domingo, 26 de setembro de 2010

Percy Jackson e o Mar de Monstros





Às vezes eu tenho muita pena dos heróis. Eles não têm descanso, não possuem dias de folga. Só relaxam de fato quando derrotam seus arqui inimigos ou quando morrem, é claro. Eles não são privilegiados pela dádiva de uma vida tranquila e despreocupada. Aliás, ninguém é. Deve ser por isso que também somos hérois... Heróis do cotidiano.


Um bom herói sempre traz consigo uma boa coisa: a vontade de querer acompanhar sua jornada até o fim. Cada aventura sua é repleta por novas missões e desafios a serem ultrapassados. Foi esta vontade que me levou a ler Percy Jackson e o Mar de Montros, segundo volume da saga do jovem semideus filho de Poseidon, pois ele, assim como um bom herói, ainda tem muita história para contar.


Antes de você continuar, leitor(a), devo alertar: pare agora caso não tenha lido o primeiro volume ou não tenha assistido ao filme. Mas caso esteja interessado, leia o comentário que fiz sobre ambos no mês passado, se você tiver amor ao bem estar de sua compreensão, e volte aqui depois.


Rick Riordan mais uma vez faz uma bela mistura de mitologia grega com a atualidade. Percy continua morando com sua mãe no subúrbio de Nova York e certa noite tem um sonho estranho: seu melhor amigo, Grover, o sátiro, estava fugindo de um monstro. Sabendo que seus sonhos sempre significam alguma coisa, ele parte para aula na nova escola com uma pulga atrás da orelha. Lá ele se prepara com seu novo amigo, Tyson, para o que lhes parecia mais uma aula de educação física. Até que são atacados.


A tendência é que as coisas piorem. O que realmente acontece. Percy descobre através de Annabeth que o Acampamento Meio Sangue está em perigo, pois as proteções que defendiam o lugar foram enfraquecidas. A lendária árvore de Thalia fora envenenada, e aquela era apenas uma das providências tomadas para o fortalecimento de Cronos. E o mais interessante, ele descobre que o fato de ter conhecido Tyson não foi mera coincidência.


Com Grover desaparecido, Percy vai descobrindo que seus sonhos com o menino-bode correspondem aos fatos; seu amigo realmente está em apuros e é por meio dos sonhos que pede ajuda. Juntos, ele, Annabeth e Tyson saem em busca do Velocino de Ouro, a única esperança para a restauração do Acampamento. Só que, como sempre, não será fácil. O Velocino encontra-se na ilha de Polifemo, o mitológico ciclope, localizada no Mar de Monstros. E para deixar as coisas menos complicadas, Grover está sendo mantido como refém do dito gigante.


Será que eles conseguirão salvar o amigo das garras do ciclope? Conseguirão encontrar o Velocino de Ouro antes do Acampamento ser extinguido? Poderão eles confrontar Luke e impedi-lo de ressuscitar Cronos?

Desta vez, Rick Riordan nos faz navegar por um mar recheado de monstros, nos faz mergulhar em águas perigosas e cheias de mistério. E Percy, mais uma vez, terá que pôr em prática todo o seu heroismo com a ajuda de Contracorrente, sua espada. Este livro encerra apenas uma parte de toda a saga, e o final revela a Percy e seus amigos que muitas coisas terríveis estão por vir.


A verdadeira batalha ainda não começou.

domingo, 19 de setembro de 2010

As Chaves do Reino - Sr. Segunda-Feira




"E, no primeiro dia, havia mistério".


Venho percebendo a um bom tempo que o número de comentários de filmes é maior que o de livros. Isso é bom, mas preocupante. Não que eu não goste de filmes, eu os adoro, só que também sou amante das letras e por isso acho justo tentar balancear as coisas. E foi então que lembrei de um livro fantasioso que li ano passado, e que deveras me encantou.


O dito cujo chama-se "As Chaves do Reino - Sr. Segunda-Feira", do autor Garth Nix, primeiro volume de uma série de sete livros. Infelizmente, aqui no Brasil, a obra não esteve no topo da mídia, enquanto nos Estados Unidos não posso dizer o mesmo; todos os livros já foram lançados lá fora. Acho que fazer um comentário sobre ele é uma forma de divulgar o talento que Garth Nix tem para escrever ficções.


O livro nos apresenta Artur Penhaligon, garoto órfão que mora com uma família adotiva e sofre de terríveis crises de asma, além do fato de ser medroso. Sua mãe é médica, o pai é músico e é o mais novo de uma prole de cinco filhos. Não é exatamente o que podemos chamar de um herói clássico. Contudo, o garoto revela pouco a pouco que é capaz de desempenhar este papel.


Recém-chegado na nova cidade, Artur vai para o seu primeiro dia na escola. O que ele não esperava era ter que participar de uma corrida na aula de educação física, que resultou em mais uma crise asmática no seu frágil corpo. Enquanto espera por ajuda, o menino recebe a visita de dois homens, um chamado Espirrador e o outro Sr. Segunda-Feira. Eles lhe entregam uma chave no formato do ponteiro de um relógio e um livro. E é aí que tudo muda.


Artur passa a enxergar uma enorme casa em seu bairro, casa esta que nunca estivera ali antes. Para piorar, quando se recupera e retorna à escola, ele é atacado por um homem chamado Meio-Dia de Segunda-Feira. Mas isso não é nada. A coisa realmente piora quando uma praga assola todo o país e pessoas começam a morrer. Ninguém sabe qual é o antidoto para aquela nova doença. E Artur, sabendo que de alguma forma era tudo culpa sua, pega a chave e, graças às instruções do livro que recebera, entra na Casa na esperança de encontrar a cura e salvar todas as pessoas, incluindo sua família.


O que ele não sabia era que dentro da Casa existia um mundo totalmente diferente do seu, e que ali havia pessoas à sua espera. Com a ajuda de Suzy Azul-Turquesa, uma garota que morava na Terra e que foi levada para lá pelo Tocador de Gaita, ele conhece Will, o Testamento. Esse ser explica a Artur que ele é o Herdeiro da Chave do Reino, e está ali para libertar todas as pessoas da Casa Inferior das mãos do Curador, Sr. Segunda-Feira. Agora, para poder salvar seu mundo, ele precisará compreender este novo.


Só que a imaginação que Garth Nix não termina aqui. A parte complicada da história começa agora e eu vou tentar explicar da melhor maneira possível. A Casa é um mundo paralelo que possui sete reinos, cada reino governado por um Dia diferente. A Casa Inferior, reino onde Artur entra, é governada pelo Sr. Segunda-Feira. As Regiões Afastadas, por exemplo, é governada pelo Horrível Terça-Feira e o Mar Fronteiriço, pela Quarta-Feira Submersa. E por aí vai. Tudo bem até aqui? Muito bem, continuemos.


A Casa foi criada por uma entidade chamada de Arquiteta. Ela fez a Casa a partir do Nada, um material que nas mãos certas pode criar tudo. Acontece que em um belo dia, inexplicavelmente, a Arquiteta desaparece e deixa para trás o Testamento. Os Dias dividem o Testamento em partes iguais, sete fragmentos. Will é apenas o primeiro pedaço do Testamento e explica a Artur que ele é o Herdeiro que a Profecia menciona, tendo agora como missão a restauração da paz dentro da Casa e a recuperação de cada parte do Testamento.


Artur, em posse da Chave, assumi a responsabilidade de enfrentar o Sr. Segunda-Feira e cada um dos Dias Seguintes, embora muitas vezes de um jeito relutante. E esse é apenas o primeiro livro. Mesmo sendo uma obra de fantasia, não custa nada dar uma conferida nesta série que instiga nossa imaginação. Porque, de alguma maneira, existe um Artur Penhaligon dentro de cada um de nós.

domingo, 12 de setembro de 2010

Nosso Lar




"Você chegou a pensar que existe vida depois da vida?"


Antes de mais nada, gostaria de deixar uma coisa bem clara: não sou Espírita. Sou apenas um "simpatizante", se assim posso dizer, e um apreciador de filmes nacionais. Não vou tentar discutir aqui questões de fé, até porque acredito que discuti-la é de certa maneira uma perda de tempo. Fé é igual em qualquer lugar, seja no Japão ou em Saturno. O problema mesmo é de que forma você decide propagar esta fé... Enfim, é melhor não continuar, pois religião, assim como a política, é uma área onde não pretendo meter o dedo. Pelo menos não no momento atual.


Se você não for adepto dessa doutrina (esqueci qual outro nome posso atribuir a ela), tente dissipar seus preconceitos por apenas alguns minutos enquanto lê este texto e imagine-o como um filme normal, igual a qualquer outro. Abra sua mente, permita-se conhecer novos horizontes... Acho que às vezes eu mesmo deveria escutar este conselho.


Nosso Lar é o filme brasileiro do momento. Baseado na obra psicografada por Chico Xavier, o filme nos conta a vida de André Luiz (o verdadeiro autor do livro, diga-se de passagem), médico que vive no Brasil da década de 30. Apunhalado por uma doença, André não resiste e morre. Quer dizer, o seu corpo morre...

André cai de peito no Umbral, um lugar comparado ao Purgatório, onde almas pecadoras e agoniantes vagueiam pela eternidade. Após passar um tempo imerso no desespero daquele lugar funesto, ele é resgatado e vai para a Colônia Nosso Lar, uma cidade cercada por Ministérios que chega a lembrar Brasília. Lá ele aprende a seguir regras, volta a trabalhar (mas não exercendo a medicina terrestre) e reencontra velhos conhecidos. Com o auxílio de alguns ministros e do próprio Governador, ele entende que para voltar a ver sua família é preciso ter merecimento e passa a abandonar os antigos sentimentos que o fizeram tornar-se um homem arrogante.

E agora iremos sair um pouco do enredo e adentrar na parte técnica do longa. Eu diria que 50% de Nosso Lar é constituído de Efeitos Especiais. De boa qualidade, por sinal. Não é à toa que foi o filme nacional mais caro até aqui. A maneira como a cidade foi projetada é bastante interessante. A trilha sonora também é de se chamar a atenção, e devo dizer que é até exepcional em certos momentos.


Não li o livro e também não tenho interesse. Todavia, gostei da organização que vi em Nosso Lar. Muito ousado para um filme nacional. Acho que é disso que o nosso cinema precisa, mas não necessariamente com um orçamento exacerbado. Em determinadas situações, a beleza encontra-se na simplicidade.


Vale a pena dar um passeio para conhecer a Colônia Nosso Lar. Porque, como o nome já diz, lá todos nós somos bem vindos. Estamos esperando por você.

sábado, 4 de setembro de 2010

O Homem que Copiava




"Dinheiro... é só um pedaço de papel que todo mundo acredita que vale alguma coisa. Se ninguém acredita, não vale nada."


Percebi esta semana, caro(a) leitor(a), que já faz algum tempo que eu não posto um comentário sobre um filme nacional. O que de certa forma foi um pecado de minha parte, pois sou fanático por filmes nacionais. Filmes bons, é claro. De boa qualidade e conteúdo. Acho que já tratei deste assunto aqui quando escrevi meu primeiro comentário cinematográfico.

Bom, se tratando de filmes nacionais, posso proferir diversos títulos que me agradam. Mas há entre eles um que se destaca com um louvor de altíssima dimensão. Este que, na minha concepção, é uma das melhores produções brasileiras já feitas em todos os tempos. Sei muito bem que alguns irão me criticar (e poucos irão concordar), contudo, meus olhos não têm como não observar a grandiosidade de "O Homem que Copiava".


O filme foi dirigido e escrito por Jorge Furtado (Louvado seja!) e é protagonizado por Lázaro Ramos, um dos melhores atores nacionais da atualidade(e um dos meus preferidos também). O enredo nos mostra o cotidiano de André (Lázaro), jovem de 19 anos que trabalha numa papelaria na função de operador de fotocopiadora na cidade de Porto Alegre. Nas horas vagas, André fica em casa lendo, desenhando, assistindo tv e às 23h ele vai bisbilhotar os vizinhos com seu binóculo. Foi em uma dessas empreitadas que ele conheceu Silvia (Leandra Leal) e apaixonou-se à primeira vista.


O que encanta o espectador em O Homem que Copiava não é apenas a simplicidade com que Lázaro Ramos encarna André, mas também a simplicidade que a história carrega; pois, basicamente, esse filme conta uma história de amor. Porém de uma maneira inteligente e nada habitual.


André passa a seguir Silvia e descobre onde ela trabalha. Ele entra na loja e se encanta ainda mais com a garota. Como ela trabalha em venda de roupas, ele decide comprar uma peça feminina para sua mãe que custa 38 reais. O problema é que André é duro e precisa pedir dinheiro emprestado para alguém.


Através de sua colega de trabalho, Marinês (Luana Piovane, e vale salientar que sua atuação ficou ótima), ele conhece Cardoso (Pedro Cardoso, aqui fazendo o que sabe fazer de melhor: ser engraçado) a quem pede os benditos 38 reais. Só que Cardoso também é um duro.


E é em momentos como esse que não podemos medir o que um homem apaixonado é capaz de fazer. André nos conta no início do filme como é operar uma máquina fotocopiadora. Uma descrição que para alguns pode ser desnecessária, mas a máquina revela-se o objeto primordial do filme. Ele copia uma nota de 50 reais e finalmente compra a tal roupa, em troca ganhando o sorriso da mulher idolatrada.


À medida que a relação de André e Silvia vai se itensificando, seus atos vão ficando mais preocupantes. Ele continua a copiar dinheiro sempre em prol da alegria da garota ou de sua segurança e acaba, sem perceber, se metendo na maior roubada. Será o amor capaz de salvá-lo? O dinheiro realmente pode comprar tudo, inclusive a inocência de seus atos criminosos? André vai descobrindo na base do sacrifício que ter muito dinheiro é uma tarefa perigosa que pode causar graves consequências.

É provável que alguns espectadores não gostem das formas com as quais os personagens resolvem seus problemas, mesmo assim isso não estraga a beleza do filme.

Estou me coçando para contar mais coisas sobre este filme, mas tenho medo de estragar a ansiedade de quem for assistir. Mas garanto uma coisa: O Homem que Copiava faz parte de um conjunto completo de bons elementos; você se admira com a história e com as atuações, você se encanta pela forma como a qual o filme foi dirigido, escrito e editado, você entra no clima de adrenalina e tristeza que a trilha sonora lhe proporciona...


E o final... Ah, que belíssimo final! Uma mistura poética de psicologia com filosofia e ideologia que permeia todo o longa e se converge no último momento.


Vou parar de falar porque acho que já consegui de você o que queria: a curiosidade de ver o filme. E não se arrependerás. Não mesmo.


"Tem uns detalhes que eu não posso e nem quero falar. Não importa. Quando a gente conta, tudo acontece rápido e parece que as coisas se encaixam. A vida é mais complicada que um quebra-cabeças... Agora parece mais fácil entender a vida".

Só vai entender quem assistir o filme:

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

( trad. Ivo Barroso)

William Shakespeare - Soneto 12

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Hora da Estrela


Existem certas coisas que um bom leitor precisa saber: você não vai passar a eternidade lendo um determinado gênero que gosta ou lhe chama mais a atenção. Ninguém possui tamanha liberdade literária. Sempre existirá um sujeito que lhe indicará um livro, ou haverá aqueles que irão impor-lhe uma leitura diferente da habitual.


No meu caso, como faço parte do vasto universo das letras, é exigido de minha parte que eu possua um conhecimento maior do mundo literário e que não fique somente preso àquilo que mais me interessa. Não estou reclamando, veja bem; dentro da minha realidade isso é bom, só não sei se para você também será. Graças a esse enorme leque de caminhos literários, eu pude conhecer Machado de Assis, José Saramago, Graciliano Ramos... E há dois dias tive a oportunidade de conhecer Clarice Lispector.


No decorrer de 24 horas, eu li A Hora da Estrela, livro de apenas 87 páginas. Estava curioso com relação a esta obra, pois já havia escutado muitos elogios. Cuidado com a curiosidade, muitas vezes ela pode lhe cegar; você não é obrigado a gostar de uma coisa só porque eu gostei. No entanto, também há a possibilade de você colher bons frutos.


O enredo nos mostra a jornada de uma jovem moça nordestina, cujo nome é capaz de impregnar sua mente e não sair mais de lá. Macabéa. É até bonito, se prestarmos bastante atenção... Mas não é só o nome que crava na nossa memória, e você verá o porquê.


Macabéa é do estado de Alagoas e foi tentar a sorte no Rio de Janeiro logo após a morte de sua tia, único parente vivo que lhe restava. Não que ela soubesse o que era sorte, porém isso não vem ao caso: Macabéa não sabia de quase nada mesmo. Ela dividia um quarto com mais quatro mulheres na rua do Acre e logo conseguiu um empreço de datilógrafa. Ela era totalmente incompetente naquilo que fazia e logo não demorou muito para que fosse ameaçada de demissão. Como diria o narrador: "Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma".


Macabéa nunca perdia a fé, embora não soubesse quem era Deus. Ela não fazia perguntas porque achava que não tinham resposta. Ela não sabia o significado da "realidade". As coisas eram daquele jeito e ponto final. Para ela, o fato de viver já bastava, só que não sabia qual era o objetivo da vida... Ela gostava de olhar os navios no cais do porto aos domingos, uma vez por mês ia ao cinema e ainda se dava ao luxo de tomar coca-cola. Ela não era muito de falar, mas gostava de ruídos. À noite, antes de dormir, ouvia a Rádio Relógio e memorizava os anúncios e os ensinamentos que ela lhe repassava. Nunca recebia presentes, achava bom ficar triste, tinha enjoo de comida, não tinha conhecimento da existência de outras línguas e sempre recortava anúncios de jornais para colá-los em um álbum.


Até que em uma tarde do mês de maio, dia em que não foi trabalhar, Macabéa conhece seu futuro namorado: Olímpico de Jesus. "O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam". Olímpico viera do sertão da Paraíba e trabalhava numa metalúrgica. Era ambicioso, queria ser famoso e guardava segredos obscuros. Era totalmente impaciente com relação ao jeito de Macabéa e acabou terminando com ela para namorar sua colega de trabalho, Glória.


Confesso que realmente não sei bem o que pensar deste livro. (E isso não significa que ele seja ruim). Macabéa mexe com a pessoa, mexe comigo... Por isso que não há como esquecê-la. O seu jeito inocente, obediente e desatualizado chega a ser gritante em certos momentos. Por que ela é assim? Por que não toma um rumo em sua vida? O problema é que nem ela sabe e nem se dá ao trabalho de se perguntar. Até mesmo o narrador fica indignado.


Acho que além de Macabéa, o narrador é o ponto forte do livro. Ele vai construindo os personagens no decorrer da narrativa e não esconde isso do leitor. Ele mostra seu sentimento de compaixão pela ingênua nordestina e chega a dizer que a ama. Afinal, que tipo de pessoa diz a um médico "muito obrigada" quando ele acaba de dizer-lhe que tem tuberculose? Só Macabéa mesmo.


Não sei o que de fato Clarice quis passar com essa obra. Talvez a inocência que poucos ainda possuem nesse mundo cruel, ou a falta de oportunidades que sofrem aquelas pessoas vítimas do êxodo rural. Eu não sei... A Hora da Estrela é um livro que nos leva a refletir sobre os fatos da vida; quantas Macabéas devem existir por aí? É um livro que desperta dentro de nós a vontade de ajudar a pobre protagonista e livrá-la das profundezas da miséria.


Macabéa, a mulher que encanta através da sua simplicidade, e nos espanta com seu puro coração.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Morte: a consequência da vida






Acredito que a morte seja divertida. Ou, no mínimo, interessante.



Tendo em vista que a morte é o fim de uma vida cheia de sofrimentos, alegrias, ganhos e perdas, é sensato imaginar que sua chegada seja macia e reconfortante, amenizando as dores de uma existência inteira, de um modo que somente ela é capaz de fazer.


É assim que espero que aconteça comigo.


E com você também.


Porque, afinal, eu e você estamos fadados a encontrá-la. E como esse encontro é inevitável, espera-se ao menos que ela tenha um pouco de compaixão e nos leve a um lugar melhor, onde todas as sensações são boas.


Acho que é assim que acontece. E se não for, estamos todos perdidos.



Mas como aceitar o fato de alguém próximo morrer? Um parente, um amigo de infância, ou um vizinho simpático... A morte pode ser gentil e ao mesmo tempo traiçoeira; ela nos visita sem mandar avisos, e vai embora deixando tristezas. Pobre morte, tão incompreendida... Por que sempre é vista como vilã e não como libertadora? Por que sempre temos medo dela? E, principalmente, por que ela sempre nos faz chorar quando leva de nós alguém tão especial?


Por causa da incerteza. Por causa da saudade. Do medo. A vida é um dom tão precioso que o fato de deixá-la para trás é assustador. A única certeza que temos na vida é que a morte um dia nos encontrará. É um grande mistério, essa viagem sem volta... E nós nunca estaremos preparados para partir, para dizer adeus, deixar para trás toda família e amigos, tudo que construímos e que fazem parte de nós.


Talvez, no final das contas, a estratégia da morte tenha boas intenções; ela não nos dá o luxo da despedida, pois se este privilégio nos fosse dado, provavelmente a dor da perda fosse bem pior. Não adianta implorar pela morte e querer se juntar àquele ente querido que já se foi. Sua hora vai chegar, de um jeito ou de outro. É só ter paciência...


Vida e morte são opostos que se atraem. São o equilíbrio do Universo. Eu e você, seres de carne e osso, não podemos mudar as engrenagens que movem esse enorme sistema. Se pudéssemos, não teria a menor graça. Temos mesmo é que viver, essa é a nossa missão, porque nosso tempo é curto e pouco a pouco ele vai se esgotando. Vamos brincar na rua e subir em árvores, vamos comer até da dor de barriga, vamos assistir filmes até o amanhecer, vamos descobrir a deliciosa sensação de amar, vamos fazer cada vez mais novas amizades, vamos abraçar pessoas, vamos nos entregar ao aconchego do abraço dos nossos avós, vamos relaxar com os cafunés dos nossos tios, vamos sentir segurança na presença dos nossos pais, vamos rir, vamos ter dúvidas, vamos trabalhar, ter responsabilidade... Vamos sentir dor, tristeza, saudade... Vamos cair e depois aprender a levantar... Vamos chorar. E muito. Vamos erguer a cabeça e seguir em frente... Vamos deixar as boas lembranças nos encherem de alegria...


Pois, no fim de tudo, o repouso final estará nos aguardando. E quer saber de uma coisa? Ter o merecido descanso após uma boa vida é melhor do que nada. Porque o sentido da vida é a morte, e ela nos levará a uma nova jornada.

Autor: Leonardo da Vinci Figueiredo da Cunha

* À memória de Dona Francisca, querida e amada avó.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Enfim... coisas de canhoto





Como havia dito na postagem de ontem, cá estou novamente. Desta vez não para tecer comentários sobre um filme ou um livro, mas para homenagear certas pessoas que correspondem apenas a 10% da população mundial. Sim, estou me referindo aos canhotos. E se você, amigo(a) leitor(a), já vem acompanhando este blog há algum tempo, já deve ter percebido que sou canhoto. E tenho orgulho de ser. Graças a Deus!




Mas por que hoje é o Dia Internacional do Canhoto? Eu não sei, e pelo que li em minhas pesquisas na internet, esse é um mistério que quase ninguém sabe responder. Decidiram que seria assim e pronto. Uma coincidência trágica do destino. Por que trágica? Vou dizer o porquê.




Ser canhoto não é fácil. Tanto hoje como antigamente (se bem que no passado a coisa era bem pior). A minha avó, por exemplo, cresceu numa época em que ser canhoto era uma coisa feia, e assim foi obrigada a escrever com a direita. Lembra-se daquelas carteiras com um braço só? Por que você acha que a grande maioria era com o braço direito? Aí vai a resposta: porque o canhoto é minoria e, como tal, "deve" se adequar aos padrões impostos pelo mundo destro. E essa é a realidade nua e crua: ao longo da história, o mundo vem sendo controlado por destros. A tesoura foi feita para os destros. O abridor de latas foi feito para destros. Quando você vai cumprimentar alguém, tem que apertar sua mão direita. Acordar com o pé esquerdo é sinal de azar. Na política, se você faz parte do partido esquerdista, é visto contra o sistema.


Viu? Não é nada fácil. Imagine na antiguidade, onde pessoas eram mortas e queimadas, simplesmente por serem "estranhos". Era dessa forma que o povo julgava; se você era diferente de todo mundo (destros), você era um feiticeiro, um usuário de magia negra, ou um parente do Diabo. E lá ia você para fogueira... Inocente. Injustiçado.


E para piorar, como já relatei, o dia do canhoto é celebrado num dia 13, que para muitos é o sinal do mal. "O número 13 é considerado de má sorte. Na numerologia o número 12 é considerado de algo completo, como por exemplo: 12 meses no ano, 12 tribos de Israel, 12 apóstolos de Jesus ou 12 signos do zodíaco. Já o 13 é considerado um número irregular, sinal de infortúnio. A sexta-feira foi o dia em que Jesus foi crucificado e também é considerado um dia de azar. Somando o dia da semana de azar (sexta) com o número de azar (13) tem-se o mais azarado dos dias." Fonte: Wikipédia.

Como dizia o meu nobre conterrâneo potiguar, Luís Câmara Cascudo, em seu livro Dicionário do Folclore Brasileiro, "o dia 13 é um número fatídico, pressagiador de infelicidades. A superstição de evitar 13 convidados à mesa é tradicional como uma reminiscência da Santa Ceia, quando Jesus Cristo ceou com os seus 12 apóstolos, anunciando-lhe a traição de um deles e seu próprio martírio".


E para deixar a situação ainda mais desagradável, além de hoje ser dia 13, é sexta-feira. Sexta-feira 13 é considerado o dia em que as bruxas estão soltas, dia carregado de maldade. Canhoto já era associado com coisa ruim, e ainda tem essa...


Só que ser canhoto também tem lá suas vantagens. Estudos mostram que nós utilizamos o cérebro com uma potência maior do que os destros, e por isso temos uma tendência maior para a loucura. Canhoto tem a cabeça voltada para as artes. Canhoto escuta melhor que os destros. Existem até aqueles que se dão bem nos esportes, como Ayrton Senna. Isso sem contar que grandes gênios da humanidade foram canhotos, como Albert Einstein, Charles Chaplin, o próprio Da Vinci, Beethoven, Issac Newton, Benjamim Franklin, Pablo Picasso, o vocalista do Linkin Park, Mozart, Gandhi, Machado de Assis...



Mas também tivemos canhotos malvados, como: Hitler, Bush e Napoleão.


Espero ter mostrado com êxito uma pequena parte de mundo canhoto. E, como eu sei que com certeza tem algum canhoto lendo isto, eu lhe desejo sinceramente um feliz Dia do Canhoto!

Esqueci de dizer que muitos canhotos têm hábitos interessantes. Eu, por exemplo, às vezes leio de trás para frente. Tenho um amigo canhoto que escreve de trás para frente. Eu esqueço de dar recados, eu tropeço em lugares e derrubo coisas que estão próximas de mim. E também falo e faço coisas sem nexo... Desastrado, distraído, no mundo da lua... São minhas canhotices.

Enfim... típico de um canhoto.