domingo, 24 de outubro de 2010

A Antena e a Nuvem




* Como esta semana estou meio sem assunto, resolvi publicar esse texto de minha autoria, ainda que de maneira relutante. Já escrevi coisas melhores que essa, como A Menina que Matava Livros, mas aí está para quem curte textos pedagógicos. A foto no início da postagem foi tirada por mim em mais uma de minhas empreitadas fotográficas durante as férias de verão, e foi também minha fonte de inspiração para a criação desse texto. Boa leitura.


De repente, o tempo fechou.

Uma nuvem intensamente nebulosa e gigantesca sobrevoava uma pequena cidade. Pronta para despejar sua carga torrencial, ela hesita ao escutar algo inusitado.

Uma voz. Lá de baixo.

- Nuvem!

A nuvem achou aquilo muito estranho. Que tipo de ser humano perderia seu tempo tentando conversar com uma nuvem? Era coisa de louco.

Quando olhou para baixo, porém, ela viu que não era uma pessoa que gritava. Para seu espanto, percebeu que em meio às várias casas uma antena de rádio destacava-se balançando de um lado para o outro, tentando chamar sua atenção.

- És tu que me chamas? – a Nuvem perguntou.

- Sim – respondeu a Antena. – Desculpe o incomodo, mas reparei que a senhora é bem grande e está prestes a... Como posso dizer... Jogar o seu “pacote” aqui para baixo, não é?

- Por acaso você se refere à chuva?

- Sim.

- Correto. Vai chover canivete para vocês aí de baixo.

- Então... A senhora poderia me fazer um favor?

- Acho bastante improvável, mas não custa tentar. Do que se trata?

- Será que a senhora poderia chover um pouco mais pro lado de lá?

A nuvem achou o pedido muito esquisito.

- Por quê? – ela perguntou, curiosa.

- É que a senhora é tão grande que dá pra perceber que vem chuva forte por aí – explicou a Antena. – E como eu sou uma antena frágil, tenho medo que o temporal me derrube.

A Nuvem soltou uma gargalhada.

- Que petulância! Não posso evitar uma chuva só por sua causa. Iria contra os meus princípios. Fazer chover faz parte da minha essência de nuvem.

- Então para você não faz diferença se permaneço de pé ou caio?

- Tenho coisas mais importantes com que me preocupar.

- Como o quê?

- Levar água para os que necessitam. O sertão, por exemplo, que é devastado pela seca quase o ano inteiro. Você precisa ver a emoção nos olhos do velho sertanejo ao presenciar a transição do que antes era seco, transformar-se em algo verde. A chuva para muitos traz felicidade, e garanto que várias pessoas da sua cidade pensam da mesma maneira.
- Com certeza – concordou a Antena. – Mas sua chuva também traz desgraça. Pessoas perdem suas casas e, inclusive, a vida. Morrem em inundações e desabamento de terra. E, além disso, na maioria das vezes que antenas como eu caem por causa de chuvas como a sua, acontece um curto-circuito que pode eletrocutar um cidadão e até quem sabe causar um incêndio.

- Já disse que não posso evitar a chuva, mesmo que eu quisesse. Não dá para lutar contra as leis da natureza!

- Por favor, não! Não!

Tarde demais. Como uma boca aberta pronta para cuspir saliva, a nuvem lançou gotas e mais gotas em direção a terra, trazendo uma chuva que há muito a cidade não tinha a oportunidade de ver.

Quando terminou, a nuvem olhou para baixo. A antena não conseguiu resistir. Estava caída no chão, derrotada.

Certo dia, a nuvem volta a passar pela mesma cidade, pronta para novamente despejar seu arsenal. Quando olha para baixo, uma surpresa: a antena estava de volta ao seu lugar, nova em folha.

- Retornou do mundo dos mortos? – indagou a Nuvem.
- Pois é – a Antena respondeu.

- Vai querer repetir o pedido? Porque agora vai chover tão forte quanto da última vez.

- Fique à vontade.

A Nuvem estranhou a atitude da Antena. Onde estava todo aquele medo?

- O que deu em você? Acha que estou blefando?

- De modo algum. Acredito no seu potencial.

- E o que é, então? Você está diferente.

- Desta vez estou mais confiante.

- Posso saber por quê?

- Claro – disse a Antena. – Você disse que a chuva traz felicidade. E estava certa. Graças a você, consegui encontrar alegria no meio da desgraça. Após aquela chuva, o que restou de mim foi utilizado para a construção de uma antena mais moderna e duradoura. Assim como na vida, precisamos aprender a levantar quando caímos em frente a um obstáculo, seja sozinho ou com a ajuda de amigos. Temos que ultrapassar barreiras que nos impedem de crescer. Agora eu entendo. Por isso, pode chover o quanto quiser desta vez. Não tenho nada a temer.

- Está bem. Você que pediu.

A Nuvem deu tudo de si. Lançou sobre a cidade uma chuva pior que a anterior. Águas descontroladas inundaram ruas, o vento enfurecido envergou árvores e até os raios deram o ar da graça.

Não tendo mais forças, a nuvem parou e olhou para baixo.

A antena estava intacta. Imóvel.

A nuvem ficou embasbacada.

- Como pode? – perguntou.

- Eu te disse – lembrou a Antena. – Estou mais forte e mais confiante. Para me derrubar de novo, será preciso um dilúvio.

Foi a partir daquele dia que a nuvem aprendeu o significado de dar a volta por cima. Anteriormente a antena havia demonstrado fraqueza e medo, mas agora exibia coragem e autoconfiança.

É preciso cair para aprender a levantar.

E assim renascer das cinzas.



Leonardo da Vinci F. da Cunha.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2





"Para certas pessoas a guerra é a cura. A guerra funciona como uma válvula de escape. Comigo sempre foi assim, parceiro".



Raras são as ocasiões em que um filme brasileiro é tão esperado, principalmente quando se trata de uma sequência. Se o primeiro foi aclamado pelas plateias de toda a nação, é porque deve ser muito bom. Se o segundo gera o dobro de expectativa, é porque provavelmente deve ser melhor ainda. Esse pensamento permeou minha ansiedade durante a semana inteira, e foi com ele ao meu lado que entrei no cinema para assistir Tropa de Elite 2. E não me decepcionei.

Ele está de volta. Mais velho, mais experiente e com mais problemas. E devo dizer que uma legião de pessoas aguardavam ansiosas pelo retorno do Capitão Nascimento... digo, agora Coronel Nascimento. Wagner Moura encarna mais uma vez esse polêmico personagem, que neste filme possui uma carga psicológica ainda mais dramática que no antecessor.

Ambientada aproximadamente 15 anos após o primeiro filme, a trama nos mostra os bastidores da corrupção de uma maneira mais ampliada; o sistema não corrompre apenas os policiais e os jovens adolescentes usuários de droga. Para que estes sejam corrompidos, é necessário que se tenha um corruptor. E adivinha só quem é o culpado... São os senhores do sistema, os financiadores de toda a sacanagem: os políticos. E assim se estende a ampla rede social da corrupção.

A guerra de Nascimento contra o sistema continua. Só que não basta ficar prendendo e espancando vagabundo eternamente. Agora que foi promovido a trabalhar na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, seu objetivo é atingir o olho do furacão. Com a ajuda do BOPE, ele extermina quase todo o tráfico existente nas favelas. E isso não podia passar despercebido. Quando a fossa é entopida, meu chapa, a merda tem que sair por outro lugar. Os policiais corruptos descobrem outra maneira de ganhar dinheiro dentro da favela, e isso pouco a pouco vai afundando os planos de Nascimento.




E para aumentar a dramaticidade do personagem, seus assuntos familiares não andam nada bem. Agora ele é separado, seu filho não vai com sua cara e também é bombardeado o tempo inteiro na televisão por pessoas que são a favor dos direitos humanos. Sem contar que o Capitão André, o homem que foi treinado para substituí-lo, já não mais o admira.






José Padilha, diretor dos dois longas, conseguiu transportar este Tropa de Elite para um patamar mais maduro e complexo. Se no primeiro o espectador ficava perdido diante de tanto tiroteio e perplexo ao presenciar tanto sangue e violência, nesse tem-se a oportunidade de conhecer o interior de cada personagem, seus dramas pessoais e todo seu lado podre. E não é só isso: as sequências de filmagem são bem mais cuidadosas e organizadas, e isso é perceptível desde a primeira cena. A trilha sonora evoluiu bastante e lembrou-me muito o compositor Hans Zimmer nos filmes Batman e A Origem nos momentos impactantes.

Acho que não preciso tecer comentários sobre a atuação de Wagner Moura. Seria redundante. O cara é demais. Atente para o roteiro bem estruturado, cuja função é denunciar aquilo que já sabemos que acontece na política, porém não temos conhecimento de como funciona. O roteiro é digno de premiação.

Mas se você, leitor(a), aprecia uma boa carnificina, não há com o que se preocupar: a mesma violência do primeiro filme nós vemos aqui, o mesmo saco, os mesmos bofetões e também há novos bordões. E sangue. Muito sangue, para dar e vender. As cenas de assassinato foram muito bem feitas, inclusive a dos personagens que não mereciam morrer...

Acha que está preparado(a) para enfrentar Tropa de Elite 2? Não?

Então pede pra sair, malandro.




"Eu demorei muito para perceber quem eram os meus verdadeiros inimigos. E numa guerra, isso pode ser fatal. A verdade é que minha guerra contra o sistema estava só começando... E desta vez ia ser pessoal".




Trailer:

video

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleições: o poder do mais fraco


"O povo não deve temer o seu governo. O Governo é quem deve temer o seu povo". *



Nós somos a ralé da sociedade. Não há nem o que discutir ou tentar argumentar. Por mais que sejemos honestos, tenhamos um trabalho digno e até mesmo um nível de escolaridade adequado, obstáculos infindáveis surgem especialmente para nos manter no anonimato. Escondidos sob a sombra de um sistema opressor.


Aqueles que se destacam são justamente os que controlam a grande brincadeira de ventríloco. São os ditos poderosos, os imperadores. Em outras palavras, os políticos. Eles manipulam a enorme marionete chamada de Mídia; ela é a responsável por apontar todo o lado podre dos humanos. Por isso sempre somos mostrados como estupradores, ladrões, analfabetos, incompetentes... Raras são as ocasiões em que um ato de bondade é destacado de maneira triunfal. O que, por sinal, já é muita coisa; a Mídia é obrigada a explorar os nossos grandes feitos, a imensidão da nossa benevolência.


Por um único e simples fator.


O que talvez muitos ainda não tenham percebido é que além de sermos a ralé da sociedade, nós também somos o alicerce que a sustenta. Se não fosse por nós, os poderosos não estariam no cume da pirâmide social. Nós somos os verdadeiros agentes do poder. E para você ser detentor de tal poder basta ter uma coisa: um título de eleitor.


Infelizmente, o voto é a única forma que temos de gritar por justiça e sermos escutados. É através do nosso dedo, este pequeno membro esquelético, que transferimos o poder e o jogamos nas mãos do candidato que julgamos mais bem preparado. Afinal, por que você acha que eles nos pedem ajuda? Eles sabem que sem nós é apenas uma questão de tempo para que se abra um abismo no solo onde pisam e mergulhem no pesadelo da normalidade. Se não fôssemos nós estendendo a mão para eles, muitos já teriam caído nesse abismo para nunca mais voltar.


Voto também pode ser usado como um protesto contra o sistema... Tiririca que o diga... Homens corajosos que estufam o peito e utilizam-se de artifícios cômicos para conquistar a população, despejando ideias estapafúrdias na cabeça daqueles que sonham em viver num mundo utópico.


É em época de eleição que a nossa importância é enaltecida e que o nosso poder de escolha vale ouro.


Somos nós que sustentamos a sociedade.
*Frase do filme V de Vingança.
Vote consciente!