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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Corpo Fechado


Vá onde as pessoas estão. Não precisa procurar muito tempo. Tudo bem se tiver medo, David. Porque esta parte não vai ser igual aos quadrinhos. A vida real não cabe dentro de uns quadradinhos com desenhos coloridos”.

Em meados de 1999, o cineasta indiano M. Night Shyamalan ganhou fama com o suspense sobrenatural O Sexto Sentido. Além da ótima repercussão, o filme ainda lhe rendeu uma indicação ao Oscar. O incrível talento do diretor fez com que, apenas um ano após o seu sucesso, entregasse ao público outro grande clássico também protagonizado por Bruce Willis.

A vida de David Dunn (Willis) não anda bem. Seu casamento está à beira do fim, sua relação com o filho é omissa, sua promissora carreira no futebol terminou de maneira brusca na época da faculdade, e seu emprego atual é de vigilante. Tudo piora depois de um acidente de trem no qual ele é o único sobrevivente. 


A partir daí, a tristeza que David sente diante da vida se mistura com as dúvidas. Como ele pôde escapar sem ter fraturado osso algum e tampouco sofrido nenhum arranhão? Sua curiosidade o leva a conhecer Elijah Price (Samuel L. Jackson), um fanático colecionador de revistas em quadrinhos. Elijah possui uma rara doença nos ossos e, por ter um corpo muito frágil, ele desenvolveu a teoria de que possa existir alguém no mundo que seja seu oposto.


Shyamalan tem uma percepção peculiar ao estruturar a narrativa de seus filmes, uma vez que roteiriza todos e traz temáticas fabulosas para um prisma realístico, e com Corpo Fechado não é diferente. A construção dos personagens e seus dramas pessoais crescem paralelamente com o suspense (As interações de Elijah e David são formidáveis e imprescindíveis), assim como fez em O Sexto Sentido, Sinais e A Vila.  


O diretor também caprichou na criatividade e nas cenas de impacto de Corpo Fechado. Vários momentos são compostos por planos-sequências, o que ajuda o espectador a manter a concentração no enredo (A cena da arma na cozinha é um exemplo disso). E a trilha sonora, composta por James Newton Howard, traz nuances enigmáticas e heroicas para o caminho de respostas que David procura.  


Em Corpo Fechado, M. Night Shyamalan traz conceitos de heróis do mundo real sob a perspectiva de um gênero textual marcante para a sociedade, antes mesmo dos super-heróis entrarem em vigor em Hollywood. Em tempos de crueldade e morticínios, é bom ver uma obra que traz reflexão e, de forma inteligente e talentosa, mostra que simples atitudes de bondade podem levar esperança e salvação. 


Trailer: 

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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Quarto Poder


Você tem que decidir se faz parte da história ou se vai filmar a história”.

Um Estado Democrático é regido por três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário), pelo menos é o que diz a teoria. Com o avanço das mídias, logo surgiu a expressão “quarto poder”, referindo-se ao desempenho que o jornalismo exerce sobre a sociedade. Considerado por muitos como uma prática social, o jornalismo atua dentro dos âmbitos dos três poderes mencionados; ele analisa, investiga e revela à população ocorrências de natureza ilícita. No caso do Brasil, é mais corriqueiro observar este aspecto no parâmetro político.


O filme Mad City, lançado em 1997 e dirigido por Costa-Gavras, narra a rotina do inescrupuloso jornalista Max, interpretado por Dustin Hoffman, o qual foi designado a realizar uma reportagem comum em um museu. A reviravolta acontece quando Sam (John Travolta), ex-vigilante do museu, surpreende a todos ao adentrar no local em posse de uma arma e explosivos. Sam quer somente o emprego de volta, mas ao plano sai do controle quando alguém é baleado. Max enxerga na situação a possibilidade de ganhar o merecido destaque e, por conseguinte, impulsionar sua carreira.  


O Quarto Poder, como foi traduzido no Brasil, é uma típica obra simplória; com sutileza, Costa-Gavras não se utiliza de enquadramentos de câmera complexos e tampouco de uma trilha sonora elaborada. É um filme que não almeja grandes ambições e, mesmo que fosse este o caso, talvez tenha faltado um pouco mais de recursos. 


Apesar de ter sido um fracasso na bilheteria, O Quarto Poder sabe a que veio. O roteiro relata uma faceta negativa do jornalismo: o sensacionalismo, a busca desenfreada por audiência e a capacidade de manipular as massas. É estarrecedor perceber como a vida imita a arte e ver as engrenagens da imprensa modificando a opinião pública. E a última imagem do filme, congelada propositadamente para causar um efeito impactante, cumpre com sua função, estampando a ausência de limites que a mídia possui e sua insaciável vontade de sufocar a fonte até onde for possível.   


Essas ferramentas são exploradas com eficácia à medida que Max constrói em Sam uma figura icônica capaz de despertar sentimentos variados no telespectador e, principalmente, demonstrando a destreza da mídia em moldar ideologias e destruir vidas. O Quarto Poder traz um final assombroso e reflexivo, e não é coincidência ter a sensação de já ter visto algo similar na televisão. Estranho seria se fosse o contrário.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Seven: Os Sete Crimes Capitais


Longo e árduo é o caminho que do inferno conduz à luz”.

A simbologia por trás do número sete é mítica e ancestral e, à luz da História – e até mesmo da Bíblia – , os exemplos em que o misterioso dígito aparece são vastos. Sete maravilhas do mundo, sete cores no arco-íris, sete dias na semana, sete selos do Apocalipse... É de fato intrigante, e embora seja coincidência ou não, é preciso acrescentar à lista a existência das sete virtudes sagradas e suas sete opositoras.

Os sete pecados capitais é um assunto que perpassa o mundo artístico há muito tempo, praticamente uma fonte inesgotável para referências, sendo inclusive uma das bases utilizadas por Dante Alighieri quando escreveu A Divina Comédia. Não é de se admirar, portanto, que a temática ultrapasse as páginas literárias e seja abordada em um filme policial.


Aliás, tal ambiente não poderia ser mais propício; o salário do pecado é a morte, conforme escreveu o apóstolo Paulo em sua carta de Romanos. Seven: Os Sete Crimes Capitais é uma produção de 1995, estrelada por Morgan Freeman e Brad Pitt. O longa retrata os últimos dias da carreira do quase aposentado detetive Somerset (Freeman), nos quais ele tenta desvendar uma série de homicídios ao lado do novato e impetuoso detetive Mills (Pitt). 


Os assassinatos giram em torno dos pecados capitais, em que cada vítima possui uma ligação íntima com o pecado que lhe foi creditado. Cabe aos investigadores decifrar os enigmas por trás da mente de um psicopata megalomaníaco antes que ele conclua sua obra de arte.


Seven é um dos melhores filmes de suspense da década de 1990 (quiçá dos últimos vinte anos), se equiparando a O Silêncio dos Inocentes, especialmente no quesito trilha sonora. Parte do sucesso deve-se pelo roteiro e também pela condução do diretor David Fincher (O Curioso Caso de Benjamin Button, Garota Exemplar), que fez deste trabalho um divisor de águas na sua carreira. 


A atmosfera do enredo é sombria (chove em grande parte das cenas), uma típica marca de Fincher, e na maioria das vezes os detetives sempre entram em locais com pouca iluminação. Esses detalhes ajudam a intensificar o mistério e, com destreza, ele se sustenta até o imprevisível, perturbador e impactante final. É preciso ressaltar a atuação de Kevin Spacey, que se entregou a um desempenho tranquilo e doentio, características que elevaram seu personagem ao patamar dos maiores vilões do cinema.     

Seven: Os Sete Crimes Capitais, apesar de possuir a estrutura básica de um filme policial, no qual o mocinho persegue o assassino, possui profundos fundamentos filosóficos e morais acerca da sociedade. É tolice analisá-lo apenas como mais um do gênero, uma vez que ele expõe evidências de que as pessoas se acomodaram perante a face da maldade; o mal está aí, corrompendo e dilacerando vidas, e é preferível aceitá-lo a combatê-lo. Na terra do pecado, quem tem virtudes é rei.

“Nós vemos um pecado capital em cada esquina... Em cada lar... E o toleramos. Porque é algo comum. É trivial.”

Trailer: 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O Silêncio dos Inocentes


Bom, Clarice, as ovelhas pararam de gritar?”.

O gênero suspense tem muito a agradecer aos anos em que Alfred Hitchcock consolidou sua assinatura cinematográfica e ao período no qual Stanley Kubrick alavancou seu nome. Isso somente para citar dois grandes diretores, quando na verdade o legado é vasto e a lista de referências não caberia em uma simplória análise.

O cinéfilo cujo gosto pessoal costuma frequentemente pender para este gênero deve ter cravado em sua mente diversos nomes de personagens fictícios que, de certo modo, deixaram impressões imutáveis nas entranhas que constituem a sétima arte. E quando a temática envolve sangue e canibalismo, as façanhas do ilustre doutor Hannibal Lecter são dificilmente esquecidas.


O notável personagem nasceu nas páginas das obras escritas por Thomas Harris, o qual iniciou sua série com o livro Dragão Vermelho, lançado em 1981. Mas foi com a adaptação para o cinema de O Silêncio dos Inocentes, em 1991, que Hannibal ganhou vida e grande prestígio no magnífico desempenho de Anthony Hopkins.  


O enredo é focado na estagiária Clarice Starling (Jodie Foster), cujo sonho é se tornar uma agente especial do FBI. Seu superior, na intenção de testar suas habilidades, a insere em uma investigação policial. Clarice precisa traçar o perfil psicológico de um serial killer, conhecido como Buffalo Bill, que sequestra mulheres e arranca parte de suas peles.


Entretanto, para conhecer a mente de um psicopata é preciso ter a ajuda daquele que foi o maior de todos. Sob o consentimento do FBI, Clarice passa a consultar o Dr. Hannibal Lecter, que já está preso há mais de oito anos. A interação entre ambos é o ponto forte do roteiro, ilustrando o conflito da novata com o experiente. Porém, é a postura que Hopkins dá ao personagem que prende a atenção do espectador; o caráter de Lecter é tão animalesco quanto o de um predador; no jeito de olhar frio e calculista, na maneira como seu olfato é aguçado, no modo como seu raciocínio é rápido, perspicaz e fatal. De fato, quando os dois estão cara a cara, a tensão é semelhante à de uma ovelha esperando ser devorada pelo lobo.


Dirigido por Jonathan Demme, O Silêncio dos Inocentes foi um marco para sua época. Foi o terceiro filme da história do cinema a vencer todas as categorias principais do Oscar (Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz, Roteiro Adaptado) e é considerado por muitos o melhor filme de terror/suspense depois de O Exorcista. Grande parte do mérito deve-se a brilhante direção de Demme, juntamente com o talentoso elenco e a lânguida trilha sonora; a mania que o diretor tem de focar no rosto dos atores aumenta a tensão e apenas melhora a qualidade estética da película e, somada ao som, que sobe de volume em momentos-chave, faz com que o resultado final seja sublime e irretocável.


O Silêncio dos Inocentes certamente não deve ser excluído da lista das melhores referências do gênero suspense (Apenas o olhar de Anthony Hopkins já é o suficiente para proporcionar pesadelos) e foi o responsável por elevar o status de Hannibal Lecter, que possui mais três filmes e um seriado de TV. Ao que parece, a herança do suspense ficcional ainda tem muita riqueza e, principalmente, o poder de causar calafrios.  


Trailer:

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Jumanji



O homem da floresta escura, caça em você a criança pura”.

Uma das vantagens de jogar RPG, como a própria tradução anuncia, é a oportunidade que os jogadores têm de interpretar seus personagens, aguçando suas capacidades de imaginação. Embora vários dos participantes desse estilo de jogo levem as regras muito a sério, eles estão guarnecidos com o pretexto de que tudo gira em torno de uma ficção. 

O problema de Jumanji é que o jogador não tem tal opção e cada lance de dados pode gerar resultados decisivos, inusitados e fatais; toda jogada significa que algo sairá do jogo, colocando os participantes em perigo real. No ano de 1969, Alan Parrish e sua amiga Sarah Whittle descobrem isso da pior maneira e o pobre garoto é lançado para dentro de um misterioso tabuleiro que encontrou nos entulhos de uma construção, fadado a ali ficar até que surja outro participante que o salve.


Vinte e seis anos depois, os irmãos Judy (Kirsten Dunst) e Peter vão morar na velha mansão da família Parrish. Ambos acabam encontrando o jogo de nome “Jumanji” e o iniciam, libertando o já adulto Alan (Robin Williams). O infortúnio é que os irmãos começaram a mesma partida que Alan não conseguiu terminar em outrora, e para que todas as coisas que saíram do jogo voltem ao seu local de origem e o equilíbrio seja restaurado, o jogo tem que ser encerrado. 

O filme, baseado na obra de Chris Van Allsburg, foi lançado em 1995 e é considerado um clássico pelo teor aventureiro e os sofisticados efeitos visuais que, para a época, foram somente possíveis graças aos avanços alcançados em Jurassic Park. O clima juvenil e cômico foi bem aproveitado pelo diretor Joe Johnston (Capitão América: O Primeiro Vingador), o qual possui uma aclamada experiência na área pelo também nostálgico Querida, Encolhi as Crianças.


Mas não apenas de aventura vive Jumanji. A temática família, coragem e amizade permeiam o filme, alicerces das variadas emoções que os personagens demonstram nas situações de perigo. Mais um ingrediente a ser acrescentado no sucesso que, ainda na década de 1990, rendeu um desenho animado retratando o mundo que existe dentro do jogo.


Curiosamente, outro longa-metragem chamado Zathura é considerado uma extensão de Jumanji; a diferença é que seu cenário é o espaço sideral. As comparações são inevitáveis, pois a aventura espacial é inspirada em outro livro do mesmo autor. Ainda assim, é preciso de algo maior para dissipar da memória a fantástica história com a qual Jumanji presenteia o espectador e, além disso, é ótimo rever Robin Williams em seus anos dourados. Para os insaciáveis jogadores de imaginação fértil, Jumanji sempre será uma boa inspiração; para o saudoso espectador, serve como o manual de uma boa diversão e a nostálgica sensação de que por mais que a partida termine, sempre haverá alguém disposto a jogar outra vez.

Trailer:

domingo, 22 de junho de 2014

Conta Comigo


"É como se Deus desse algo a você, cara. Todas essas histórias que você pode inventar... Ele disse: 'Isso é o que eu tenho para você. Tente não perder'. Crianças perdem tudo a menos que exista alguém que olhe por elas".

Em 2011, Steven Spielberg, em parceria com J. J. Abrams, lançou nos cinemas o filme Super 8, no qual tentaram resgatar alguns aspectos do gênero infanto-juvenil que arrebatou grande sucesso nas décadas de 1980 e 1990. Além de o objetivo ter sido alcançado com êxito, entregando ao público uma película incrível, elementos de suspense e ficção científica ajudaram a compor a trama.

Assistindo a Conta Comigo, longa-metragem de 1986, fica fácil de ver os alicerces em que Super 8 se apoiou, o que demonstra não apenas uma sábia decisão de Spielberg e Abrams, como também ajudou a relembrar que a qualidade de um clássico pode permanecer intacta por quase 30 anos, elucidando sua importância para as gerações futuras.
   

Ambientado no verão de 1959, o enredo discorre a respeito de um evento que marcou a vida de Gordie Lachance (Wil Wheaton) e seus amigos Chris Chambers (River Phoenix), Teddy Duchamp (Corey Feldman) e Vern Tessio (Jerry O’Connell). O quarteto vive em uma pequena cidade estadunidense chamada Castle Rock, onde há mais de três dias um garoto chamado Ray Brower desapareceu. O grupo descobre que o menino morreu e todos decidem traçar uma jornada parar encontrar o corpo.

Embora a história seja aparentemente simples e fraca, é na aventura do quarteto que o espectador reconhece a profundidade dos personagens. De início, o plano é encontrar o cadáver, levá-lo de volta à cidade e ganhar todo o prestígio que esse ato de heroísmo pode acarretar, mas à medida que avançam por meio da mata e da linha do trem, cada qual se vê diante de sua dura realidade; famílias dilaceradas pelo sofrimento e a falta de boas perspectivas para o futuro revelam o lado obscuro e dramático da obra.


Dirigido por Rob Reiner, o filme é inspirado em um conto chamado “O Corpo”, de Stephen King, e concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. O título original, Stand By Me, é o mesmo de uma canção de Ben E. King, a qual toca nos créditos finais e aparece suavemente em momentos-chave, colaborando com a ideia de saudosismo e amizade que se perpetua por quase toda exibição.

Com cenas memoráveis (a tentativa de escapar do trem, as sanguessugas no rio) e diálogos comoventes, não é de se admirar que alguns diretores ainda queiram produzir filmes que se equiparem a Conta Comigo, em que a coragem de crianças é posta à prova e suas responsabilidades ficam mais acentuadas do que a de adultos inertes e relapsos. Felizmente, Super 8 conseguiu, e resta agora esperar outras obras similares darem o ar da graça. Afinal, boas referências não faltam.



Às vezes acontece. Amigos entram e saem da nossa vida”.

Trailer:


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pulp Fiction - Tempo de Violência


O caminho do homem justo está bloqueado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e a tirania dos homens maus. Bendito aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, é pastor dos humildes pelo vale das sombras. Pois ele é o verdadeiro guardião de seus irmãos e o descobridor das crianças perdidas. E eu exercerei uma vingança terrível e furiosos castigos aos que tentarem destruir meus irmãos. E ficarão sabendo que eu sou o Senhor quando Eu executar sobre eles a minha vingança”. 

No começo da década de 1900, o termo pulp era diretamente relacionado às revistas produzidas com um papel de baixa qualidade. As publicações continham, em geral, histórias ficcionais, e inclusive várias editoras, como a Marvel Comics, iniciaram suas produções nesse formato. 

Não é de se admirar que, no decorrer do tempo, a expressão “pulp fiction” tenha surgido para classificar folhetins similares, sendo estes com um enredo mais curto e com situações, muitas vezes, irracionais. E foi por meio deste pensamento que o diretor Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios, Kill Bill Vol. 1 e Vol. 2) teve a ideia de batizar o terceiro filme de sua carreira: Pulp Fiction – Tempo de Violência

A narrativa é composta pela ausência de linearidade, uma das mais famosas marcas registradas de Tarantino. De uma maneira que vai contra as leis cronológicas, o espectador é convidado a conhecer os personagens em três capítulos distintos, os quais conseguem se entrelaçar satisfatoriamente. 


É no primeiro ato que a dupla de assassinos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) é apresentada. Eles trabalham para o mafioso Marsellus Wallace, o qual pede a Vincent para fazer companhia a sua esposa, Mia (Uma Thurman), enquanto viaja a negócios. O segundo ato é protagonizado por Butch (Bruce Willis), um lutador de boxe que é subornado por Marsellus para perder sua próxima luta. 

No capítulo derradeiro, o foco retorna para a dupla Vincent e Jules. E, após escaparem de um atentado, Jules passa a se considerar testemunha de uma intervenção divina e tenta traçar uma trajetória de redenção através da fé recém-adquirida. O interessante do roteiro, escrito pelo próprio Tarantino, é que cada ato é desenvolvido pela perspectiva de seus respectivos protagonistas, e em todos sempre há uma situação de desespero envolvendo outras pessoas.


Indicado a 7 Oscar, incluindo o de Melhor Filme e tendo vencido o de Melhor Roteiro Original, Pulp Fiction foi lançado em 1994. Foi aclamado pela crítica e marcou sua época, consolidando a direção de Quentin como uma das mais criativas dos últimos anos ao passo em que também ajudou a melhorar a carreira de John Travolta e Uma Thurman. E mesmo se tratando de uma de suas primeiras produções, aqui já é perceptível outra característica peculiar de Tarantino: o banho de sangue. 

Ainda que a estética do filme não apresente semelhança alguma com revistas de aventura e ficção, de fato Pulp Ficcion – Tempo de Violência deixa a impressão, de modo sangrento e subversivo, que pessoas comuns também podem ser heróis e escapar de situações de risco, por mais bizarras que essas sejam. Detalhe este que continuou guiando Tarantino em outros trabalhos e que ironicamente consegue retratar vários aspectos do insano mundo real. 


Trailer:

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Uma Cilada Para Roger Rabbit


Desenhos devem fazer as pessoas rirem. Uma risada pode ser bastante poderosa. Porque às vezes, na vida, é a única arma que nós temos”. 

É quase mágico e utópico quando paramos para refletir que, apesar da passagem do tempo e das mudanças sociais, os desenhos ainda permanecem encantando e entretendo gerações. A possibilidade de se divertir com algo surreal e de viajar por entre um mundo impossível de existir é uma experiência que as crianças, inclusive os saudosos adultos, fazem questão de descrever. 

Deve ser por isso que Uma Cilada Para Roger Rabbit é um filme tão surpreendente. Lançado em 1988, o longa foi o pioneiro na união do live-action com a animação tradicional; não é difícil imaginar o estarrecimento das crianças que cresceram na década 1990 ao vislumbrar pessoas reais interagindo com desenhos animados em uma história inteligente, lapidada com suspense e humor. 


Baseado no romance de Gary K. Wolf, publicado em 1981, o enredo nos transporta para Hollywood no final da década de 1940. O detetive particular Eddie Valiant (Bob Hoskins) é contratado por R.K. Marron, dono da empresa Marron Desenhos, para averiguar com quem a esposa de Roger Rabbit, o atrapalhado coelho, o está traindo. Logo se descobre que Marvin Acme, proprietário da Desenholândia, a terra de todos os desenhos, está intimamente envolvido com a senhora Rabbit. 

A trama se intensifica com a morte de Acme e a culpa do homicídio recai sobre o suspeito mais óbvio: Roger. Desesperado, o coelho pede a ajuda de Eddie, uma vez que no passado a especialidade do detetive era ajudar desenhos. É por meio de muitas desavenças, puxões de orelhas e confusão que Eddie vai descobrindo que o esquema por trás da morte de Acme é muito mais sorrateiro e misterioso, capaz até de extinguir a Desenholândia. 


Vencedor de 4 Oscar, incluindo para Efeitos Visuais, o filme foi dirigido por Robert Zemeckis (diretor da trilogia De Volta Para o Futuro) e produzido por Steven Spielberg. Além do longa ter sido inovador para a época nos padrões técnicos, também conseguiu uma proeza que muitas pessoas duvidaram: firmar um acordo com a Warner Bros. e Disney, fato que permitiu a aparição de seus personagens nas mesmas cenas (É provável que tenha sido aqui que o Mickey e o Pernalonga apareceram juntos pela primeira e única vez). 


No entanto, é importante frisar que não é um roteiro voltado exclusivamente para o público infantil; violência, tiroteio, morte, alusões a sexo e adultério estão presentes na obra, elementos que não denigrem a qualidade da película, pois a proposta é clara desde o início. É também necessário lembrar do sádico juiz Doom, interpretado por Christopher Lloyd, criador da substância que mata desenhos em questão de segundos: o Caldo. 

Uma versão comemorativa foi lançada recentemente para celebrar os 25 anos deste clássico que certamente marcou a infância de uma geração. Uma Cilada Para Roger Rabbit não mostrou apenas desenhos sob uma perspectiva mais adulta; atiçou a imaginação das crianças que sempre quiseram acreditar na existência de um mundo que antes parecia inalcançável. É claro que, com a tecnologia da atualidade, tudo é possível. Mas a emoção de ver Roger Rabbit e Eddie juntos em cena, em uma louca aventura, é uma nostalgia que a modernidade jamais poderá apagar.

Trailer dos 25 anos:

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Edward Mãos de Tesoura



A figura de um anti-herói é muito mais sombria e emblemática do que a de um herói comum. Geralmente um personagem desta estirpe sofre preconceitos sociais, é subestimado, ignorado ou humilhado, e muito dificilmente adquire algum reconhecimento ou prestígio por parte da sociedade. E quando o anti-herói se personifica em um semblante grotesco e bestial, a situação na qual ele se encontra sempre tem a tendência de ir de mal a pior. 

Podemos ver tais exemplos em obras como O Corcunda de Notre Dame e A Bela e a Fera, em que os protagonistas tiveram que galgar um caminho preenchido essencialmente por obstáculos e, sobretudo, pela vontade de aceitação. Talvez tenha sido inspirado em contos famosos iguais a estes que Tim Burton escreveu o roteiro de Edward Mãos de Tesoura, assim como também o dirigiu. 

Em uma pequena cidade dos Estados Unidos, Peg Boggs (Dianne Wiest) tenta ganhar a vida vendendo produtos da Avon. Cansada por transitar de casa em casa sem conseguir lucro algum, ela resolve visitar o velho casarão que fica no topo de uma colina na área mais esquecida da comunidade. Lá ela encontra o macilento Edward (Johnny Depp), um homem que é o resultado inacabado de uma experiência e que possui tesouras no lugar das mãos.


Peg, compadecida por Edward, leva-o até sua casa para que ele possa conviver com a sociedade. Logo o roteiro começa a revelar suas características de um conto clássico; Edward tenta se adaptar à sua nova condição ao passo que chama a atenção da população por suas habilidades excepcionais. Ele se torna o jardineiro de toda a vizinhança e passa a tosar os cachorros e a cortar os cabelos das mulheres, chegando a quase ganhar um salão para desenvolver sua arte.

Mas apesar de toda a atenção e afeto que aparentemente Edward recebeu dos cidadãos, restava obter o carinho de uma pessoa: Kim (Winona Ryder), filha de Peg. E temos então a criatura apaixonada pela donzela e, consequentemente, pagando o preço por isso; sendo vítima de um ardiloso plano, toda a aceitação que Edward adquiriu da cidade passa a se dissolver e isso se reflete em atos de rebeldia e violência, culminando a um final que muitos já conhecem.


Lançado em 1990, Edward Mãos de Tesoura é o primeiro filme em que Tim Burton firmou sua parceira com Johnny Depp, a qual perdura até hoje. Com uma trilha sonora erudita, cuja bela melodia nos faz acompanhar Edward em sua lânguida jornada, a película, embora tenha algumas falhas perceptíveis em uma análise atualizada, marcou sua época e entrou para lista dos maiores clássicos que a Sessão da Tarde foi capaz de exibir. 

Edward Mãos de Tesoura é mais um daqueles filmes que merecem ser lembrados por anos, e não somente pelo seu conteúdo didático e metafórico; há uma forte crítica social, mostrando o caráter raso, a hipocrisia e a falsidade de pessoas que se julgam normais quando na verdade a maior anomalia está dentro delas. Johnny Depp entrega aqui uma de suas performances mais comoventes e cativantes, provando que a humildade, sem qualquer tipo de intrepidez, é capaz de humanizar a mais grotesca das criaturas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tempos Modernos

 

Há uma frase memorável de Charles Chaplin em que ele diz que sorrisos e lágrimas são antídotos contra o ódio e o terror. Tal enunciado não poderia estar tão correto, uma vez que pode ser muito bem encaixado na contemporaneidade e, quiçá, em épocas futuras também. Entretanto, nos tempos da modernização, onde tudo era novidade, talvez essas palavras tenham tido um valor maior. 

Tempos Modernos, filme de 1936, dirigido e escrito pelo próprio Chaplin, nos traz um enredo no qual é mostrado as consequências de uma vida atingida pela revolução industrial, de um modo cômico e crítico. Charles reprisa seu personagem mais famoso, o Vagabundo, que aqui é um operário submetido ao trabalho da repetição. 

Depois de transgredir as leis da era das máquinas, sob um súbito ataque de loucura, o pobre alienado é preso e percebe que a carceragem é um ambiente mais saudável que o mundo lá fora, onde a modernidade se faz cada vez mais presente com seus carros, furadeiras e pessoas se locomovendo para as fábricas iguais a ovelhas indo para o abate (Repare na cena inicial).

 

É interessante como Chaplin sabia equilibrar as coisas, de uma forma que a mensagem a ser passada penetra por meio de situações paralelas. Outros personagens, como a menina pobre, refletem a fome, a miséria e o desemprego que a modernização causou, nos lançando a reflexão de que muitas vezes os avanços tecnológicos não trazem bons frutos. Um exemplo disso é evidente na frequência com que Charles troca de emprego. 

Para muitos considerado um dos pais do cinema, ao lado dos irmãos Lumière e George Méliès, Charles Chaplin era um artista a frente da sua época. E, assistindo a Tempos Modernos, é fácil ver o motivo pelo qual ele recebeu esses títulos. Ele deu ritmo aos filmes mudos e trouxe um humor inovador, algo que antes era raro de se ver. Além disso, ele dirigiu todos os longas nos quais atuou e era responsável pela trilha sonora também (Smile, uma de suas composições mais bonitas, tem sua estreia aqui).


O curioso de Tempos Modernos, apesar de ser um filme antigo, é perceber que os ‘tempos’ não mudaram tanto assim. Ainda é visível sentir a desigualdade social, pessoas reivindicando seus direitos e cidadãos se agarrando à tecnologia e à ilusão de que ela pode levar a uma vida mais alegre. E mesmo tendo um pano de fundo dramático, ao final Chaplin termina com uma de suas maiores lições: não importa qual seja o tamanho das dificuldades, sempre será possível sorrir.

sábado, 25 de agosto de 2012

A Viagem de Chihiro

 

O Brasil, quando analisado mais de perto, ganha novas feições, desdobramentos de outras culturas que se unem para formar uma nação mais intelectual, social e/ou artística. Isso é o que chamam de multiculturalismo, e tal fenômeno percorre por entre nossas veias mesmo que sutilmente. Gostamos de ver filmes hollywoodianos, de aprender línguas estrangeiras, nos entretemos com objetos eletrônicos de última geração. 

A lista é imensa, mas quero me deter somente a um item. Porque, se você, assim como eu, teve uma infância situada entre os anos 80 e 90, é quase certo que tenha se deixado encantar por desenhos japoneses. Esse legado foi preservado para a juventude de hoje, a qual parece se dedicar com mais afinco à fantasia que as animações japonesas são capazes de produzir. 

Ainda que a maioria destes desenhos aborde violência e, em alguns casos, temas sobrenaturais, há uma mensagem heroica por trás que instiga o espectador a despertar o lado nobre que compõe cada ser humano. Em A Viagem de Chihiro, animação japonesa de 2001 e dirigida por Hayao Miyazaki, é possível enxergar esses elementos de um modo emblemático e poético.


Chihiro é uma menina de dez anos que está triste por ter que se mudar para um local distante. No caminho para a casa nova, o veículo no qual ela e seus pais se encontram estagna no meio do percurso, em frente a um túnel misterioso. Os pais atravessam o túnel, sob as desaprovações da garota, e do outro lado se veem em um parque temático abandonado. Lá encontram uma barraca de comida e decidem se banquetear enquanto o sol se põe. Quando a noite cai, os pais de Chihiro se transformam em porcos e ela começa a ver vultos perambulando pelo parque. 

Ela logo percebe que um novo mundo está se revelando e que precisa sair dali e descobrir um jeito de devolver seus pais à forma humana. Haku, um garoto misterioso e aprendiz de feiticeiro, resolve ajudá-la e indica a rota para que ela se encontre com a bruxa Yubaba, a qual lhe dará um emprego na Casa de Banhos. Em meio à magia, criaturas estranhas, espíritos e deuses de origem inexplicável, Chihiro vai aprendendo que é preciso trabalhar duro para conseguir voltar ao mundo do qual pertence.

Vencedor do Oscar de Melhor Animação em 2003, a película adquiriu boas críticas em diversas nacionalidades, inclusive no Brasil. Pessoalmente, assistindo ao filme, pude observar um Alice no País das Maravilhas na versão oriental; a diferença é que com uma pitada maior de suspense, folclore e muita nocividade. E desconfio que algumas pessoas terão de assisti-lo mais de uma vez para poder entendê-lo. 

A Viagem de Chihiro tornou-se um clássico da animação japonesa, em que é perceptível as mudanças de uma garota mimada para uma pessoa mais humilde e humana em todas as etapas da jornada do herói. Obras desta estirpe enaltecem a importância de se conhecer os trabalhos de outras culturas e revelam que elas vão permanecer entre nós por muito mais tempo. A verdadeira viagem está apenas começando.

Trailer:

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Coração Valente

 


A história é escrita por aqueles que enforcam os heróis”.

A nobreza sempre foi uma característica padrão dos heróis. E falo no sentido pessoal, não no financeiro. Convenhamos, títulos de nobreza, prestígio e riqueza de nada valem sem a coragem de lutar por uma causa altruísta, que parta de um indivíduo e beneficie a todos no final.

Esse pensamento pode ser considerado utópico, mas há muitos exemplos neste estilo que compõem e fazem parte da trajetória da história da humanidade. Em Coração Valente, conhecemos um pouco da vida de William Wallace, um guerreiro e patriota escocês, o qual liderou a rebelião do seu país contra a opressão da Inglaterra.

Em meados do século XIII, a Escócia sofria sérias represálias dos ingleses sob as ordens do inescrupuloso e hostil rei da Inglaterra, Eduardo I. Para que os escoceses aderissem às suas vontades, o rei decreta o direito da prima nocte. Isso significaria que qualquer plebeia que se casasse em solo escocês teria que passar a noite de núpcias com algum inglês da corte.

 

Willian Wallace (Mel Gibson, também diretor do filme), homem culto em línguas e sábio na arte da guerra, para não deixar-se submeter a esta lei absurda, resolve casar-se em segredo. O erro dos ingleses reside no fato de que, ao matarem a esposa de Wallace, eles não faziam ideia de que haviam cutucado a onça com vara curta e que esse seria o estopim para o início da carnificina.

Willian, com a ajuda dos compatriotas escoceses vítimas de roubo e exploração, passa a combater toda a injustiça que domina seu país. A cada exército ceifado pela sua espada, mais pânico se instaura entre os ingleses e o espírito da esperança ocupa o povo da Escócia, fazendo-os acreditar que a liberdade enfim pode ser alcançada. O senso nacionalista cresceu ao ponto de Wallace ficar famoso inclusive entre realeza.

 


O filme, que estreou em 1995, rendeu a Mel Gibson os Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme, além de mais três estatuetas e diversos outros prêmios. Ainda que o longa apresente uma versão mais poética e romantizada de Willian Wallace e acrescente eventos que não condizem com a cronologia real dos acontecimentos, foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. 

Coração Valente é um clássico recheado de cenas e atuações memoráveis, adornados por uma trilha sonora bonita e triste. Mesmo que aborde temas atuais como traição, suborno e jogos de poder, o enredo nos mostra que uma pessoa pode se ver livre dessas tentações deploráveis e caminhar por uma rota justa e virtuosa. Willian Wallace é o exemplo de que não é preciso patente de nobreza para adquirir coragem; basta bravura para nunca abrir mão de seus sonhos. É isso que faz um homem se tornar herói. 

 “Todo homem morre, mas nem todo homem vive”.


Trailer (SEM LEGENDA):

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Os Goonies



"A próxima vez que olharem para o céu, vai ser em outra cidade. A próxima vez que fizerem uma prova, será em outra escola. Nossos pais querem o melhor para nós, mas no momento eles têm que fazer o que é certo para eles, porque é o tempo deles. O tempo deles, lá em cima. Aqui em baixo é o nosso tempo".

A década de 80 foi mesmo um baú de tesouros. Cinematograficamente falando, lapidou esmeraldas maravilhosas. De modo curioso, a maioria dessas relíquias possui algo em comum: o fato de Steven Spielberg, o grande estimulador da imaginação oitentista, participar da produção.

Sendo roteirizado por Spielberg, com a ajuda de Chris Columbus, e dirigido por Richard Donner (responsável por todos os filmes da série Máquina Mortífera), Os Goonies estreou nos cinemas em 1985.

Os amigos Mickey, Bocão, Dado, Gordo e Brand estão tristes, pois o vilarejo em que residem será destruído em menos de 24 horas. Juntos, o grupo decide subir até o sótão da casa de Mickey, onde, revirando algumas bugigangas de seu pai, encontram um misterioso mapa. O documento aponta as coordenadas exatas para encontrar o tesouro perdido do lendário pirata Willy Caolho.




Os garotos, que se auto proclamam os Goonies, enxergando naquela descoberta a possibilidade de salvar suas moradias, seguem nessa jornada repleta de segredos, aventuras, romance, e muitas armadilhas. Para dificultar seus passos, no entanto, há uma família de malfeitores, os Fratelli, que está disposta a reivindicar o ouro pirata antes dos jovens heróis. 

Ainda que o longa possua todas as características e o formato adequado para se enquadrar no gênero infanto-juvenil, sendo um grande sucesso na época em que foi lançado, acaba se tornando um pouco vítima da maldição dos clássicos. Vendo-o hoje, são perceptíveis algumas falhas no roteiro, piadas fracas e personagens que poderiam ser mais bem trabalhados.


 


Contudo, sendo voltado para o público juvenil dos anos 80, há como relevar. E embora tenha elementos que podem ser vistos em outros filmes deste tipo, como o irmão mais velho que quer conquistar a garota popular da escola, o amigo gordo engraçado, ou o menino aprendiz de inventor, Os Goonies, de certa forma, é uma narrativa que permanece com seus encantos. 

Sendo assim, este é mais um clássico que os oitentistas tiveram o prazer de desfrutar. Recentemente, Spielberg tentou resgatar esse gênero com o fabuloso Super 8, filme bastante recomendado para quem sente falta de reviver aventuras. Os Goonies é apenas mais uma pérola que o baú dos anos 80 tem a oferecer. Que esse tesouro brilhe por muitos anos à frente.


Trailer (SEM LEGENDA):

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

De Volta Para o Futuro


"O futuro não está escrito, pode ser mudado. Qualquer um pode fazer do seu futuro o que quer que ele seja. Eu tenho que viver minha vida de acordo com o que eu acho que é certo... no meu coração".

No ano de 1985, a palavra "DeLorean" tornou-se comum no vocabulário norte-americano. Tal fenômeno parecia ser apenas mais uma febre de verão, e passaria totalmente despercebido se a dita palavra não tivesse cruzado anos e décadas, atingindo a contemporaneidade com o seu sentido ainda intacto. Os fãs de ficção científica e os nerds de plantão com certeza devem saber que o DeLorean ao qual me refiro não faz somente ligação à marca de um carro, mas principalmente à máquina do tempo do filme De Volta Para o Futuro.

Sim, aquele veículo produzido no início dos anos 80, de duas portas, que quebrou o tempo/espaço contínuo guiando o jovem Marty McFly e o Dr. Emmett Brown em loucas aventuras através da história da cidade de Hill Valley. Juntos, eles vislumbraram os anos dourados, viram o que acontecerá no futuro e ficaram diante de cowboys do Velho Oeste.

É provável que De Volta Para o Futuro tenha sido o responsável por aquecer as chamas da ficção científica na década de 80. Afinal, antes dele, o único que tivera um conteúdo tão aclamado pelo público havia sido a trilogia clássica de Star Wars. Talvez o longa também tenha sido responsável por colocar em ascenção o nome do diretor Robert Zemeckis, que ainda nos anos 80 dirigiu Uma Cilada Para Roger Rabbit (sucesso de bilheteria) e nos anos 90 consagrou-se com Forrest Gump, o qual lhe concebeu o Oscar de Melhor Diretor.


O enredo nos apresenta ao jovem Marty McFly (Michael J. Fox), um adolescente residente da cidade de Hill Valley e que é perseguido pela sombra do fracasso da sua família. Na madrugada do dia 25 de outubro de 1985, ele se encontra com seu amigo, Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), o qual lhe apresenta a um experimento revolucionário: a máquina do tempo. Devido a um terrível incidente, Marty embarca no DeLorean e viaja para o ano de 1955, exatamente no dia em que seus pais se conheceram. Alterando o curso dos eventos, Marty acidentalmente faz com que sua mãe se apaixone por ele, e agora tem como objetivo fazer seu pai conquistar sua mãe, caso contrário ele e seus irmãos nunca irão nascer.

O filme fez um sucesso tremendo, garantindo a Parte II e III, lançadas, respectivamente, nos anos de 1989 e 1990. Nas sequências, Marty e Dr. Brown viajam até 2015 para impedir que a família McFly caia em desgraça, depois voltam à 1955 para evitarem uma realidade horrível e, por fim, Marty regressa ao ano de 1885, o Velho Oeste, a fim de não permitir que um acontecimento trágico seja consumado.


De Volta Para o Futuro é uma das trilogias mais consagradas do século XX, cujo valor ainda é reconhecido na atualidade. A trama envolvente, o humor inteligente, a trilha sonora empolgante são apenas alguns dos elementos que o transformam em um grande clássico. O final de um filme é o início do próximo, preservando uma cronologia impecável. E, em 2010, no 25º aniversário do longa, uma bela homenagem foi feita para o elenco e toda produção.

A trilogia rendeu um desenho animado nos anos 90 e, mais recentemente, uma série de jogos para computador. Aposto que o diretor Robert Zemeckis e o produtor Steven Spielberg não esperavam que um filme dos anos 80, cuja premissa era, aparentemente, pouco convincente, fosse marcado na história do cinema como um dos melhores filmes do gênero ficção científica. Essa é a essência de um clássico; não importa em qual tempo ou espaço estejamos, alguém sempre estará lá para perpetuar sua história através dos milênios. Algo que, infelizmente, nem o DeLorean é capaz de fazer.

"Seu futuro ainda não foi escrito, nem o de ninguém. Seu futuro é o que você fizer dele, então faça-o bem".

sábado, 17 de setembro de 2011

Forrest Gump: O Contador de Histórias

"Minha mãe dizia que a vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar".


A arte de contar histórias é uma habilidade adquirida por meio de muito treino, ou, é claro, se quem a conta tiver vivenciado cada detalhe. Para alguns, não importa se o conteúdo relatado seja verdade ou mentira, basta apenas que o modo com que a narrativa é destrinchada seja natural, sincera, simples e apaixonante. É esse estilo, essa nobre forma de se contar uma história, que fica marcada não somente na lembrança de quem a viveu, mas sobretudo na daqueles que escutaram com atenção e respeito.

Como já é de conhecimento geral (pelo menos deveria ser), histórias marcantes têm o direito de serem revisitadas. Não no intuito de evitar um possível esquecimento, e sim para relembrar os aspectos que as tornam tão memoráveis. Forrest Gump: O Contador de Histórias, possui os ingredientes certos para rebuscar na nossa mente os motivos pelos quais não deve ser esquecido.

Forrest Gump (Tom Hanks) é um rapaz simples que cresceu em uma pequena cidade do Alabama. Na infância, tinha problemas ortopédicos e foi criado de acordo com os conceitos que sua mãe tinha do mundo, o que talvez seja a razão para o personagem ser tão ingênuo. Contudo, atrevo-me a dizer que a inocência de Gump é o fator que mais encanta e surpreende o espectador, pois ele atravessa todas as etapas da "jornada do herói" sem perdê-la em nenhum momento. Esta forma infantil de enxergar as coisas dá à narrativa uma comicidade irresistível que permeia quase todo o filme. Ainda criança, Forrest descobre o valor da amizade ao lado de Jenny, e graças a ela aprendeu a correr e a amar.

O fato de correr como o vento garantiu a Forrest uma vaga no time de futebol. De maneira ingênua (é importante não esquecer disso), ele tornou-se um atleta astro durante os anos de faculdade. Após se formar, alistou-se no exército e foi recrutado para servir na Guerra do Vietnã. Lá ele conhece Bubba, um pescador de camarão, e o Tenente Dan Taylor, futuro sócio. Sem entrar muito em detalhes, enquanto as oportunidades surgem para Forrest progredir na vida, ele nunca tirou da cabeça sua amada Jenny. Como é exposto no decorrer da exibição, Jenny não tem a mesma sorte, embarcando no movimento hippie da década de 60, nos prazeres carnais, e conhecendo as novas maneiras de "expandir a mente". E o gentil Forrest, dotado da capacidade de compaixão, ainda vê em Jenny a garotinha pura de outrora, nas mais diversas situações embaraçosas.

O filme estreou nos cinemas em 1994, ganhou 6 Orcars (incluindo o de Melhor Filme e Melhor Ator para Tom Hanks) e foi dirigido por Robert Zemeckis (Diretor dos clássicos Uma Cilada para Roger Rabbit e da trilogia De Volta para o Futuro). Além da simplicidade e da beleza com as quais Zemeckis dirigiu o longa, o roteiro de Eric Roth também merece seu destaque; ainda que o foco do enredo seja a vida de Forrest e sua paixão inesgotável por Jenny, por trás de tudo isso há os acontecimentos marcantes da história dos Estados Unidos, de modo que Forrest presencia os principais fatos do século XX que ocorreram no seu país e os relata como se fossem coisas corriqueiras. Isso sem mencionar as maneiras hilárias com as quais ele influenciou determinadas pessoas...

Importante ressaltar os efeitos especiais, que na época foram revolucionários. Afinal, deram a Forrest a possibilidade de se encontrar com pessoas que já estavam mortas. Como, por exemplo, na foto abaixo, em que Gump vai a um programa e conhece John Lennon, encontro este que inspirou o músico a escrever uma de suas canções mais conhecidas: Imagine. Graças também à computação gráfica, Forrest encontrou-se com os presidentes John Kennedy e Richard Nixon.

De um jogador de futebol, Forrest passou a ser um herói americano, capitão de um barco, campeão nacional de ping-pong e dono de empresas bem sucedidas, nunca abandonando suas maiores características: a inocência e a bondade, mesmo diante da desigualdade, do abandono e da morte. Um enredo narrado de forma alegre, frágil e engraçada, com seus momentos lindos e tocantes, dignos de serem recordados por muitos anos. Forrest Gump: O Contador de Histórias é um filme que mistura ficção com verdade e que não tem o objetivo de mudar a atitude das pessoas, porém, para quem escuta e assiste, encanta e inspira com uma tremenda facilidade. Como toda boa história deve fazer.



"Eu corria para chegar aonde estava indo. Nunca achei que isto ia me levar a algum lugar".


Trailer (sem legenda):

sábado, 18 de junho de 2011

O Show de Truman - O Show da Vida


"Lá fora, a verdade é igual a do mundo que criei para você. As mesmas mentiras. As mesmas decepções."


Algumas pessoas defendem a ideia de que a televisão é a escola da mentira. Elas estão certas. Tristeza, diversão, arrepio, passa-tempo, susto, lágrimas, frio na barriga, e mais uma dezena de sentimentos misturados num liquidificador de emoções; essas são apenas algumas das sensações produzidas no nosso organismo quando ficamos diante de uma TV assistindo aquela novela ou seriado favorito, aquele filme de que você tanto gosta... Programas que de certa maneira refletem os variados aspectos da sociedade para que o telespectador se identifique ou se reconheça em um determinado personagem ou situação.

Nós nos entretemos facilmente com uma mentira que tenta representar a verdade. E quando essa verdade é bem encenada, é digna de aplausos. Talvez por isso que tornou-se necessária a criação dos Reality Shows, para provar que a realidade crua também pode nos encantar. Há uma relação quase que terapêutica entre o telespectador e o aparelho televisivo: é bom chegar em casa após um dia árduo de trabalho e rir das palhaçadas dos outros; é um reconforto saber que, embora você esteja cheio(a) de dívidas ou se sentindo um zero a esquerda, muitos estão numa situação pior do que a sua. É um pensamento desumano, mas, acredite, existem pessoas assim.

Fugir da própria vida é a palavra mágica. Desconectar-se de tudo que está em volta e dedicar sua atenção aos problemas alheios. Essa é a definição do público alvo dos reality. Infelizmente, para esses tipos de pessoas, nunca existirá um programa que explore os limites da realidade. Apenas um realizou tal façanha e poucos são os privilegiados que o conhecem. O seu nome é O Show de Truman - O Show da Vida.

Truman Burbank (uma das melhores atuações de Jim Carrey) é um pacato cidadão que vende seguros e mora na ilha de Seahaven. Ele é casado com a enfermeira Meryl e tem um melhor amigo chamado Marlon. Quando criança, perdeu o pai em um passeio de barco e desde então sofre trauma do mar. Um sujeito simples que possui a ambição de explorar o mundo por nunca ter saído da ilha. Não há nada de anormal em Truman, exceto o fato dele ser o grande astro de um programa de TV exibido 24 horas, ao vivo e sem cortes, para todo o mundo. E o mais impressionante: ele não sabe de nada.


A ilha onde Truman reside é na verdade uma cúpula gigantesca capaz de ser vista do espaço. Sua mulher, seu amigo e sua mãe são atores contratados pela empresa que financia o programa. Seu trabalho, sua casa e cada parte da cidade, são falsos. Tudo artificial para manter a magia e fazer com que Truman acredite que seja real. Todavia, nem todos são a favor do reality e um dia Truman conhece Sylvia, uma garota disposta a contar a impactante verdade. É a partir deste ponto que o filme ganha empolgação, pois Truman passa a desconfiar que a atenção de todos gira ao seu redor e inicia a jornada para descobrir o que está acontecendo.

O filme é de 1998, foi dirigido por Peter Weir (mesmo diretor de Sociedade dos Poetas Mortos e Mestre dos Mares) e o roteiro extraordinário é de Andrew Niccol. A forma como a história se desenrola é incrível porque mesmo se tratando de uma ficção, revela algo que muitos não sabem: a televisão é capaz de tudo para obter audiência e, no caso de Truman, brincar com a vida de uma pessoa é um dos caminhos para se conseguir isto. A frieza da mídia é representada pelo diretor do programa, Christof (Ed Harris), sempre criando razões para manter Truman trancafiado na ilha no intuito de fazer o reality permanecer no ar.

O longa é crítico e metafórico, e diria até que os primeiros reality shows devem ter se baseado nele. Recebeu três Globos de Ouro, incluindo para a atuação de Jim Carrey, e possui atributos excepcionais (Como a trilha sonora, que é de derreter a alma). Por mais que tenha uma mensagem assustadora e talvez profética, O Show de Truman - O Show da Vida mostra o tipo de telespectadores que supostamente estamos destinados a ser: eternos protagonistas da ficção, sempre tentando afastar-se daquilo que é real. Verdadeiros palhaços do circo da mentira.


"Aceitamos a realidade do mundo no qual estamos presentes."


(Sem trailer hoje =/)