sábado, 18 de agosto de 2012

Cara Feia



Ano de eleição. Greves. Miséria. Corrupção.


É preciso dizer mais alguma coisa?




Cara Feia:

Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come
Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come
É, não me distraí, não me distraí
Me deixa aproveitar a sensação um pouco mais
A sensação de esperança que invadiu o meu peito
Não me envergonha com esse velho preconceito
Não me atrapalha agora não, por favor
Não me apavora com as notícias do terror
O seu terror psicológico e as previsões sinistras dos seus mapas astrológicos
Não vão fazer o papai aqui fazer pipi na cama
Não sou do tipo que tem medo de sair da lama
Nós não somos covardes
E nunca é tarde pra cuidar de quem a gente ama

A gente sabe se amar, a gente sabe se amar, a gente sabe da vida
A gente sabe somar, e quer saborear a soma dividida
A gente sabe se amar, a gente sabe se amar, a gente sabe da vida
A gente sabe sonhar, e desse sonho a gente não duvida

Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come
Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come

E quem não mata a fome, a fome mata
Quem não mata a fome some; quem não mata a fome, a fome come
(A fome não é só um nome) E tem também a outra fome, fora do abdômen
Cara feia... eu vi na cara de um cara que matou um homem, por causa dessa outra fome
Fome de vingança, vingança do destino
E essa cara eu já vi na cara de um menino
E os meninos assassinos vão se renovando
E vão nascendo, vão morrendo e vão matando
É que eles pensam que o crime é o único caminho
Pra chegar em qualquer tipo de comando
Mas se os meninos forem mais malandros
Vão saber que ser trabalhador não é ser otário
Um bom exemplo vem da nossa presidência
Porque lá quem tá mandando é um operário
Não faça cara feia de barriga cheia!
Não faça cara feia de barriga cheia! Não faça cara feia de barriga cheia!
Nem meta a colher em cumbuca alheia
Quem deixa um pé atrás
Nunca chega na frente
Quem tem medo do futuro
Vira escravo do presente
Não me enche com essa fome de derrota
Nem me bota nesse time que defende o pessimismo
Agora eu sei, cansei da linha burra que separa, desune
E empurra todo mundo pro abismo
O caminho é mais pro alto
No mar e no sertão, na favela e no asfalto
Todo mundo sente fome, fome de futuro
Pra que pichar, se eu posso derrubar o muro?
Não é com tanque, nem com trator
Não é com ódio, nem com rancor
Não é com medo, nem com terror
Minha campanha também é paz e amor.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

2 Coelhos

 

A morte cria um sentido pra nossa vida. Mais importante que isso: a morte cria um valor especial para o tempo. Se nosso tempo nessa terra fosse indeterminado, a própria vida perderia o sentido? Muito provavelmente ainda estaríamos com a bunda de fora e com uma lança nas mãos. A morte é o agente mais poderoso da natureza; ela vem para levar o velho e abrir espaço para o novo. Nosso esforço para evitá-la e fazer nossa curta estada aqui algo minimamente memorável, é o que nos motiva. Ou seja, só existe a vida porque existe a morte”. 

Uma experiência, quando inovadora, não oferece a garantia de que trará bons frutos. É uma questão de empatia do público para com o objeto. E, no caso do cinema, também depende do tempo no qual o espectador está situado. Em um país onde é possível contar nos dedos os filmes que abordam ação e efeitos especiais, simultaneamente, realizar experiências que contribuam para o avanço da produção nacional é algo sempre bem-vindo. 

Em 2 Coelhos, primeiro longa dirigido por Afonso Poyart, vemos não apenas uma mistura de gêneros distribuída de maneira coerente, como também há o acréscimo de animações (entre elas, uma ode aos jogos de videogame), referências da cultura pop/nerd e a aderência de uma trilha sonora internacional, passando por Radiohead e 30 Seconds To Mars. Essa junção de elementos audiovisuais abre as portas de uma nova perspectiva para o cinema brasileiro e talvez seja a promessa de um futuro promissor. 

Edgar (Fernando Alves Pinto) é um cara sem planos para o futuro, aparentemente vive em um mundo isolado e que, após se meter em um evento traumático o bastante para modificar vidas, passa uma temporada de dois anos em Miami e regressa ao Brasil com um plano de vingança, no qual pode matar dois coelhos com um único golpe.


O plano é apresentado de forma aleatória e não linear, assim como a introdução dos personagens, entregando ao espectador a oportunidade de reunir todas as peças por conta própria. O que seria possível, se não fosse o clima tenso e misterioso instaurado a todo instante. Logo percebemos quem são os vilões e qual a intenção de Edgar em fazer justiça com as próprias mãos contra um sistema corrupto que o salvou no passado. 

O elenco também é composto por Alessandra Negrini e Caco Ciocler, cada qual com seus segredos e respectivas finalidades, mais uma dádiva do roteiro. Com ótimas atuações e uma câmera lenta que foca a ação e a expressão dos atores, 2 Coelhos torna-se mais atrativo no decorrer da exibição e, em alguns momentos, há quem pense que não se trata de uma produção nacional.


Afonso Poyart, veterano na área das animações, nos entrega um filme de estilo inusitado, o qual, se houver investimento, pode criar ou até mesmo incentivar o desenvolvimento de um novo tipo de espectador no Brasil. É claro que, em algumas cenas, não há novidade; tiroteio, favela e suborno. O próprio Edgar, o “herói torto”, não escapa do lado ganancioso que perpassa nossa nação. 

Mas a mensagem é outra e a poesia de 2 Coelhos pode ser encontrada na coragem (a cena de Alessandra Negrini com a espada samurai, retalhando seus demônios, é sublime). Poyart mostrou que uma direção visionária e novata, aliada a uma produção empenhada com um toque de sonho, consegue chegar a um resultado melhor do que se pensa. Enfim, uma experiência que deu certo.

Trailer:

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As Formigas



Estavam aqui 100 milhões de anos antes de nós e, se considerarmos o fato de que foram um dos raros organismos a escapar da bomba atômica, continuarão aqui por mais 100 milhões de anos depois de nós. Não passamos de um acidente de três milhões de anos na história delas. Aliás, se extraterrestres desembarcarem um dia em nosso planeta, não vão se enganar. Sem dúvida alguma hão de querer conversar com elas. São as verdadeiras donas da Terra”. 

Ano passado, ao assistir o filme Planeta dos Macacos: A Origem, lembro-me de ter ficado fascinado com a capacidade encantadora que o enredo teve de induzir o espectador a torcer a favor dos macacos e, consequentemente, ficar contra a própria espécie. A ideia dos homens serem subjugados por uma raça aparentemente inferior foi bem recebida e serviu como pretexto para respeitarmos os seres que compõem à natureza. 

Entretanto, após a leitura de As Formigas, esse respeito tem que ser muito mais admirável. No primeiro volume da trilogia O Império das Formigas, publicada no Brasil pela editora Bertrand Brasil, o autor Bernard Werber nos transporta, por meio de uma escrita minuciosa (até demais), ao mundo subterrâneo dos infraterrestres. A riqueza da descrição dos cenários e dos detalhes é o resultado de 15 anos estudando a civilização das formigas. 

O romance é dividido em dois núcleos que se intercalam constantemente. No início somos apresentados à família Wells. Jonathan se muda para casa que herdou de seu tio Edmond, juntamente com a esposa e o filho. Tudo parece bem até Jonathan descobrir uma mensagem do falecido tio deixada para ele, avisando-lhe para jamais descer ao porão da residência. Contrariando a ordem, ele desce e se depara com um mistério que permeia toda a trama, englobando a segurança de sua família e atiçando uma investigação policial. 

O segundo núcleo pertence, é claro, às formigas. Aqui acompanhamos a aventura de três formiguinhas cidadãs de Bel-o-kan, o maior formigueiro da região. O suspense se desenrola quando uma delas descobre a existência de uma arma mortífera, a qual pode matar um animal sem deixar vestígios. Além disso, um grupo de formigas rebeldes se infiltrou no formigueiro e está disposto a liquidar qualquer inseto que tentar desvendar o que acontece nas raízes da cidade. O trio tem uma longa jornada pela frente e precisa entender o que se passa ao seu redor. 

Durante quase toda a leitura, a parte condizente aos humanos é a mais atrativa. Nela, o clima misterioso é cômodo e intrigante, relacionando biologia com psicologia, filosofia e, inclusive, um pouco de religião. A parte das formigas, por ser descritiva ao extremo, pode se entediante para alguns em certas passagens. Contudo, o que torna a leitura válida são as informações e curiosidades presentes por toda a obra, transformando os insetos – as formigas, especificamente – em seres bem mais interessantes e deslumbrantes do que se imagina. 

Talvez o maior triunfo de As Formigas seja o seu final, no qual os dois núcleos se encontram, de uma forma absurda e impressionante, revelando que grandes coisas, equivalentes aos acontecimentos mostrados em Planeta dos Macacos: A Origem, estão para acontecer nos dois livros seguintes. Bernard Werber, através do primeiro volume de sua trilogia, mostra que devemos tomar cuidado com as formigas. Afinal, elas habitam o planeta desde 100 milhões de anos antes de nós e sua civilização mundial já ultrapassa a marca de um bilhão de bilhões de indivíduos. Elas estão por toda a parte e essa é uma bela razão para ficarmos preocupados.

sábado, 28 de julho de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

 

Às vezes um homem pode ressurgir da escuridão”.

Em 2008, ao assistir Batman – O Cavaleiro das Trevas, segundo filme do Homem-Morcego dirigido por Christopher Nolan, deparei-me com uma tremenda obra de arte. O encanto de fato foi tão profundo que muitos, além de mim, concordaram que seria uma proeza incoercível ultrapassar a qualidade estabelecida por um filme que talvez passasse despercebido se não fossem seus detalhes marcantes. 

É irrefutável que um dos maiores destaques de O Cavaleiro das Trevas foi a atuação doentia e conturbada que Heath Ledger concedeu ao Coringa, a qual lhe rendeu vários prêmios póstumos (incluindo Oscar e Globo de Ouro) e o colocou no apogeu dos melhores vilões de todos os tempos. Dito isso, o filme tem o defeito de ser tão bom e empolgante, que uma sequência certamente exigiria o mesmo grau de dedicação de cada pessoa envolvida no projeto.


E então, quatro anos depois, chegamos ao Cavaleiro das Trevas Ressurge, terceiro e último filme da franquia Batman dirigido por Nolan e protagonizado por Christian Bale. E, antes de qualquer coisa, devo dizer que é um desfecho bastante corajoso. Não que seja inferior ao seu predecessor, pois Nolan é um tipo de diretor em que se pode confiar; o curioso, porém, é que em contraste com o ritmo acelerado, caótico e perturbador do segundo filme, aqui temos um enredo focado mais no lado sentimental e psicológico dos personagens, o que os torna mais táteis e verossímeis. 

Oito anos depois dos acontecimentos finais de O Cavaleiro das Trevas, vemos uma Gotham pacificada graças a uma lei intitulada de Ato Dent, a qual foi responsável por prender mais de três mil criminosos que aterrorizavam a cidade. Batman nunca mais foi visto e é tido como um foragido da lei por ter assumido a culpa pela morte de Harvey Dent e, com isso, ocultado a verdadeira razão de seu óbito. Por consequência, Bruce Wayne (Bale), acometido pela tristeza e remorso, encontra-se exilado em sua mansão enquanto a empresa de sua família vai à falência.

 

Com a chegada de Selina Kyle (Anne Hathaway), uma ladra que parece não medir os resultados de seus atos, e com o surgimento de Bane (Tom Hardy) do subsolo – literalmente – para abalar os alicerces financeiros e morais de Gotham, torna-se necessário que Batman reapareça para garantir a paz novamente. A escolha de um vilão desconhecido para muitos se revela primordial no decorrer da projeção, pois aqui o desafio de Bruce Wayne, além de espiritual, é físico; o embate entre os dois é, no mínimo, brutal.

O que faz de Ressurge um filme ainda mais audacioso é que ele gira em torno de diversos temas, como terrorismo e conflitos sociais, fazendo com que a imagem do Batman em si fique um pouco apagada. Isso seria uma falha descomunal, mas o espaço é ocupado pelos personagens secundários, como o novato John Blake (Joseph Gordon-Levitt) e os já conhecidos Lucius Fox (Morgan Freeman), Comissário Gordon (Gary Oldman) e Alfred (Michael Caine), este último com belas cenas de deixar o coração apertado.

 

O clima de melancolia perpassa quase toda a duração (e são quase 3 horas de filme). Se Hans Zimmer, em O Cavaleiro das Trevas, soube arrebatar o espectador com sua sinfonia impecável, neste derradeiro episódio ele utiliza uma trilha sonora mais lânguida, preparando o público para aceitar que o final chegou. É importante salientar que há fortes referências a Batman Begins, por isso é recomendável uma maratona antes de encarar o terceiro capítulo. 

Sim, Christopher Nolan soube contar uma história e passar a mensagem que queria. Nos mostrou o início da lenda, a queda do herói e o fim de sua jornada. Ressurge encerra com maestria uma parte da mitologia, abrindo portas para uma nova possibilidade. Não importa se é melhor ou pior que seu antecessor; a qualidade foi mantida. E provou aos incrédulos que homens são capazes de se transformar em lendas.

"Quando Gotham estiver em cinzas, você terá minha permissão para morrer".

Trailer:

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Canção da América





Nós temos a necessidade de conviver com outras pessoas. Talvez por isso nunca sejamos completos, pois precisamos deixar nossa marca em alguém, nem que seja na forma de uma forte opinião ou de uma vaga lembrança. E o processo também tem que ser inverso. 

A distância, ao contrário do que muitos pensam, não tem a finalidade de atrapalhar ou de fortalecer um possível esquecimento. Um amigo de verdade, mesmo que passageiro, fica marcado na memória. E, se antes de partir, ele deixa uma marca em você, sua missão agora é retribuir o favor e repassar uma boa impressão a outra pessoa. 

E no momento em que ele regressar, aproveitar-se-á o tempo perdido, semeando as novas amizades e preservando as antigas, em rodas de conversa, em loucuras compartilhadas, em anedotas mal contadas, em saudades não reveladas... Infelizmente, há amigos que não retornam mais. Esses resolveram seguir um caminho diferente, mas sempre se lembram da sua existência, alguns com vergonha de admiti-la. A memória falha, porém não mente. 

Um dia este que vos fala também vai partir, na esperança de que tenha deixado em você uma impressão minimamente razoável e que possa ser transmitida para aqueles que merecem. Por isso aproveite e intensifique cada momento singelo e sublime, com abraços, lágrimas, sorrisos, e aperto de mãos, porque um dia você também terá que ir embora.

Mas não se preocupe. O melhor da partida sempre vem depois: o reencontro. 

Mais uma vez, feliz Dia do Amigo! 



Letra da música 'Canção da América': 


Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.




sexta-feira, 13 de julho de 2012

Astro Amador



Esta crônica é inspirada em uma situação real, na qual 'profissionais' ignoram o valor dos 'amadores'. 



Uma coisa é certa: se você é habitante do planeta Terra, nasceu pra ser taxado por mim. Não importa se você é vítima ou vilão, muitas vezes é apontado mesmo quando é o figurante mais despercebido da história.

E nem adianta querer escapar, se auto proclamando um santo ou dizendo que é um poço de inocência, pois até os desafortunados são acometidos pela assídua vontade de reconhecer meu valor. Felizmente, essa é a regra básica das leis: alguém ter que ser taxado de alguma coisa. E se não quiser, cai fora porque a fila é gigantesca.

Eu, por exemplo, já fui chamado de muita coisa nessa vida. “Louco” tornou-se uma palavra gostosa dentro do meu cotidiano. Eu a saboreio como um diabético ensandecido nadando em uma piscina de chocolate. Também já fui apontado de outras coisas: dissimulado, sociopata, cabeçudo, cínico, manipulável (e manipulador), ignorante, falso, jumento, irresponsável... Enfim, tudo que um ser humano normal tem direito. Incluindo a característica de “mafioso”.

O que não possa aceitar, em hipótese alguma, é que me classifiquem como amador. Eu sou egocêntrico e egoísta demais para aceitar algo assim. Posso suportar qualquer apelido, qualquer característica torpe, mas ser taxado de amador é atingir o grau mais miserável e baixo da humanidade. Se Deus me trouxe ao mundo, foi somente para brilhar no céu como a mais chamativa das estrelas e, por consequência, ser o centro de todos os holofotes.

Danem-se os caretas e suas teorias de simplicidade e harmonia! Qual o sentido de um conjunto ou sociedade, se eu posso me destacar entre os ínfimos planetas e me tornar o astro rei da galáxia? Quando sou taxado de amador, fica pressuposto que sou uma criatura incompleta, suscetível a falhas e – Deus me livre – autor de atitudes precipitadas. É como se eu ainda estivesse em processo de evolução, tentando atingir um objetivo, ou pior... Como se eu ainda não fosse dotado da razão absoluta!

Eca! Há petulância maior que essa? Dá nojo só de imaginar! Eu estou aqui para ser apontado, virar assunto na boca dos outros, ser o evento principal da balada, bajular os poderosos e transitar entre a elite, e não me contentar em ser um medíocre amador, que se satisfaz com uma existência simplória e insignificante. Fico na dúvida se uma pessoa assim é digna de pena.

Acredito que o certo é prender todos os amadores em uma grande penitenciaria. Desse modo, os inocentes civis, como eu, ficariam livres de enxergar o lado negro da vida. Afinal de contas, a humildade é acessível para os cidadãos maduros e especiais. Apenas os predestinados são capazes de manuseá-la. E eu, é claro, me incluo nessa lista.

Convenhamos, a modéstia é o meu ponto forte.

sábado, 7 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha

 

"Segredos têm um custo, Peter". 

A palavra reboot, bastante conhecida no ambiente do cinema, é utilizada para esclarecer que algo já feito antes, independente do sucesso, voltará ao marco zero. Ou seja, será recontado por meio de uma nova ótica. É importante não confundir com o nome remake, que se trata de uma versão mais atualizada da mesma história. O Super-Homem, por exemplo, ganhará um reboot em 2013, deixando de lado todos os cinco longas apresentados anteriormente.

Com a promessa de que isso se torne cada vez mais comum nos filmes dos heróis, eis que surge O Espetacular Homem-Aranha, o recomeço da franquia do jovem aracnídeo que desconsidera tudo que foi construído pela trilogia dirigida por Sam Raimi. E, tendo o Homem-Aranha 3 estreado em 2007, fica meio difícil esquecer o que foi feito e evitar comparações com uma trilogia repleta de cenas memoráveis.

 

O enredo original, graças a Deus, permaneceu intacto. E, agora, na tentativa de ser mais fiel às HQ’s. Conhecemos Peter Parker, adolescente que vive com os tios no subúrbio de Nova York. Ele é um garoto gênio, solitário, que só encontra a sua grandeza e importância ao ser picado por uma aranha radioativa. Com a descoberta de suas novas habilidades logo vem as consequências, como a perda de pessoas queridas, o confronto com vilões megalomaníacos, e o encontro com o amor jovial.

Essa nova perspectiva adotada à história do aracnídeo é dirigida por Marc Webb, mesmo diretor de (500) Dias Com Ela, filme que ganhou a graça do público pela forma tocante, realista e cômica com a qual foi conduzido. Esse mérito rende ao Espetacular Homem-Aranha ótimas atuações; Andrew Garfield, que já vinha se revelando desde A Rede Social e O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, nos mostra uma versão mais divertida e, se assim posso dizer, humana, de Peter Parker. Sua interpretação é realçada com a química perfeita ao lado de Emma Stone (Gwen Stacy), a qual não desaponta em momento algum.


A trinca de atuações é completada com a presença de Martin Sheen (Tio Ben). A interação entre os três atores citados é tão impecável, que por um instante me esqueci dos filmes protagonizados por Tobey Maguire. Os problemas começam a aparecer após o evento mais traumatizante da vida de Peter (acho que não preciso dizer o que é). As cenas com a Tia May são mal aproveitadas, tornando opaco todo o brilho que Sally Field tem a oferecer; assim como no longa de 2002, Peter tenta caçar o responsável por ter deixado um vazio em sua família, mas de repente, do nada, ele para e a busca é esquecida até o final.

Neste reinício, a criação da vestimenta está mais acreditável. Contudo, seria sábio da parte dos roteiristas e figurinistas, em uma próxima ocasião, tentarem criar um contexto em que a roupa precise ficar mais bonita. Os infortúnios do reboot não param por aqui: o Lagarto, vilão do filme, deveria ter uma aparência mais animalesca e despertar maior terror no público. Não acontece. A trilha sonora não traz a empolgação que a trilogia de Raimi possuía. E a propaganda do filme, que prometia exibir “a história nunca antes revelada”, referindo-se aos pais de Peter, acaba decepcionando no final.


Aviso: o 3D é dispensável. Há aqui e acolá cenas legais de se ver no tridimensional, porém, para um longa filmado exclusivamente nesta tecnologia, era de se esperar que pelo menos todos os efeitos em CGI estivessem capacitados para causar a sensação de imersão no espectador. Marc Webb sabe direcionar comédia e romance com maestria, mas demonstra que ainda tem muito a aprender quando o assunto é ação. Resta-nos torcer para que, no segundo filme desta trilogia, os erros sejam superados e cenas icônicas sejam elaboradas. O Homem-Aranha está de volta e, infelizmente, não é tão espetacular assim.


Trailer: