".

Link do Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=AfCWTEPEh6Q.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dom Quixote

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Loucos reconhecem outro louco há quilômetros de distância. Loucos se identificam com a loucura do próximo. É uma maneira de se enxergar dentro da alma de outra pessoa, uma simples e encantadora ideia de compartilhar delírios. Seria doideira afirmar que o amor e a loucura andam de mãos dadas quase o tempo todo? Não, seria certeza.

O videoclipe de hoje é mais um tirado do Acústico MTV dos Engenheiros do Havaii, cuja música chama-se "Dom Quixote". Para quem não sabe, este é o título de uma das maiores obras de Miguel de Cervantes e foi eleito o melhor livro de todos os tempos.

Quando penso em Dom Quixote, vejo que ser louco vale a pena e faz muito sentido. Da maneira que o mundo vai, do modo como os governantes administram as coisas... Entregar-se ao luxo de sonhar, assumir atitudes que fujam da rotina e mergulhar dentro de uma ilusão (mesmo sabendo que não corresponde à realidade), são propostas bastante tentadoras. E às vezes este parece o único caminho para se viver feliz... Mesmo que os dragões sejam de fato moinhos de vento.

Ó, Cavaleiro da Triste Figura, que a tua loucura seja perdoada e reconhecida com louvor! Porque metade de mim é o que sou, e a outra metade é feita de amor.


Letra:

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos mas sempre no horário
Peixe fora d'água, borboletas no aquário

Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra,
Vaidades que a terra um dia há de comer.
"Ás" de Espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário.
Muito prazer me chamam de otário

Por amor às causas perdidas...

Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

Tudo bem... Até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Muito prazer... Ao seu dispor
Se for por amor às causas perdidas
Por amor às causas perdidas

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Leonardo e a Invenção Mortal



"Bem, se é uma era de maravilhas... Então, talvez tudo o que a gente consiga imaginar seja possível. Talvez um dia algum homem até aprenda a voar".


Viajar para o passado através das páginas de um livro é quase sempre uma experiência agradável. Se o enredo for empolgante, se a trama conseguir envolver-te, transportando você para um país europeu do século XV, o passeio terá valido a pena. Muitos dizem que é preciso conhecer o passado para se preparar para o futuro, portanto, se você é ou conhece alguém que tem a cabeça voltada para o futuramente, cuidado: o futuro é incerto, é perigoso. Pode te preparar uma arapuca das grandes.

Confesso que é importante ter um certo embasamento a respeito do passado; sempre é bom ter mais conhecimento, principalmente quando ele é adquirido por meio de uma aventura que mistura ficção com realidade, coisa muito mais divertida do que uma aula monótona de História. Foi isto que acabei percebendo ao adentrar nas páginas de Leonardo e a Invenção Mortal.

Estamos em Florença, 1466. O jovem Leonardo da Vinci é um rapaz que trabalha como ajudante na oficina do renomado artista Andrea del Verrocchio. Como todo aprendiz, ele tem o desejo de aprender o máximo possível com seu mestre para que, um dia, torne-se um artista tão famoso quanto. Leonardo é um garoto incompreendido. Além do fato de ter vindo do campo, muitas pessoas o mantém isolado por possuir hábitos incomuns; observar os pássaros voando, analisar o movimento das asas batendo contra o ar... Fazer desenhos de máquinas munidas de alavancas, válvulas, engrenagens...

Devido a tal incompreensão, ele era privado de fazer muitas das coisas que mais gostava, inclusive pintar. Se as pessoas soubessem o que o destino reservava para aquele menino... Mas voltemos ao enredo. Tudo que Leonardo quer é ter a chance de mostrar seu talento a alguém, ser reconhecido como artista perante a sociedade. Logo a atenção de todos recai sobre ele, embora não da maneira que desejava. Leonardo acaba sendo testemunha ocular de um assassinato e sem querer torna-se o culpado por tal homicídio.

Acontece que ser acusado de um crime que não cometeu não é o bastante. Sempre há algo mais. Leonardo descobre que uma conspiração, sob a liderança de um homem chamado Neroni, está sendo formada para tirar do poder Pedro di Médici, o maior mecenas de Florença. Como se já não bastasse, tal assassinato será concretizado por meio de uma máquina cujo desenho só Leonardo teve acesso. Agora, com a ajuda do amigo Sandro Botticelli e da escrava Fresina, Leonardo tem como objetivo descobrir que espécie de máquina mortal é esta antes que a cidade de Florença seja tomada por um novo governante.

O ponto forte do livro é justamente a união que o autor Robert J. Harris faz da ficção com a realidade. É realmente verdade que em 1466 uma conspiração estava sendo tramada para tirar os Médici do poder. Isso sem contar com as descrições minuciosas dos locais e com o mapa de Florença nas páginas iniciais. Não espere achar aqui uma ficção fantasiosa, com uma máquina mortífera que irá dizimar toda a cidade... O autor fez bem em limitar os avanços mecânicos aos padrões da época.

Outro fato importante que preciso mencionar é o profundo estudo que o autor fez da vida de Leonardo da Vinci. No livro somos levados à pequena vila onde Da Vinci nasceu, chegamos até a conhecer sua família. O autor também dá vários sinais da genialidade que Leonardo vai desabrochando ao longo de toda obra, fortalecendo a ideia de que a mais imprevisível das pessoas pode se transformar em um dos grandes ícones da humanidade.


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Resquícios das Férias

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É incrível como os momentos de prazer passam rápido. As férias são um ótimo exemplo disso. Esperamos tanto pela chegada delas, aproveitamos cada minuto, usufruímos até a última gota do descanso que nos é oferecido... A gente perde a noção do tempo. E às vezes o tempo é tão maldoso conosco, pois as férias chegam ao fim e ficamos com aquela sensação de que a paz e o sossego não foram saciados por completo.

Hoje minhas férias chegam ao fim, e o caminho para o futuro fica cada vez mais visível. É o meu último ano na faculdade, ano decisivo, e sinto que certas coisas estão para mudar. Tempos difíceis me aguardam. Mas por trás da tempestade sempre há um dia de sol. Sei que ainda este ano terei outras férias, contudo, nada se iguala às férias de verão.

Não sei explicar o motivo, mas parece-me que o verão dá um sabor a mais às ferias. Além de ser estupidamente quente, ficamos diante de um ano inteiro pronto para descarregar em cima de nós todas as suas surpresas. É como se fevereiro fosse o primeiro mês do ano e janeiro apenas existisse para nos aconchegar. O que não duvido nada.

O vídeo de hoje, que por sinal foi feito por mim, é um breve resumo das minhas férias no interior. Nele você verá algumas de minhas empreitadas ao lado dos meus companheiros de aventura. A música utilizada para compor o vídeo chama-se "Espero A Minha Vez", da banda Nx Zero. E antes que alguém pense besteira, eu aviso: não, não é uma canção de um cara lamentando por ter perdido sua amada. A letra é bonita e permaneceu na minha cabeça por quase todos os dias destas férias.

Espero que você goste do vídeo e também que suas férias tenham sido tão proveitosas quanto as minhas. Chegou a hora de despertar, pois tudo voltará a ser como antes e o mundo vai girar novamente.

ATENÇÃO: Caso o vídeo não esteja muito visível, veja-o neste link: http://www.youtube.com/watch?v=61aeBfxkkt0.

Letra:
Se o medo e a cobrança
Tiram minha esperança
Tento me lembrar de tudo que vivi
E o que tem por dentro, ninguém pode roubar

Descanso agora, pois os dias ruins todo mundo tem
Já jurei pra mim não desanimar
E não ter mais pressa pois sei que o mundo vai girar
O mundo vai girar
Eu espero a minha vez

O suor e o cansaço fazem parte dos meus passos
O que nunca esqueci é de onde vim
E o que tem por dentro ninguém pode roubar
Descanso agora, pois os dias ruins todo mundo tem
Já jurei pra mim não desanimar
E não ter mais pressa
Eu sei que o mundo vai girar
O mundo vai girar e eu espero a minha vez

E eu não to aqui pra dizer o que é certo e errado
Ninguém tá aqui pra viver em vão
Então é bom valer à pena
Então é pra valer à pena, ou melhor não.

Os dias ruins todo mundo tem,
Já jurei pra mim não desanimar
E não ter mais pressa, pois sei que o mundo vai girar
O mundo vai girar e espero a minha vez.


Email: meninodasletras@bol.com.br
Twitter: @meninodasletras.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Rede Social



"1 milhão de dólares não é legal. Sabe o que é legal? 1 bilhão de dólares!"


Nós somos escravos das grandes empresas. Somos consumidores fervorosos delas. Clientes fiéis. Ficamos tão cegos com o tamanho do entretenimento que elas podem nos proporcionar, que não paramos para pensar da onde e como surgiram. Infelizmente, muitas verdades nos são omitidas e quando isso acontece, é porque existe algo muito obscuro para se esconder. E quem de nós não gostaria de descobrir algumas verdades, de ficar por dentro dos bastidores que originaram determinada Companhia? Para nossa sorte, há aqueles que fazem questão de nos revelar a maçã podre da colheita.

A Rede Social, por mais que seja um filme feito para entreter ou até mesmo para dar uma lição de moral ao espectador, querendo ou não, acaba sendo uma espécie de denúncia. E, se não fosse por esse teor dramático de "Você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos" que é mostrado no pôster, talvez o filme não tivesse sido tão impactante ao ponto de arrancar elogios do público e da crítica. O excelente trailer já deixa o drama bastante explícito (confira no fim da postagem).

O longa foi dirigido por David Fincher (mesmo diretor de O Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamim Button) e recebeu 8 indicações ao Oscar, incluindo o de Melhor Filme. E me arrisco a dizer: caso ganhe em pelo menos uma das categorias, será por puro merecimento. O filme nos mostra como Mark Zuckerberg teve a ideia de criar o Facebook e por que teve que enfrentar dois grandes processos por causa disso.

A primeira cena já deixa claro que Mark é um nerd ambicioso, que deseja ganhar a atenção dos grandes clubes da faculdade por meio da sua inteligência. A interpretação que Jesse Eisenberg deu ao personagem ajudou a enriquecer o fato de nos ensinar o quão esnobe a pessoa pode se tornar apenas para demonstrar que é mais inteligente que o próximo. Mark é tão obcecado por sua criação, que chega a ser antipático (É possível contar nos dedos quantas vezes ele abre um sorriso durante todo o filme).

A inteligência deu poderes ilimitados a Mark, e isso logo chamou a atenção dos gêmeos Winklevvos. Ambos dão a chance para Zuckerberg escrever os algoritmos de um site onde todos os alunos da faculdade pudessem se conectar uns com os outros. Mark utiliza-se dessa ideia para elaborar algo melhor e mais sofisticado, mas para que as raízes de sua ideia pudessem germinar era necessário que alguém o financiasse. É aí que entra a participação do brasileiro Eduardo Saverin, interpretado por Andrew Garfield.

Eduardo torna-se o co-criador do Faceboock e 30% da empresa passa a ser sua. Diga-me com quem tú andas, e eu te direi quem és... Mark começa a andar na companhia de Sean Parker sob a desaprovação de Eduardo. Não deu outra; Parker passou a perna no ingênuo brasileiro, diluindo sua parte das ações para 0,03 %. A decepção de Eduardo por ter sido enganado e saber que seu amigo nada fez para impedir isso chega a ser tocante. E assim, nesta trama repleta de dramas, Mark é processado e perde o melhor amigo.

O verdadeiro Mark Zuckerberg não gostou muito da adaptação que fizeram de si mesmo. Alegou que os eventos não foram abordados com total veracidade. Afinal, o filme o mostra como um anti-herói bastante insensível. O fato é que Eduardo realmente o processou e provavelmente a versão original da história jamais venha à tona. Eles não têm do que reclamar, são bilionários. Milhões de internautas usufruem da criação dos dois. E se o Facebook fez dos dois inimigos e fez com que Mark fosse odiado por muitos, este foi o preço para obter fama, riqueza e sucesso. É a consequência que se tem por utilizar a inteligência para pisar em cima dos outros.


Trailer:

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