segunda-feira, 30 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse


 “Tudo o que eles construíram, cairá. E das cinzas desse mundo, construiremos um melhor”.

A palavra apocalipse, no grego, significa “revelação”. Já no imaginário popular, o vocábulo ganhou fama por se referir ao fim dos tempos, uma vez que o último livro do Novo Testamento, escrito pelo apóstolo João, relata como será parte desse final conhecido por ser deveras tenebroso.  

Nos quadrinhos, o vilão Apocalipse nasceu na década de 1980 e já enfrentava os Filhos do Átomo desde sua primeira aparição. O personagem foi ganhando destaque e força, pregando filosofias de que apenas os mais fortes são capazes de sobreviver ao mundo, e se consagrou como um dos maiores nêmeses dos X-Men. Por essas e outras que o novo filme dos mutantes, X-Men: Apocalipse, era aguardado com certa curiosidade. 


O enredo tem início no Egito Antigo, onde a população adorava En Sabah Nur, provavelmente o primeiro mutante registrado na História. Após ter passado milênios em estado de hibernação, Apocalipse (Oscar Isaac) desperta em 1983 e percebe que o mundo é dominado pela raça que ele sempre julgou inferior: os humanos.

O mutante imediatamente começa a traçar um plano para que o mundo reconheça quem de fato é digno de adoração. Ele convoca seus Quatro Cavaleiros, Tempestade (Alexandra Shipp), Arcanjo, Psylocke (Olivia Munn), e Magneto (Michel Fassbender) para que juntos possam sedimentar uma nova era em todo o planeta.   


Depois que Dias de Um Futuro Esquecido desconsiderou tudo o que foi feito na primeira trilogia, a franquia ficou diante de uma nova linha temporal, na qual o diretor Bryan Singer e sua cúpula de produtores teriam a chance de não cometer mais erros cronológicos e equiparar o produto mais lucrativo da Fox a padrões louváveis como os da Marvel. Infelizmente, nada é perfeito, e Singer entrega o filme mais fraco da nova trilogia.


Algo que incomoda desde os primórdios é que os longas de X-Men sempre trabalham com uma quantidade demasiada de personagens, o que faz com que muitos conhecidos e queridos pelos fãs de quadrinhos acabem tendo uma importância ínfima nas telonas. Neste é o caso de Jubileu, que sequer mostra seus poderes, Anjo e Psylocke, estes dois últimos com meia dúzia de falas e que cuja relevância se resume nas batalhas. Porém, o pior de tudo é que essa falha também respinga no vilão. Apocalipse não é assustador e sua origem é um mistério do início ao fim; ora, se o sujeito foi o primeiro mutante de todos, por que não explicar um pouco de seu gênesis para o público?


Nesta aventura em particular é notável a preocupação em enaltecer a computação gráfica do que em desenvolver e estreitar os vínculos entre os mutantes. X-Men é, antes de tudo, uma equipe – e, por que não dizer, uma família – e no único instante em que o filme tem a oportunidade de mostrar isso (o passeio do shopping), a produção faz questão de cortar a cena. Os efeitos especiais e a ação poderiam fazer com que as rachaduras da trama fossem esquecidas, no entanto, fica a impressão de que o clímax foi feito com desleixo e a edição não teve tempo de finalizar a luta antes do prazo.


Há, sem dúvidas, detalhes que se salvam. O excelente elenco, mais uma vez, consegue sustentar o roteiro com dedicação e maestria. James McAvoy e Michael Fassbender parecem estar ainda mais familiarizados com Charles Xavier e Magneto (este com um arco interessante), em atuações sinceras e envolventes. Os novatos Ciclope (Tye Sheridan) e Jean Grey (Sophie Turner) também não fazem feio, revelando que em breve a formação clássica estará estabelecida. Oscar Isaac se esforça em ter uma postura vilanesca, embora Mística (Jennifer Lawrence, que quase não aparece na sua forma azul) tenha seu prestígio diminuído ante ao estrelato de sua intérprete.  


X-Men: Apocalipse tem seus holofotes voltados para um vilão que deixa a desejar, prejudicando outros personagens e atrapalhando também o percurso do filme ao trocarem um bom drama simplificado pela grandiloquência. Em meio a erros e acertos (Mercúrio na mansão e a cena final, por exemplo), Apocalipse encerra mais uma fase cinematográfica dos mutantes, direcionando os Filhos do Átomo não para uma conclusão definitiva, e sim para um recomeço. Se o futuro da equipe será próspero ou não, apenas o próximo capítulo dirá.  

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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mata-me, ó Deus


“Depois da água, veio a neve. Depois da neve, os vírus, antropófagos invisíveis. Se construímos um abrigo, o mesmo é derrubado pelas convulsões dos doentes. Com o tempo, passamos a deixá-los ao relento, quase por piedade. Não sabemos quem ficará do lado de fora amanhã. Não há salvação. Não existe Alquimista”.

O físico Albert Einstein sabia da profundidade contida nas suas palavras quando proferiu uma de suas célebres frases: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. E após a leitura do quadrinho Mata-me, ó Deus, torna-se engraçado imaginar a mente dos leitores em um estado catatônico e entorpecente, ao passo que se amplia para aceitar o que viu nas páginas da obra.

A HQ tem roteiro de Marcos Guerra, desenho de Marcos Garcia e arte final de Carlos Alberto, membros do Coletivo K-Ótica, um dos poucos exemplos de companhias que lutam para que o gênero textual dos quadrinhos ganhe cada vez mais espaço no Rio Grande do Norte. A obra, inclusive, foi um dos destaques da FIQ 2015, o maior festival de quadrinhos do Brasil.

É difícil esmiuçar o enredo, uma vez que a HQ é curta, embora carregada de significações e alegorias. O que o leitor curioso precisa saber é que o cenário é pós-apocalíptico, em um futuro no qual as águas cobriram os continentes e o que restou de terra é assolada pela neve. Os poucos sobreviventes procuram por uma entidade chamada Alquimista, que pode (ou não) oferecer-lhes uma oportunidade para instituírem uma nova economia.

O clima caótico e tétrico da trama é complementado pelo belíssimo trabalho artístico de Garcia e Alberto, cujo detalhe do traço de cada personagem faz com que a imersão aconteça com mais fluidez. O interessante é que Mata-me, ó Deus é isento de cores; essa ausência de vivacidade corrobora para que a sensação de ruína e desespero seja aprofundada.  O que há é o registro do preto e do branco, o que permite que a obra tenha uma dualidade peculiar, se aqui couber o ar do paradoxo, de um pessimismo esperançoso.

Somando o roteiro e a arte, Mata-me, ó Deus é permeado por elementos de mitologia oriental e filosofias emblemáticas. É possível que alguns leitores não atinjam a catarse proposta pelo quadrinho, mas, como o grande renascentista Leonardo Da Vinci certa vez disse, a pintura é uma poesia que se vê e não se sente. Portanto, que os fãs e os estimulados deixem suas mentes se abrirem para mais trabalhos artísticos dessa qualidade e que se deliciem com as possibilidades que Mata-me, ó Deus sugere para o futuro.     

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capitão América: Guerra Civil


“Nosso trabalho é tentar salvar o máximo de pessoas possível. Às vezes isso não significa todo o mundo. Mas você não desiste”.

Os números falam por si. Doze filmes, duas fases, quatro séries de TV na atualidade (com mais quatro em desenvolvimento), alguns curtas-metragens e milhares de quadrinhos para se inspirar. Parece um conto de fadas imaginar que um projeto iniciado em 2008 pudesse gerar vários bons frutos, mas esse é o legado que o Universo Cinematográfico da Marvel vem construindo ao longo de tantos anos.


Talvez nem o produtor Kevin Feige suspeitasse que seu projeto ambicioso pudesse dar certo. Os fãs compraram a fórmula de universo compartilhado, uma vez que se trata de um reflexo do universo dos quadrinhos, e a produção logo tratou de dividir sua enorme franquia em fases. E tendo a Fase 2 terminado em Homem-Formiga, a Fase 3 chega com diversas promessas e com um maravilhoso início: Capitão América: Guerra Civil. 


Vingadores: Era de Ultron terminou com a destruição de Sokovia e centenas de civis mortos, assim como mostrou a nova formação da equipe de heróis. Guerra Civil tem início com o novo grupo em uma missão, a qual tem um desfecho trágico. A fatalidade faz com que o General Ross, apoiado por Tony Stark (Robert Downey Jr.) – este com uma sobrecarga bastante dramática –, force Capitão América (Chris Evans) e companhia a assinarem o Tratado de Sokovia, documento que concede ao governo a autoridade para controlar as ações dos Vingadores.   


E a divisão logo fica evidente: Steve Rogers é a favor da liberdade, Tony está ao lado do governo. O interessante é que a narrativa, muito bem estruturada pelos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, não induz o espectador a decidir em qual lado deve ficar. Tratando-se apenas de uma jogada de marketing, do mesmo modo que aconteceu com Batman vs. Superman (e as semelhanças não ficam somente neste aspecto), o conflito entre Homem de Ferro e Capitão América acontece de maneira natural e gradativa. Não é uma luta entre dois oponentes que se odeiam e pretendem matar um ao outro; é um desentendimento entre dois amigos, e é importante lembrar que ambos já entraram em desacordo em filmes anteriores.


Essa perspectiva pode desagradar o fã dos quadrinhos que espera assistir no cinema uma das maiores aventuras do Capitão América. A questão é que a Disney é proprietária da Marvel, o que significa que as mortes que acontecem na HQ não necessariamente vão ser adaptadas para o longa. Outra questão que prejudica a trama é que a Marvel não detém os direitos de todos os personagens dos quadrinhos, fazendo com que ícones como Quarteto Fantástico e X-Men fiquem de fora e também reduzindo a “guerra” a pequenas lutas.


Os irmãos Anthony e Joe Russo, diretores de Capitão América 2 – O Soldado Invernal, retornam ao posto na tentativa de reprisar o sucesso do antecessor. O desempenho da dupla é esplêndido; as batalhas, especialmente a cena do aeroporto, são extremamente bem coreografadas e os personagens são como peças de xadrez em um enorme tabuleiro. A estratégia dos Russo revela-se eficaz ao exibir o embate de cada herói, sem fazer em momento algum com que o espectador se sinta perdido. Na verdade, a harmonia e o sincronismo são elegantes, algo que se repete na luta final (O escudo trocando de mão em rápidos movimentos, por exemplo), e seria possível passar um longo tempo admirando os Vingadores brigando entre si. 


No entanto, Guerra Civil também tinha outros objetivos a cumprir. Aqui se encerra o ciclo de Steve Rogers em busca do Soldado Invernal, ao passo que se inicia a introdução do Pantera Negra e do mais recente Homem-Aranha (resultado do acordo contratual entre Sony e Marvel). E a escalação do elenco não poderia ter sido melhor, com Chadwick Boseman mostrando toda a postura da realeza de Wakanda e Tom Holland sendo talvez o Amigão da Vizinhança mais engraçado e simpático já visto no cinema. 


Capitão América: Guerra Civil não é o melhor filme da Marvel, possui falhas (Zemo é uma delas, embora seu futuro tenha ficado em aberto), mas mostra a responsabilidade que toda a produção teve ao trabalhar com apenas um determinado time de heróis. O pontapé inicial da Fase 3 é excepcional e as cenas pós-créditos de Guerra Civil apontam os novos caminhos que o universo Marvel pretende seguir. Ainda resta muita coisa a ser acrescentada nesse legado e, até lá, milhares de pessoas para conquistar.     

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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Turma da Mônica - Lições


“Você não é superforte... Não é indestrutível. Você não é uma super-heroína. É só uma menina. E isso é tudo que você precisa ser”.

O selo Graphic MSP, desenvolvido pela Mauricio de Sousa Editora, desde 2012 vem trazendo maravilhosas releituras de icônicos personagens como Piteco, Chico Bento, Astronauta, Penadinho, Turma da Mata, entre outros. Porém, em 2013 foi publicada aquela que talvez seja a graphic novel mais famosa e inesquecível do selo, Turma da Mônica – Laços, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi.   

Era de imaginar que o talento dos Cafaggi não ficaria engavetado. E, desse modo, para a felicidade dos leitores, dois anos após a aventura do quarteto mais unido do bairro do Limoeiro em busca do cachorro Floquinho, surge a tão esperada continuação: Turma da Mônica – Lições.


E se Laços já era impecável e comovente, Lições não somente mantém a qualidade do antecessor, mas enaltece os valores transmitidos no passado e faz com que a narrativa evolua e amadureça. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali estão encrencados. Todos eles se esqueceram de fazer a lição da escola e o plano de escapar da responsabilidade acaba saindo pela culatra. 


Logo a palavra “lições” começa a ganhar novos significados e o quarteto vai precisar enfrentar a mais difícil delas: a lição da vida. Eles aprendem que seus atos possuem consequências e o maior desafio será, em meio a tantas adversidades, permanecer com a amizade firme.


Um dos maiores destaques de Laços foi o clima sombrio que permeava toda a trama, uma vez que grande parte das cenas eram noturnas. Neste sentido, Lições é mais colorido por ser quase que completamente diurno, embora aborde temáticas mais sérias (a capa já entrega um pouco disso) como solidão, a busca por aceitação, superação, distância, bullying, e até o primeiro amor. 


Com assuntos tão delicados de se abordar, o trabalho dos irmãos Cafaggi teve que ter um empenho redobrado. E o resultado é bastante perceptível nas feições dos personagens, dos momentos de preocupação aos de alegria, estreitando ainda mais a ponte afetiva dos leitores para com a turma.


Desta vez, as características dos personagens são postas à prova (Aqui cada um tem seu arco e a Mônica merece um destaque especial) e os quatro amigos vão precisar se apoiar na amizade para poderem encarar juntos essa nova etapa da vida. Em Turma da Mônica – Lições, Vitor e Lu Cafaggi conseguiram expandir de modo satisfatório todas as sensações positivas que foram adquiridas na leitura de Laços. Mais um ótimo trabalho para o acervo do selo Graphic MSP e mais uma incrível história para guardar.    

quarta-feira, 30 de março de 2016

Batman vs. Superman: A Origem da Justiça


“Agora nós sabemos a verdade, não é? Demônios não vêm do inferno, abaixo de nós... Não. Eles vêm do céu”.

O cineasta Zack Snyder tem um apreço muito forte por quadrinhos. Isso é notável em seu histórico, já que foi responsável por filmes como 300, Watchmen e O Homem de Aço. Sua assinatura é perceptível na tonalidade das cores, na câmera lenta, no abuso de efeitos especiais, e essas características fazem com que ele seja a figura mais aparentemente preparada na atualidade – depois de Christopher Nolan, é claro – para dirigir um filme de herói sombrio e realista.

E muitos fãs receberam com alegria (mesclada com receio – bastante, por sinal) a notícia de que Snyder também comandaria Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, longa que não apenas dá continuidade ao que foi estabelecido em O Homem de Aço como é o estopim para a Warner firmar os alicerces do universo cinematográfico da DC.


Dezoito meses depois da destruição de Metrópolis causada pela batalha de Superman (Henri Cavill) contra o general Zod (Michael Shannon), a população do mundo encontra-se dividida em relação ao caráter e intenções de uma criatura extraterrestre com poderes sobre-humanos. Uma das pessoas que mais menospreza o kriptoniano é Bruce Wayne (Ben Affleck), pela desconfiança adquirida ao longo de anos combatendo o crime e pela quantidade exorbitante de vidas que sucumbiram no primeiro filme. 

Essa é uma premissa bastante interessante para fazer dois grandes heróis dos quadrinhos terem um combate inédito nos cinemas. Contudo, em questões de minutos as falhas de Batman vs. Superman começam a aparecer e, durante a projeção, fica claro que o filme possui desespero em sua essência. Cinematograficamente falando, a Marvel está anos-luz à frente da DC, e esta, para não perder ainda mais tempo, resolveu trilhar um caminho inverso ao da sua rival.


A consequência da pressa faz com que o roteiro e edição fiquem desnorteados tanto pelo excesso de informação quanto pela abundância de personagens. Além de apresentar um novo Batman, o enredo também mostra Lex Luthor (Jesse Eisenberg), Mulher-Maravilha (Gal Gadot), Apocalipse (este muito mal aproveitado, como uma besta irracional), e toda uma subtrama investigativa protagonizada por Lois Lane (Amy Adams), deixando pouco tempo livre para o embate entre Homem Morcego e o Filho de Krypton. E embora a produção tente negar, isso é controverso; como pode faltar tempo em uma película de duas horas e meia? 

É óbvio que a intenção de Batman vs. Superman é direcionar a cronologia da DC para o filme da Liga da Justiça e outros futuros projetos (Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash, etc), mas era de se esperar um mínimo de coerência. E como se não bastasse a destruição exacerbada que ocorreu em O Homem de Aço, Snyder presenteia o espectador com um clímax megalomaníaco; afinal, para o diretor, tudo é válido em detrimento do espetáculo visual.   


Todo filme de herói precisa ter um vilão marcante, esse é um dos ensinamentos que Christopher Nolan deixou. Infelizmente, até neste quesito o enredo tropeça; sabe-se que Batman e Superman irão se enfrentar, e que é necessário fazer a tensão crescer enquanto o momento não chega. Se o antagonista fosse somente Lex Luthor, a função de todo seu plano nefasto faria sentido (Bem no estilo Coringa). Porém, o próprio roteiro prejudica o personagem e, na tentativa de ostentar com Apocalipse, algumas ações de Lex não têm tanta veemência e a atuação de Jesse Eisenberg, mesmo tendo um admirável empenho, não o faz tão amedrontador quanto deveria.


Apesar de falhas que podem ser consideradas graves para muitos fãs, é preciso reconhecer que a trama possui seus méritos. O Batman de Ben Affleck é extraordinário; inspirado no Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, aqui o espectador é apresentado a um Bruce Wayne cansado, traumatizado, impiedoso e sem muitas motivações para ter esperança na humanidade. Clark Kent entra como um opositor à altura, carregando toda a simbologia messiânica envolvendo o Superman e se transfigurando em um distintivo de fé para os cidadãos que confiam nele.  


Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, como o título já entrega, deixa muitas pistas no ar e a promessa de que os heróis da DC irão fundar a Liga da Justiça e lutar contra uma ameaça muito maior, e isso já é suficiente para fazer milhares de fãs entrarem em delírio. Zack Snyder outra vez cria um produto esteticamente belo, mas que possui buracos em sua estrutura e que fará diversos espectadores terem opiniões heterogêneas. Pelo menos a DC pode ficar mais tranquila agora que seu universo teve as portas abertas. É o cinema cedendo mais um espaço para os heróis dos quadrinhos, e dando novas razões para apreciar esse tipo de arte.

“A maior batalha de gladiadores da história do mundo. Deus versus homem. Dia versus noite”.

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sexta-feira, 18 de março de 2016

Spotlight: Segredos Revelados


“Se toda comunidade educa uma criança, toda a comunidade abusa dela”.

Em tempos longínquos, houve um período em que uma das características mais virtuosas do jornalismo era o seu comprometimento e fidelidade para com a veracidade dos fatos. Infelizmente, o retrato da realidade contemporânea, além de estar longe dos belíssimos atributos de outrora, é gritante; é deveras difícil acreditar em qualquer coisa que venha de uma mídia corrupta, conspiratória, voltada exclusivamente para si e os interesses privados que a permeiam.

Diante de um jornalismo cínico, narcisista e hipócrita, é triste constatar que o jornalismo genuíno vem caindo cada vez mais no ostracismo. Entretanto, para a sorte daqueles profissionais que levantam a bandeira da verdade e que não desistem tão fácil, ainda existem fontes de inspiração nas quais eles podem se apoiar. É o exemplo de Spotlight: Segredos Revelados.  


Inspirado em uma história real, o enredo do filme narra a epopeia jornalística que a equipe Spotlight (redação responsável por notícias investigativas) do jornal The Boston Globe tem de enfrentar para cobrir uma matéria a respeito de casos de pedofilia envolvendo padres da Igreja Católica da região. 


O time, composto por Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James), cada um com seu objetivo e destaque particular, é liderado pelo editor Walter Robinson (Michael Keaton) e conduz o desenrolar da investigação de maneira competente e com atuações formidáveis, as quais se intensificam na medida em que as descobertas de abuso sexual não param de aumentar. 


Dirigido e roteirizado por Tom McCarthy e vencedor dos Oscars de Melhor Roteiro Original e Melhor Filme, o longa se assemelha com outro ganhador, Whiplash, no aspecto de ter tido um orçamento pequeno, uma direção singela, mas uma repercussão gigantesca. 


A direção de McCarthy, que geralmente comandava trabalhos pequenos em sua carreira, não é algo surpreendente, porém isso não deixa a temática do filme menos revoltante; aqui o roteiro tem um papel inestimável em denunciar as práticas de pedofilia e, no caso de algumas vítimas, detalhar o modo como eram abusadas. O restante da produção parece reconhecer esse valor, transparecendo o cuidado e zelo ao transmitir as informações adquiridas por cada repórter.


Em 2003, a equipe do Spotlight recebeu o prêmio Pulitzer por essa investigação, a qual ajudou a descobrir outras centenas de casos ao redor do mundo. Desse modo, nos tempos atuais em que as redes sociais ganham mais abrangência e autonomia e em que notícias falsas e maquiadas são distribuídas de forma tão leviana e corriqueira, é realmente glorioso contemplar uma obra como Spotlight: Segredos Revelados, demonstrando de que jeito o jornalismo genuíno deve ser aplicado. Um belo ensinamento para adotar no trabalho e para obter na vida. 

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sexta-feira, 4 de março de 2016

Deadpool


A Fox, pobre coitada, acumula em seu histórico um conjunto de obras ruins. Já não bastasse a ausência de coerência na cronologia de X-Men, sua franquia mais lucrativa, o estúdio ainda guarda em seu currículo as terríveis lembranças de X-Men Origens: Wolverine e o recente e não menos patético Quarteto Fantástico. E, como algumas manchas do passado precisam ser superadas – e esquecidas –, é preciso encontrar meios de sobrepujá-las.  

Deadpool surge como uma luz para que a Fox encontre a esperança de dias de glória. A película, que passou anos em fase de produção, e que teve uma forte campanha de marketing impulsionada quase que totalmente por Ryan Reynolds, finalmente conseguiu seu espaço para apresentar o Mercenário Tagarela de maneira cômica e satisfatória. E sobra espaço para o personagem zoar com os filmes mencionados acima.


O enredo do filme é simples e contado em estilo não linear. Wade Wilson (Reynolds) é um mercenário com passado sanguinário, mas que atualmente vive para ajudar pessoas que se sentem oprimidas de alguma forma. No bar onde os outros mercenários se reúnem, ele conhece a prostituta Vanessa (Morena Baccarin) e ambos iniciam uma relação amorosa.


Porém, não é o amor que causa a maior reviravolta na vida de Wade; o encarregado disso é o câncer em estado avançado que se espalhou por várias partes do seu corpo. Logo surge um misterioso homem que faz uma proposta aparentemente irrecusável ao moribundo: curar sua doença e transformá-lo em herói. E após um longo processo de experimentos brutais e tortura, nasce Deadpool, com super força e poderes regenerativos.


Deadpool é uma obra, digamos, diferenciada. É o primeiro longa de herói com classificação etária alta, por isso espere muito sangue, palavrões e um pouco de nudez. Além do aspecto sanguinário, o filme também traz dos quadrinhos outra forte característica: a quebra da quarta parede, em que o personagem fala diretamente com o público, que inclusive muitos fãs interpretam como esquizofrenia. 


A façanha para que esses elementos não prejudiquem a trama e faz com que ela tenha um clima, de certa forma, mais amigável, deve-se aos roteiristas Rhet Reese e Paul Wernick, responsáveis pelo roteiro do magnífico Zumbilândia. Os diálogos são repletos de piadas (algumas metalinguísticas) e referências à cultura pop (nem o Lanterna Verde de 2011 escapa), algo que a dupla de escritores sabe fazer muito bem.

Contudo, a comicidade exacerbada pode se tornar um defeito quando o resto do quadro geral é ignorado. O enredo funciona bem no quesito história de origem, embora o fio condutor seja raso e previsível, e o clímax seja composto por clichês. Fora isso, a presença de dois personagens dos X-Men revela um artifício desesperador da Fox em incluir o Mercenário Tagarela em algum filme futuro dos mutantes.


Deadpool, certamente, foi uma aposta arriscada. Dirigido por Tim Miller, diretor estreante, e com um orçamento abaixo da média, o resultado da obra é uma bela surpresa e talvez seja o melhor trabalho da carreira de Ryan Reynolds. O segundo filme já foi confirmado e a Fox conseguiu o que queria: estabelecer uma nova franquia de sucesso e encher os seus cofres de dinheiro. Parece que as manchas no histórico não serão mais problema. É tempo de uma nova era.        

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