sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

 


Gosto de pensar que o Homem-Aranha traz esperança para as pessoas”.

Em 2012, O Espetacular Homem-Aranha estreou com uma tremenda falta de sorte. Além do reboot trazer consigo a lembrança da trilogia clássica dirigida por Sam Raimi, ainda teve que sofrer com problemas em sua estrutura; desde o roteiro, passando pelos efeitos visuais e culminando na direção inexperiente. E o adjetivo “espetacular”, que é completamente contraditório ao produto final, perdeu o encanto. 

A superação, felizmente, é uma fascinante característica do cinema e O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro cumpre com o seu papel como uma sequência: é, de longe, muito melhor que o seu antecessor. Peter Parker (Andrew Garfield) concluiu o segundo grau e, ao lado da sua namorada Gwen Stacy (Emma Stone), terá que começar a enfrentar as mazelas da vida adulta, com o acréscimo de combater o crime de Nova York.


A cidade permanece dividida quando o assunto é o Homem-Aranha. Para alguns, uma aberração delinquente; para outros, um verdadeiro herói. Há também quem questione, como Harry Osborn (Dane DeHaan), se Nova York de fato precisa de um vigilante. A idolatria pelo Cabeça de Teia fica por conta do personagem Max (Jamie Fox), um solitário e carente funcionário da Oscorp, que vê no aracnídeo um amigo que nunca teve. 

Após um acidente de trabalho, Max adquire poder elétrico por todo o seu corpo ao passo em que consegue sugar energia de qualquer coisa que conduza eletricidade. Enquanto isso, a sombra do misterioso passado dos pais de Peter retorna e ele é compelido a descobrir qual a relação de sua família com uma empresa que financia projetos de natureza duvidosa. 


O amadurecimento da franquia é perceptível em diversos níveis. Desta vez a direção de Marc Weeb (de 500 Dias com Ela) está mais segura e confiante, algo que entra em sintonia com a atuação dos protagonistas, pois Garfield e Stone estão demasiadamente confortáveis em suas performances. Aqui é possível enxergar com mais naturalidade o carisma, simpatia e todo o lado irônico de Peter Parker sob a vestimenta aracnídea, características que fizeram do Homem-Aranha um herói tão icônico. 

Entretanto, isso não faz de O Espetacular Homem-Aranha 2 um filme excepcional. Ele ainda carrega a maldição do seu predecessor: as falhas do roteiro. A função e o desenvolvimento de alguns personagens – Tia May (Sally Field), por exemplo – permanecem mornos. Infelizmente, isso se reflete inclusive no vilão Electro, que não representa uma ameaça tão significativa e devastadora a ponto de merecer ter o nome citado no título do longa.


Em um quadro geral, esses detalhes enfraquecem A Ameaça de Electro porque estamos falando de uma franquia que será composta por quatro filmes. A invisibilidade de um fio condutor, de um arco contínuo, causa no espectador a incerteza do que esperar adiante (Sim, mesmo que o Sexteto Sinistro esteja em planejamento). 

Apesar dos pesares, O Espetacular Homem-Aranha 2 trouxe ótimas cenas de ação, uma dinâmica admirável e efeitos visuais fabulosos, embora seja preenchido por conteúdos superficiais e rasos. Continua não sendo espetacular, mas pelo menos agora o caminho parece mais claro e o objetivo se demonstra não mais tão distante. 

Trailer:

sexta-feira, 25 de abril de 2014

As Crônicas dos Kane - A Sombra da Serpente


Esta é a transcrição de um arquivo de áudio. Carter e Sadie Kane já me mandaram outras duas gravações, que eu transcrevi nos livros A Pirâmide Vermelha e O Trono de Fogo. Sinto-me honrado com a confiança dos Kane, mas preciso avisar que este terceiro relato é o mais perturbador até agora. O áudio chegou à minha casa em uma caixa chamuscada e esburacada com marcas de garras e dentes que o zoólogo municipal não conseguiu identificar. Não fossem os hieróglifos protetores do lado de fora, duvido que a caixa tivesse sobrevivido à jornada. Continue lendo e você vai entender o porquê”. 


Não é de hoje que o autor Rick Riordan vem mostrando seu talento para dissertar narrativas de teor épico e histórico. Talvez essa facilidade se dê ao fato de que o texano foi professor de História por muitos anos, experiência que lhe rendeu um vasto conhecimento. No entanto, Riordan já provou que tem um carinho especial por mitologias e sua série Percy Jackson e os Olimpianos ocupa um lugar de destaque na lista dos mais vendidos. 

Curiosamente, o autor não se atém apenas ao universo Greco-romano; outra série escrita por ele, As Crônicas dos Kane, fez sucesso e apresentou ao leitor vários aspectos da mitologia egípcia. E, por se tratar de uma trilogia, o desfecho da saga se concretiza em A Sombra da Serpente

A vida de Carter e Sadie Kane é tão tumultuada que parece piada dizer que o futuro do mundo depende deles. No primeiro volume de suas aventuras – A Pirâmide Vermelha – ambos descobrem que são descendentes de uma linhagem faraônica do Antigo Egito e seus pais são magos da Casa da Vida, portanto, têm como objetivo estabelecer o equilíbrio da Criação. Em o Trono de Fogo, eles são incumbidos de descobrir um jeito para derrotar Apófis, a Serpente do Caos, que depois de anos presa recobrou suas forças e está pronta para destruir a Terra. 

Em A Sombra da Serpente, a situação pouco mudou. Após a tentativa falha de despertar Rá, o deus Sol, e perceber que ele ressurgiu na forma de um velho senil e caduco, restam apenas três dias para Apófis se reerguer e afundar a Terra no mar de caos e escuridão. 

À medida que a Serpente ganha mais aliados, mais a ordem do universo entra em colapso. Muitos magos permanecem contra a Casa da Vida e os deuses começam a enfraquecer, e alguns seres e criaturas desapareceram. Contudo, em meio a tantos problemas, Carter e Sadie descobrem uma provável chance de enfrentar Apófis: capturando a sombra da serpente. Mas a missão nunca é fácil, e para isso terão que ter a ajuda de um notável, ardiloso e assassino personagem egípcio. 

De maneira cômica e envolvente, Rick Riordan mais uma vez conseguiu expor todo o seu arcabouço para esmiuçar e explicar uma mitologia. É claro que, por não ser um enredo episódico e sim contínuo, o autor parte da premissa de que, com o universo já estabelecido, explicações demais não são mais necessárias. Sendo assim, como é um encerramento, a tensão ganha maior espaço, e a ação se sobressai em diversos capítulos. 

Os conflitos de Carter e Sadie estão mais agravantes, tanto na esfera social quanto na amorosa, e há uma pequena brecha para refletir se de fato são capazes de proteger o mundo ou se seria melhor entregar-se definitivamente ao Caos. A Sombra da Serpente finaliza (temporariamente, pelo menos) a jornada dos irmãos Kane e consolida ainda mais a ideia de que Riordan adora escrever para o público jovem. Carter e Sadie saem de cena e agradecem a companhia. E os leitores também.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Capitão América 2 - O Soldado Invernal


O preço da liberdade é alto. E é um preço que estou disposto a pagar”.

O mundo cinematográfico da Marvel merece congratulações há muito tempo. Os produtores não são somente bastante organizados, uma vez que têm planos de lançamento até 2028 (segundo Kevin Feige, produtor-mor da Casa das Ideias), como também conseguiram realizar o feito de unir vários heróis em uma mesma história, entrelaçando narrativas sem causar incoerência. 

O público gostou e o resultado previsto para Os Vingadores foi melhor do que o imaginado. Entretanto, os fãs são exigentes e, percebendo a seriedade com que a Marvel está progredindo em seus projetos, a tendência lógica é que a qualidade fique cada vez maior e melhor. 

Capitão América 2 – O Soldado Invernal é o produto que muitos espectadores estavam aguardando. Com um enredo miraculoso, além de suprir todas as falhas dos predecessores que deram início à fase 2 (Homem de Ferro 3 e Thor – O Mundo Sombrio), o filme possui informações importantes e eventos grandiosos, e muito provavelmente será um divisor de águas no universo Marvel. 


Após dois anos do ataque alienígena em Nova York, o capitão Steve Rogers (Chris Evans) ainda tenta se adaptar ao mundo moderno. Ele continua preservando seu caráter protetor e agora realiza serviços para a S.H.I.E.L.D., ao lado da Viúva Negra (Scarlett Johanson). 

O que eles, e tampouco Nick Fury (Samuel L. Jackson), poderiam suspeitar, é que uma conspiração vem ganhando poder no interior da S.H.I.E.L.D., e segredos se materializam na forma de inimigos, entre eles o Soldado Invernal, um experimento oculto e lenda para alguns. Na verdade, ele revela-se um antagonista exemplar para confrontar o Capitão América. 


Desta vez com direção de Anthony e Joe Russo, o filme consegue resgatar certos conteúdos do seu antecessor e certamente é o projeto mais sério da Marvel até o momento; há uma violência realista incomum, algo que talvez choque os despreparados. Toda a ação está formidável e a estética do Falcão insere mais adrenalina no plano aéreo. As cenas cômicas são bem colocadas e menos frequentes com relação a outros filmes, o que rende acréscimos positivos à película. 

Esses aspectos servem para perceber que o universo Marvel está se expandindo irrefreavelmente, e que uma atmosfera sombria e calamitosa surgirá em um futuro próximo e irá moldar os projetos que ainda estão no papel. Sendo assim, como filme solo, Capitão América 2 – O Soldado Invernal cumpriu o seu dever para com seus fãs; como átomo de um grande organismo, reprisou o que os produtores da Marvel, de maneira cruel, parecem sentir prazer em fazer: aumentar a curiosidade do espectador e intensificar a água na boca para o que vem por aí.  

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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Batman - A Piada Mortal


Estive pensando muito ultimamente sobre você e eu. Sobre o que vai acontecer conosco no fim. Nós vamos matar um ao outro, não? Talvez você me mate. Talvez eu te mate. Talvez mais cedo, talvez mais tarde. Eu só queria estar certo de que realmente tentei mudar as coisas entre nós. Só uma vez”. 

Reza a lenda que o falecido ator Heath Ledger, ao aceitar o convite para interpretar o Coringa no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas, passou cerca de um mês trancado no quarto de um hotel para construir o personagem. E há quem diga que durante esse processo o australiano teve como leitura obrigatória a HQ Batman – A Piada Mortal

De fato, após a leitura do quadrinho, é perceptível o nível de contribuição que a obra possivelmente exerceu sobre a atuação de Ledger. Publicada no ano de 1988, escrita por Alan Moore (criador de V de Vingança) e desenhada por Brian Bolland, a história leva o leitor a acompanhar mais um lendário duelo entre o Homem-Morcego e o Palhaço do Crime. 


O enredo tem início com outra fuga do Coringa do Asilo Arkham. Enquanto tenta descobrir qual é o próximo passo do seu arqui-inimigo, o Cavaleiro das Trevas mal desconfia que desta vez o plano seja menos audacioso, embora continue sendo alicerçado pela insanidade. 

O alvo do palhaço maníaco é o Comissário Gordon. Após sequestrá-lo e levá-lo literalmente a um parque de horrores, o objetivo do Coringa é revelar que seu princípio sádico, sua teoria condutora, está correta: que uma pessoa comum, um sujeito de bom caráter, pode enlouquecer. E seus argumentos são sustentados por meio de metáforas bastante reflexivas. 


Ainda que seja uma HQ desenhada nos anos 80, é inconcebível não reconhecer os traços magníficos de Bolland, especialmente nas expressões de desespero, ódio e loucura. É também importante lembrar que o traço é consequência do ótimo roteiro de Alan Moore, e os flashbacks contidos na narrativa revelam uma origem interessante para o Coringa. 

Em suma, realmente é visível algumas semelhanças com o segundo filme da trilogia de Christopher Nolan. Batman – A Piada Mortal é uma grande referência para consolidar todo o aspecto doentio e psicótico do Palhaço do Crime, ao passo em que fortalece e aprofunda a rivalidade e a semelhança entre ele e o Cavaleiro de Gotham. E se Heath Ledger considerou necessária a leitura desse quadrinho para compor seu personagem, então se torna mais evidente a qualidade da obra; afinal, foi capaz de inspirar uma atuação impecável. 

Lembrar é perigoso... Eu vejo o passado como um lugar cheio de ansiedade. O pretérito imperfeito, como você chamaria. As memórias são traiçoeiras! Num momento, você está perdido num carnaval de prazeres, com o aroma da infância, os neons da puberdade... No outro, elas te levam a lugares onde a escuridão e o frio trazem à tona coisas que você gostaria de esquecer. As memórias podem ser vis, repulsivas, brutais... como crianças”.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Carrie - A Estranha


Você só pode pressionar alguém até certo ponto... antes de quebrar”.

Na era do bullying, é quase natural que produções de teor juvenil utilizem-se desse tema de maneira didática com o objetivo de denunciar abusos sociais, por mais ínfimos que sejam. Este conceito é explorado em Carrie – A Estranha, e ainda deixa nas entrelinhas a lição de que não se deve cutucar a onça com vara curta. 

Remake do clássico de 1976 dirigido por Brian De Palma, esta é a terceira adaptação cinematográfica do primeiro romance de Stephen King. Desta vez com direção de Kimberly Peirce (de Meninos Não Choram), o filme preserva o cerne da obra original com o acréscimo das tecnologias atuais. 

Carrie White (Chloë Grace Moretz) é uma adolescente tímida e excluída da turma por ser um pouco esquisita. Essa estranheza é um legado passado pela educação que sua mãe Margaret (Julianne Moore), uma religiosa fervorosa e doentia, lhe concedeu. No final de uma aula de Educação Física, Carrie tem sua primeira menstruação. Com medo e apavorada por não entender o que está acontecendo com seu corpo, a garota torna-se motivo de piada em toda escola. 


O que Carrie não poderia suspeitar é que, depois desse episódio traumático, ela adquire habilidades telecinéticas. Logo o interesse em descobrir mais do poder de mover coisas com a mente é o que a impulsiona a seguir em frente, até receber um convite para ir ao baile de formatura. 

Por ser um enredo baseado em uma obra de Stephen King, um dos mais consagrados escritores de suspense e horror, é de se esperar que a produção do filme tenha um apelo mais sombrio. No entanto, a ausência do elemento tétrico é perceptível desde a atuação à trilha sonora, o que infelizmente enfraquece a trama; a atuação da Chloë, com seu rosto lindo e limpo, não convence tanto quanto a de Julianne Moore, que alcança um grau mais próximo do bizarro. 


O clima ensolarado e juvenil também parece desfavorecer a película, a qual ganha o seu merecido simbolismo sangrento na cena do baile. Infelizmente, não há muito que dizer do clímax; por ser um filme de baixo orçamento, a destruição que Carrie causa deixa um pouco a desejar. Uma pena, pois teria sido bem mais satisfatório se tivessem se inspirado em outras produções recentes, como Poder Sem Limites, de 2012. 

Com efeitos visuais não muito sofisticados, este Carrie – A Estranha não soube utilizar de todo o aparato que a modernidade da computação gráfica tem a oferecer. Talvez seja culpa da distribuidora, ou da direção, ou simplesmente do público-alvo da atualidade que se contenta com o pouco. Dessa forma, com o didatismo do bullying e a mão suave dos produtores, fica a impressão de que é preciso esperar outra era para que Carrie retorne e de fato faça jus à reputação que a precede.

Trailer:

sexta-feira, 21 de março de 2014

Cartas de um Diabo a seu Aprendiz


Há dois erros semelhantes mas opostos que os seres humanos podem cometer quanto aos demônios. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse excessivo e pouco saudável por eles. Os próprios demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros, e saúdam o materialista e o mago com a mesma alegria. Os documentos contidos neste livro podem ser obtidos facilmente por qualquer pessoa capaz de aprender o truque; mas não o ensinarei às pessoas de má índole ou muito voláteis, as quais podem fazer mau uso da prática”. 

Algumas pessoas ainda não sabem disso, mas C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien eram grandes amigos. E além de possuírem em comum a prática da docência, ambos também são autores de duas obras ficcionais muito famosas: As Crônicas de Nárnia e O Senhor dos Anéis, respectivamente. Inclusive foram membros de um grupo literário intitulado de “Os Inklings”, o qual encorajava narrativas de teor fantástico. 

Essa amizade rendeu a Tolkien a dedicatória do livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, escrito por Lewis e publicado em 1942. Tendo se convertido em 1929, essa experiência ajudou o escritor irlandês a dissertar a respeito de vários assuntos do mundo cristão, embora a obra em questão tenha um tom mais peculiar e sombrio.

A estrutura do enredo é composta pelo gênero carta. As epístolas são escritas pelo demônio Fitafuso e direcionadas ao seu sobrinho Vermebile, que aparentemente é um recém-formado na Faculdade de Treinamento de Tentadores. A função dos textos de Fitafuso é guiar o sobrinho naquilo que os demônios melhor sabem fazer: corromper a alma dos homens. 

Durante toda a obra, o leitor acompanha os ensinamentos que Vermebile tem de assimilar para fazer com que seu paciente, convertido ao Cristianismo, seja desviado dos caminhos do Inimigo (Deus). De uma maneira irônica, impactante e sufocante, Fitafuso relata a história de muitos homens bons que foram atraídos pelas trevas e dá dicas ao sobrinho de como o seu paciente pode ter um destino similar, seja estimulando desavenças com a mãe ou causando medo em relação à Segunda Guerra Mundial. 

A leitura é pesada em diversos trechos (É incontável o número de vezes que Deus é zombado) e, segundo o próprio Lewis, pode produzir uma cãibra espiritual. A intenção, obviamente, é criticar a demasiada fragilidade e mediocridade do caráter humano e a ideia é executada de uma forma bastante criativa. 

O livro é válido e, para aqueles com um bom conhecimento cristão, serve para fortalecer o fundamento de que o homem, mesmo sem perceber a profundidade dos seus erros, se permite transformar em marionete. E sob a ótica de um demônio, os seres humanos não poderiam ser vistos de maneira tão pateticamente realista.

sexta-feira, 14 de março de 2014

RoboCop

 

Vivo ou morto, você vem comigo”.

A manipulação e a corrupção são elementos que podem andar de mãos dadas quando provenientes da mesma fonte. E se essa origem for poderosa no sentido de atingir e influenciar uma grande parcela da sociedade, além de refletir uma triste faceta da situação real de muitas civilizações, nas mãos certas, pode render um prato cheio para uma obra de ficção. 

O público brasileiro parece gostar e entender bastante deste assunto, uma vez que a maior bilheteria do cinema nacional pertence a Tropa de Elite 2, dirigido por José Padilha. E o diretor, por gostar de abordar questões políticas e sociais em suas películas – e, diga-se de passagem, consegue fazer isso com maestria –, viu a oportunidade de repetir a abordagem em seu novo projeto: RoboCop

Por mais que a mania de refilmagens gere dor de cabeça nos fãs mais antigos e saudosistas, e algumas vezes há de fato motivos para comentários negativos, a estreia de Padilha em Hollywood não foi ruim, mas também não chega a ultrapassar toda a dramaticidade e o foco verossímil estabelecidos nos dois Tropa.

 

O filme tem início com o personagem de Samuel L. Jackson (em uma atuação até que admirável), o âncora de um programa televisivo, tentando mostrar a os seus espectadores norte-americanos que várias cidades do mundo estão seguras devido à proteção criada por robôs. Sendo assim, não há razões para os Estados Unidos ter receio de negar tamanha tecnologia. 

Todavia, o dono da empresa que fabrica esses robôs, Raymond Sellars (Michael Keaton), no intuito de causar empatia na população da América, resolve desenvolver uma técnica em que seja possível colocar um homem dentro de uma máquina e, dessa maneira, garantir mais lucro. É neste ponto que entra o detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman); tendo sido vítima de um atentado que destruiu boa parte do seu corpo, ele se torna cobaia desse processo e ganha nas ruas o título de RoboCop.


Este é o remake do clássico de 1987, comandado por Paul Verhoeven. E embora certas diferenças sejam gritantes, especialmente tratando-se de efeitos visuais, faltou a o longa de Padilha uma trilha sonora marcante, mesmo que o tema original toque por alguns segundos. O clímax poderia ter sido estendido, o que talvez tivesse dado ao núcleo familiar uma fundamentação maior. 

Mas o argumento é o que sustenta o filme, e a crítica presente no RoboCop de José Padilha tem qualidade para marcar esta geração, provavelmente em uma proporção similar a que o original fez em sua época. Era necessário que um brasileiro abordasse temas como corrupção e manipulação em um cenário futurista e ficcional, pois revela que além de serem um câncer na sociedade, são capazes inclusive de fazer uma criatura robótica querer destruí-las. Avante, RoboCop!

Trailer: