domingo, 24 de outubro de 2010

A Antena e a Nuvem




* Como esta semana estou meio sem assunto, resolvi publicar esse texto de minha autoria, ainda que de maneira relutante. Já escrevi coisas melhores que essa, como A Menina que Matava Livros, mas aí está para quem curte textos pedagógicos. A foto no início da postagem foi tirada por mim em mais uma de minhas empreitadas fotográficas durante as férias de verão, e foi também minha fonte de inspiração para a criação desse texto. Boa leitura.


De repente, o tempo fechou.

Uma nuvem intensamente nebulosa e gigantesca sobrevoava uma pequena cidade. Pronta para despejar sua carga torrencial, ela hesita ao escutar algo inusitado.

Uma voz. Lá de baixo.

- Nuvem!

A nuvem achou aquilo muito estranho. Que tipo de ser humano perderia seu tempo tentando conversar com uma nuvem? Era coisa de louco.

Quando olhou para baixo, porém, ela viu que não era uma pessoa que gritava. Para seu espanto, percebeu que em meio às várias casas uma antena de rádio destacava-se balançando de um lado para o outro, tentando chamar sua atenção.

- És tu que me chamas? – a Nuvem perguntou.

- Sim – respondeu a Antena. – Desculpe o incomodo, mas reparei que a senhora é bem grande e está prestes a... Como posso dizer... Jogar o seu “pacote” aqui para baixo, não é?

- Por acaso você se refere à chuva?

- Sim.

- Correto. Vai chover canivete para vocês aí de baixo.

- Então... A senhora poderia me fazer um favor?

- Acho bastante improvável, mas não custa tentar. Do que se trata?

- Será que a senhora poderia chover um pouco mais pro lado de lá?

A nuvem achou o pedido muito esquisito.

- Por quê? – ela perguntou, curiosa.

- É que a senhora é tão grande que dá pra perceber que vem chuva forte por aí – explicou a Antena. – E como eu sou uma antena frágil, tenho medo que o temporal me derrube.

A Nuvem soltou uma gargalhada.

- Que petulância! Não posso evitar uma chuva só por sua causa. Iria contra os meus princípios. Fazer chover faz parte da minha essência de nuvem.

- Então para você não faz diferença se permaneço de pé ou caio?

- Tenho coisas mais importantes com que me preocupar.

- Como o quê?

- Levar água para os que necessitam. O sertão, por exemplo, que é devastado pela seca quase o ano inteiro. Você precisa ver a emoção nos olhos do velho sertanejo ao presenciar a transição do que antes era seco, transformar-se em algo verde. A chuva para muitos traz felicidade, e garanto que várias pessoas da sua cidade pensam da mesma maneira.
- Com certeza – concordou a Antena. – Mas sua chuva também traz desgraça. Pessoas perdem suas casas e, inclusive, a vida. Morrem em inundações e desabamento de terra. E, além disso, na maioria das vezes que antenas como eu caem por causa de chuvas como a sua, acontece um curto-circuito que pode eletrocutar um cidadão e até quem sabe causar um incêndio.

- Já disse que não posso evitar a chuva, mesmo que eu quisesse. Não dá para lutar contra as leis da natureza!

- Por favor, não! Não!

Tarde demais. Como uma boca aberta pronta para cuspir saliva, a nuvem lançou gotas e mais gotas em direção a terra, trazendo uma chuva que há muito a cidade não tinha a oportunidade de ver.

Quando terminou, a nuvem olhou para baixo. A antena não conseguiu resistir. Estava caída no chão, derrotada.

Certo dia, a nuvem volta a passar pela mesma cidade, pronta para novamente despejar seu arsenal. Quando olha para baixo, uma surpresa: a antena estava de volta ao seu lugar, nova em folha.

- Retornou do mundo dos mortos? – indagou a Nuvem.
- Pois é – a Antena respondeu.

- Vai querer repetir o pedido? Porque agora vai chover tão forte quanto da última vez.

- Fique à vontade.

A Nuvem estranhou a atitude da Antena. Onde estava todo aquele medo?

- O que deu em você? Acha que estou blefando?

- De modo algum. Acredito no seu potencial.

- E o que é, então? Você está diferente.

- Desta vez estou mais confiante.

- Posso saber por quê?

- Claro – disse a Antena. – Você disse que a chuva traz felicidade. E estava certa. Graças a você, consegui encontrar alegria no meio da desgraça. Após aquela chuva, o que restou de mim foi utilizado para a construção de uma antena mais moderna e duradoura. Assim como na vida, precisamos aprender a levantar quando caímos em frente a um obstáculo, seja sozinho ou com a ajuda de amigos. Temos que ultrapassar barreiras que nos impedem de crescer. Agora eu entendo. Por isso, pode chover o quanto quiser desta vez. Não tenho nada a temer.

- Está bem. Você que pediu.

A Nuvem deu tudo de si. Lançou sobre a cidade uma chuva pior que a anterior. Águas descontroladas inundaram ruas, o vento enfurecido envergou árvores e até os raios deram o ar da graça.

Não tendo mais forças, a nuvem parou e olhou para baixo.

A antena estava intacta. Imóvel.

A nuvem ficou embasbacada.

- Como pode? – perguntou.

- Eu te disse – lembrou a Antena. – Estou mais forte e mais confiante. Para me derrubar de novo, será preciso um dilúvio.

Foi a partir daquele dia que a nuvem aprendeu o significado de dar a volta por cima. Anteriormente a antena havia demonstrado fraqueza e medo, mas agora exibia coragem e autoconfiança.

É preciso cair para aprender a levantar.

E assim renascer das cinzas.



Leonardo da Vinci F. da Cunha.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2





"Para certas pessoas a guerra é a cura. A guerra funciona como uma válvula de escape. Comigo sempre foi assim, parceiro".



Raras são as ocasiões em que um filme brasileiro é tão esperado, principalmente quando se trata de uma sequência. Se o primeiro foi aclamado pelas plateias de toda a nação, é porque deve ser muito bom. Se o segundo gera o dobro de expectativa, é porque provavelmente deve ser melhor ainda. Esse pensamento permeou minha ansiedade durante a semana inteira, e foi com ele ao meu lado que entrei no cinema para assistir Tropa de Elite 2. E não me decepcionei.

Ele está de volta. Mais velho, mais experiente e com mais problemas. E devo dizer que uma legião de pessoas aguardavam ansiosas pelo retorno do Capitão Nascimento... digo, agora Coronel Nascimento. Wagner Moura encarna mais uma vez esse polêmico personagem, que neste filme possui uma carga psicológica ainda mais dramática que no antecessor.

Ambientada aproximadamente 15 anos após o primeiro filme, a trama nos mostra os bastidores da corrupção de uma maneira mais ampliada; o sistema não corrompre apenas os policiais e os jovens adolescentes usuários de droga. Para que estes sejam corrompidos, é necessário que se tenha um corruptor. E adivinha só quem é o culpado... São os senhores do sistema, os financiadores de toda a sacanagem: os políticos. E assim se estende a ampla rede social da corrupção.

A guerra de Nascimento contra o sistema continua. Só que não basta ficar prendendo e espancando vagabundo eternamente. Agora que foi promovido a trabalhar na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, seu objetivo é atingir o olho do furacão. Com a ajuda do BOPE, ele extermina quase todo o tráfico existente nas favelas. E isso não podia passar despercebido. Quando a fossa é entopida, meu chapa, a merda tem que sair por outro lugar. Os policiais corruptos descobrem outra maneira de ganhar dinheiro dentro da favela, e isso pouco a pouco vai afundando os planos de Nascimento.




E para aumentar a dramaticidade do personagem, seus assuntos familiares não andam nada bem. Agora ele é separado, seu filho não vai com sua cara e também é bombardeado o tempo inteiro na televisão por pessoas que são a favor dos direitos humanos. Sem contar que o Capitão André, o homem que foi treinado para substituí-lo, já não mais o admira.






José Padilha, diretor dos dois longas, conseguiu transportar este Tropa de Elite para um patamar mais maduro e complexo. Se no primeiro o espectador ficava perdido diante de tanto tiroteio e perplexo ao presenciar tanto sangue e violência, nesse tem-se a oportunidade de conhecer o interior de cada personagem, seus dramas pessoais e todo seu lado podre. E não é só isso: as sequências de filmagem são bem mais cuidadosas e organizadas, e isso é perceptível desde a primeira cena. A trilha sonora evoluiu bastante e lembrou-me muito o compositor Hans Zimmer nos filmes Batman e A Origem nos momentos impactantes.

Acho que não preciso tecer comentários sobre a atuação de Wagner Moura. Seria redundante. O cara é demais. Atente para o roteiro bem estruturado, cuja função é denunciar aquilo que já sabemos que acontece na política, porém não temos conhecimento de como funciona. O roteiro é digno de premiação.

Mas se você, leitor(a), aprecia uma boa carnificina, não há com o que se preocupar: a mesma violência do primeiro filme nós vemos aqui, o mesmo saco, os mesmos bofetões e também há novos bordões. E sangue. Muito sangue, para dar e vender. As cenas de assassinato foram muito bem feitas, inclusive a dos personagens que não mereciam morrer...

Acha que está preparado(a) para enfrentar Tropa de Elite 2? Não?

Então pede pra sair, malandro.




"Eu demorei muito para perceber quem eram os meus verdadeiros inimigos. E numa guerra, isso pode ser fatal. A verdade é que minha guerra contra o sistema estava só começando... E desta vez ia ser pessoal".




Trailer:

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleições: o poder do mais fraco


"O povo não deve temer o seu governo. O Governo é quem deve temer o seu povo". *



Nós somos a ralé da sociedade. Não há nem o que discutir ou tentar argumentar. Por mais que sejemos honestos, tenhamos um trabalho digno e até mesmo um nível de escolaridade adequado, obstáculos infindáveis surgem especialmente para nos manter no anonimato. Escondidos sob a sombra de um sistema opressor.


Aqueles que se destacam são justamente os que controlam a grande brincadeira de ventríloco. São os ditos poderosos, os imperadores. Em outras palavras, os políticos. Eles manipulam a enorme marionete chamada de Mídia; ela é a responsável por apontar todo o lado podre dos humanos. Por isso sempre somos mostrados como estupradores, ladrões, analfabetos, incompetentes... Raras são as ocasiões em que um ato de bondade é destacado de maneira triunfal. O que, por sinal, já é muita coisa; a Mídia é obrigada a explorar os nossos grandes feitos, a imensidão da nossa benevolência.


Por um único e simples fator.


O que talvez muitos ainda não tenham percebido é que além de sermos a ralé da sociedade, nós também somos o alicerce que a sustenta. Se não fosse por nós, os poderosos não estariam no cume da pirâmide social. Nós somos os verdadeiros agentes do poder. E para você ser detentor de tal poder basta ter uma coisa: um título de eleitor.


Infelizmente, o voto é a única forma que temos de gritar por justiça e sermos escutados. É através do nosso dedo, este pequeno membro esquelético, que transferimos o poder e o jogamos nas mãos do candidato que julgamos mais bem preparado. Afinal, por que você acha que eles nos pedem ajuda? Eles sabem que sem nós é apenas uma questão de tempo para que se abra um abismo no solo onde pisam e mergulhem no pesadelo da normalidade. Se não fôssemos nós estendendo a mão para eles, muitos já teriam caído nesse abismo para nunca mais voltar.


Voto também pode ser usado como um protesto contra o sistema... Tiririca que o diga... Homens corajosos que estufam o peito e utilizam-se de artifícios cômicos para conquistar a população, despejando ideias estapafúrdias na cabeça daqueles que sonham em viver num mundo utópico.


É em época de eleição que a nossa importância é enaltecida e que o nosso poder de escolha vale ouro.


Somos nós que sustentamos a sociedade.
*Frase do filme V de Vingança.
Vote consciente!

domingo, 26 de setembro de 2010

Percy Jackson e o Mar de Monstros





Às vezes eu tenho muita pena dos heróis. Eles não têm descanso, não possuem dias de folga. Só relaxam de fato quando derrotam seus arqui inimigos ou quando morrem, é claro. Eles não são privilegiados pela dádiva de uma vida tranquila e despreocupada. Aliás, ninguém é. Deve ser por isso que também somos hérois... Heróis do cotidiano.


Um bom herói sempre traz consigo uma boa coisa: a vontade de querer acompanhar sua jornada até o fim. Cada aventura sua é repleta por novas missões e desafios a serem ultrapassados. Foi esta vontade que me levou a ler Percy Jackson e o Mar de Montros, segundo volume da saga do jovem semideus filho de Poseidon, pois ele, assim como um bom herói, ainda tem muita história para contar.


Antes de você continuar, leitor(a), devo alertar: pare agora caso não tenha lido o primeiro volume ou não tenha assistido ao filme. Mas caso esteja interessado, leia o comentário que fiz sobre ambos no mês passado, se você tiver amor ao bem estar de sua compreensão, e volte aqui depois.


Rick Riordan mais uma vez faz uma bela mistura de mitologia grega com a atualidade. Percy continua morando com sua mãe no subúrbio de Nova York e certa noite tem um sonho estranho: seu melhor amigo, Grover, o sátiro, estava fugindo de um monstro. Sabendo que seus sonhos sempre significam alguma coisa, ele parte para aula na nova escola com uma pulga atrás da orelha. Lá ele se prepara com seu novo amigo, Tyson, para o que lhes parecia mais uma aula de educação física. Até que são atacados.


A tendência é que as coisas piorem. O que realmente acontece. Percy descobre através de Annabeth que o Acampamento Meio Sangue está em perigo, pois as proteções que defendiam o lugar foram enfraquecidas. A lendária árvore de Thalia fora envenenada, e aquela era apenas uma das providências tomadas para o fortalecimento de Cronos. E o mais interessante, ele descobre que o fato de ter conhecido Tyson não foi mera coincidência.


Com Grover desaparecido, Percy vai descobrindo que seus sonhos com o menino-bode correspondem aos fatos; seu amigo realmente está em apuros e é por meio dos sonhos que pede ajuda. Juntos, ele, Annabeth e Tyson saem em busca do Velocino de Ouro, a única esperança para a restauração do Acampamento. Só que, como sempre, não será fácil. O Velocino encontra-se na ilha de Polifemo, o mitológico ciclope, localizada no Mar de Monstros. E para deixar as coisas menos complicadas, Grover está sendo mantido como refém do dito gigante.


Será que eles conseguirão salvar o amigo das garras do ciclope? Conseguirão encontrar o Velocino de Ouro antes do Acampamento ser extinguido? Poderão eles confrontar Luke e impedi-lo de ressuscitar Cronos?

Desta vez, Rick Riordan nos faz navegar por um mar recheado de monstros, nos faz mergulhar em águas perigosas e cheias de mistério. E Percy, mais uma vez, terá que pôr em prática todo o seu heroismo com a ajuda de Contracorrente, sua espada. Este livro encerra apenas uma parte de toda a saga, e o final revela a Percy e seus amigos que muitas coisas terríveis estão por vir.


A verdadeira batalha ainda não começou.

domingo, 19 de setembro de 2010

As Chaves do Reino - Sr. Segunda-Feira




"E, no primeiro dia, havia mistério".


Venho percebendo a um bom tempo que o número de comentários de filmes é maior que o de livros. Isso é bom, mas preocupante. Não que eu não goste de filmes, eu os adoro, só que também sou amante das letras e por isso acho justo tentar balancear as coisas. E foi então que lembrei de um livro fantasioso que li ano passado, e que deveras me encantou.


O dito cujo chama-se "As Chaves do Reino - Sr. Segunda-Feira", do autor Garth Nix, primeiro volume de uma série de sete livros. Infelizmente, aqui no Brasil, a obra não esteve no topo da mídia, enquanto nos Estados Unidos não posso dizer o mesmo; todos os livros já foram lançados lá fora. Acho que fazer um comentário sobre ele é uma forma de divulgar o talento que Garth Nix tem para escrever ficções.


O livro nos apresenta Artur Penhaligon, garoto órfão que mora com uma família adotiva e sofre de terríveis crises de asma, além do fato de ser medroso. Sua mãe é médica, o pai é músico e é o mais novo de uma prole de cinco filhos. Não é exatamente o que podemos chamar de um herói clássico. Contudo, o garoto revela pouco a pouco que é capaz de desempenhar este papel.


Recém-chegado na nova cidade, Artur vai para o seu primeiro dia na escola. O que ele não esperava era ter que participar de uma corrida na aula de educação física, que resultou em mais uma crise asmática no seu frágil corpo. Enquanto espera por ajuda, o menino recebe a visita de dois homens, um chamado Espirrador e o outro Sr. Segunda-Feira. Eles lhe entregam uma chave no formato do ponteiro de um relógio e um livro. E é aí que tudo muda.


Artur passa a enxergar uma enorme casa em seu bairro, casa esta que nunca estivera ali antes. Para piorar, quando se recupera e retorna à escola, ele é atacado por um homem chamado Meio-Dia de Segunda-Feira. Mas isso não é nada. A coisa realmente piora quando uma praga assola todo o país e pessoas começam a morrer. Ninguém sabe qual é o antidoto para aquela nova doença. E Artur, sabendo que de alguma forma era tudo culpa sua, pega a chave e, graças às instruções do livro que recebera, entra na Casa na esperança de encontrar a cura e salvar todas as pessoas, incluindo sua família.


O que ele não sabia era que dentro da Casa existia um mundo totalmente diferente do seu, e que ali havia pessoas à sua espera. Com a ajuda de Suzy Azul-Turquesa, uma garota que morava na Terra e que foi levada para lá pelo Tocador de Gaita, ele conhece Will, o Testamento. Esse ser explica a Artur que ele é o Herdeiro da Chave do Reino, e está ali para libertar todas as pessoas da Casa Inferior das mãos do Curador, Sr. Segunda-Feira. Agora, para poder salvar seu mundo, ele precisará compreender este novo.


Só que a imaginação que Garth Nix não termina aqui. A parte complicada da história começa agora e eu vou tentar explicar da melhor maneira possível. A Casa é um mundo paralelo que possui sete reinos, cada reino governado por um Dia diferente. A Casa Inferior, reino onde Artur entra, é governada pelo Sr. Segunda-Feira. As Regiões Afastadas, por exemplo, é governada pelo Horrível Terça-Feira e o Mar Fronteiriço, pela Quarta-Feira Submersa. E por aí vai. Tudo bem até aqui? Muito bem, continuemos.


A Casa foi criada por uma entidade chamada de Arquiteta. Ela fez a Casa a partir do Nada, um material que nas mãos certas pode criar tudo. Acontece que em um belo dia, inexplicavelmente, a Arquiteta desaparece e deixa para trás o Testamento. Os Dias dividem o Testamento em partes iguais, sete fragmentos. Will é apenas o primeiro pedaço do Testamento e explica a Artur que ele é o Herdeiro que a Profecia menciona, tendo agora como missão a restauração da paz dentro da Casa e a recuperação de cada parte do Testamento.


Artur, em posse da Chave, assumi a responsabilidade de enfrentar o Sr. Segunda-Feira e cada um dos Dias Seguintes, embora muitas vezes de um jeito relutante. E esse é apenas o primeiro livro. Mesmo sendo uma obra de fantasia, não custa nada dar uma conferida nesta série que instiga nossa imaginação. Porque, de alguma maneira, existe um Artur Penhaligon dentro de cada um de nós.

domingo, 12 de setembro de 2010

Nosso Lar




"Você chegou a pensar que existe vida depois da vida?"


Antes de mais nada, gostaria de deixar uma coisa bem clara: não sou Espírita. Sou apenas um "simpatizante", se assim posso dizer, e um apreciador de filmes nacionais. Não vou tentar discutir aqui questões de fé, até porque acredito que discuti-la é de certa maneira uma perda de tempo. Fé é igual em qualquer lugar, seja no Japão ou em Saturno. O problema mesmo é de que forma você decide propagar esta fé... Enfim, é melhor não continuar, pois religião, assim como a política, é uma área onde não pretendo meter o dedo. Pelo menos não no momento atual.


Se você não for adepto dessa doutrina (esqueci qual outro nome posso atribuir a ela), tente dissipar seus preconceitos por apenas alguns minutos enquanto lê este texto e imagine-o como um filme normal, igual a qualquer outro. Abra sua mente, permita-se conhecer novos horizontes... Acho que às vezes eu mesmo deveria escutar este conselho.


Nosso Lar é o filme brasileiro do momento. Baseado na obra psicografada por Chico Xavier, o filme nos conta a vida de André Luiz (o verdadeiro autor do livro, diga-se de passagem), médico que vive no Brasil da década de 30. Apunhalado por uma doença, André não resiste e morre. Quer dizer, o seu corpo morre...

André cai de peito no Umbral, um lugar comparado ao Purgatório, onde almas pecadoras e agoniantes vagueiam pela eternidade. Após passar um tempo imerso no desespero daquele lugar funesto, ele é resgatado e vai para a Colônia Nosso Lar, uma cidade cercada por Ministérios que chega a lembrar Brasília. Lá ele aprende a seguir regras, volta a trabalhar (mas não exercendo a medicina terrestre) e reencontra velhos conhecidos. Com o auxílio de alguns ministros e do próprio Governador, ele entende que para voltar a ver sua família é preciso ter merecimento e passa a abandonar os antigos sentimentos que o fizeram tornar-se um homem arrogante.

E agora iremos sair um pouco do enredo e adentrar na parte técnica do longa. Eu diria que 50% de Nosso Lar é constituído de Efeitos Especiais. De boa qualidade, por sinal. Não é à toa que foi o filme nacional mais caro até aqui. A maneira como a cidade foi projetada é bastante interessante. A trilha sonora também é de se chamar a atenção, e devo dizer que é até exepcional em certos momentos.


Não li o livro e também não tenho interesse. Todavia, gostei da organização que vi em Nosso Lar. Muito ousado para um filme nacional. Acho que é disso que o nosso cinema precisa, mas não necessariamente com um orçamento exacerbado. Em determinadas situações, a beleza encontra-se na simplicidade.


Vale a pena dar um passeio para conhecer a Colônia Nosso Lar. Porque, como o nome já diz, lá todos nós somos bem vindos. Estamos esperando por você.

sábado, 4 de setembro de 2010

O Homem que Copiava




"Dinheiro... é só um pedaço de papel que todo mundo acredita que vale alguma coisa. Se ninguém acredita, não vale nada."


Percebi esta semana, caro(a) leitor(a), que já faz algum tempo que eu não posto um comentário sobre um filme nacional. O que de certa forma foi um pecado de minha parte, pois sou fanático por filmes nacionais. Filmes bons, é claro. De boa qualidade e conteúdo. Acho que já tratei deste assunto aqui quando escrevi meu primeiro comentário cinematográfico.

Bom, se tratando de filmes nacionais, posso proferir diversos títulos que me agradam. Mas há entre eles um que se destaca com um louvor de altíssima dimensão. Este que, na minha concepção, é uma das melhores produções brasileiras já feitas em todos os tempos. Sei muito bem que alguns irão me criticar (e poucos irão concordar), contudo, meus olhos não têm como não observar a grandiosidade de "O Homem que Copiava".


O filme foi dirigido e escrito por Jorge Furtado (Louvado seja!) e é protagonizado por Lázaro Ramos, um dos melhores atores nacionais da atualidade(e um dos meus preferidos também). O enredo nos mostra o cotidiano de André (Lázaro), jovem de 19 anos que trabalha numa papelaria na função de operador de fotocopiadora na cidade de Porto Alegre. Nas horas vagas, André fica em casa lendo, desenhando, assistindo tv e às 23h ele vai bisbilhotar os vizinhos com seu binóculo. Foi em uma dessas empreitadas que ele conheceu Silvia (Leandra Leal) e apaixonou-se à primeira vista.


O que encanta o espectador em O Homem que Copiava não é apenas a simplicidade com que Lázaro Ramos encarna André, mas também a simplicidade que a história carrega; pois, basicamente, esse filme conta uma história de amor. Porém de uma maneira inteligente e nada habitual.


André passa a seguir Silvia e descobre onde ela trabalha. Ele entra na loja e se encanta ainda mais com a garota. Como ela trabalha em venda de roupas, ele decide comprar uma peça feminina para sua mãe que custa 38 reais. O problema é que André é duro e precisa pedir dinheiro emprestado para alguém.


Através de sua colega de trabalho, Marinês (Luana Piovane, e vale salientar que sua atuação ficou ótima), ele conhece Cardoso (Pedro Cardoso, aqui fazendo o que sabe fazer de melhor: ser engraçado) a quem pede os benditos 38 reais. Só que Cardoso também é um duro.


E é em momentos como esse que não podemos medir o que um homem apaixonado é capaz de fazer. André nos conta no início do filme como é operar uma máquina fotocopiadora. Uma descrição que para alguns pode ser desnecessária, mas a máquina revela-se o objeto primordial do filme. Ele copia uma nota de 50 reais e finalmente compra a tal roupa, em troca ganhando o sorriso da mulher idolatrada.


À medida que a relação de André e Silvia vai se itensificando, seus atos vão ficando mais preocupantes. Ele continua a copiar dinheiro sempre em prol da alegria da garota ou de sua segurança e acaba, sem perceber, se metendo na maior roubada. Será o amor capaz de salvá-lo? O dinheiro realmente pode comprar tudo, inclusive a inocência de seus atos criminosos? André vai descobrindo na base do sacrifício que ter muito dinheiro é uma tarefa perigosa que pode causar graves consequências.

É provável que alguns espectadores não gostem das formas com as quais os personagens resolvem seus problemas, mesmo assim isso não estraga a beleza do filme.

Estou me coçando para contar mais coisas sobre este filme, mas tenho medo de estragar a ansiedade de quem for assistir. Mas garanto uma coisa: O Homem que Copiava faz parte de um conjunto completo de bons elementos; você se admira com a história e com as atuações, você se encanta pela forma como a qual o filme foi dirigido, escrito e editado, você entra no clima de adrenalina e tristeza que a trilha sonora lhe proporciona...


E o final... Ah, que belíssimo final! Uma mistura poética de psicologia com filosofia e ideologia que permeia todo o longa e se converge no último momento.


Vou parar de falar porque acho que já consegui de você o que queria: a curiosidade de ver o filme. E não se arrependerás. Não mesmo.


"Tem uns detalhes que eu não posso e nem quero falar. Não importa. Quando a gente conta, tudo acontece rápido e parece que as coisas se encaixam. A vida é mais complicada que um quebra-cabeças... Agora parece mais fácil entender a vida".

Só vai entender quem assistir o filme:

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

( trad. Ivo Barroso)

William Shakespeare - Soneto 12